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Prólogo .  

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Era o ano de 1450 após o grande cataclismo que abalou todo o mundo Conhecido, e não importava o que fizéssemos, o frio parecia aumentar a cada minuto. Já era a terceira vez que Eurid tentava em vão avivar o fogo da lareira, remexendo a lenha com um atiçador de ferro. Entretanto, as chamas fracas teimavam em desaparecer por entre a madeira, fugindo da ponta de ferro como crianças brincado de esconder. Eurid deu um longo suspiro e arremessou o atiçador com força contra o chão de pedra, fazendo o barulho ecoar por toda a sala.

- Os escribas são conhecidos por possuírem uma paciência inabalável, Eurid - Falei em tom sarcástico, enquanto cobria meus ombros com algumas peles de urso, as enrolando como se fossem um casulo.   

- Perdoe-me senhor, mas creio que não teremos o calor do fogo como companheiro esta noite - respondeu Eurid, deixando escapar um leve rubor ao caminhar em direção a sua mesa de trabalho. - O inverno nessa parte de Ludgrim é extremamente feroz.

Já fazia meses que estávamos trabalhando juntos. Eu ditava enquanto Eurid escrevia, e como ele escrevia. Diversos rolos de pergaminhos já haviam sido levados para serem copiados, e uma quantidade ainda maior empilhava-se ao pé da mesa, com muitos ainda por vir.

Eurid remexeu a tinta do frasco com a ponta da pena para desfazer uma fina crosta de gelo que havia se formado. Retirou um pergaminho novo de um cesto de palha e o esticou sobre a mesa, preparando-se para escrever. No entanto, algo lhe veio à mente e ele me olhou intrigado, recolocando a pena no frasco de tinta.

- Perdoe-me senhor - começou Eurid, me olhando com o cenho franzido - mas os últimos escritos que levei deixaram as pessoas um pouco confusas. Muitos pensavam que a Seita Bankdi havia surgido em Verrogar, e não na Levânia. Isto é certo?

Eurid não era como os outros escribas, que apenas escreviam o que lhes vinha aos ouvidos, sem a menor preocupação ou interesse sobre o que estavam registrando. Ele lia e refletia sobre todas as minhas palavras, e argumentava, como um magistrado em busca da veracidade no testemunho de um criminoso. E eu gostava daquilo.

- Este é um erro comum - procurei falar com solenidade, enquanto apertava ainda mais a pele de urso contra meu próprio corpo. - Muitos realmente pensam assim, mas a verdade é que os primeiros aparecimentos da Seita se deram no reino da Levânia, e em pouco tempo, todo o mundo sucumbiu ao seu poder.

Eurid me olhava com ar interrogativo, com suas feições transbordando dúvidas. Ele já ouvira - como todos em Ludgrim e em outros reinos - as histórias sobre a Seita e sua passagem por Tagmar. Entretanto, nunca da boca de alguém que de fato participou daquelas batalhas, alguém que houvesse enfrentado as flechas envenenadas, cortado carne bankdi e estado ao lado do Mais Sábio. Eu fiz todas estas coisas, e sabia que minhas palavras pesavam mais que as dos outros. 

Levantei e caminhei até a janela destravando a tranca para abri-la. Uma rajada de vento entrou sem o menor pudor, como se houvesse sido convidado, preenchendo toda a sala da torre com seu ar gélido que fazia o frio penetrar fundo nos ossos. As partes expostas do meu corpo ardiam como brasa, queimando quando tocadas pelo vento. Mas valia o sacrifício. Do alto daquela torre era possível ver toda a cidade de Donatar, e toda a extensão de terra mais além, com seus montes de florestas verdes e cumes brancos, que formavam vales, por onde rios serpenteavam até não poderem mais ser vistos. 

Senti os movimentos de Eurid e me virei para encará-lo. Ele estava ajoelhado em frente à lareira remexendo a madeira com o atiçador, em mais uma tentativa de aquecer nossos corpos.  Olhei novamente em direção aos vales de Ludgrim e estremeci com mais uma rajada de vento.

- Eurid, largue isso e venha para continuarmos o trabalho. O movimento da escrita irá aquecê-lo.

- Mas Kerdal, e o senhor? - Perguntou o escriba, com uma preocupação que me pareceu genuína. - Não está com frio?

- Sim, estou - respondi, ajeitando as peles sobre meus ombros. - Mas essa pele de urso irá aquecer meu corpo, e minhas lembranças aquecerão minha alma.

Eurid sentou-se à mesa remexendo novamente a pena no frasco de tinta e rompendo uma nova crosta de gelo que havia se formado.

- Sobre o que escreveremos hoje, senhor? Perguntou Eurid, displicente, enquanto enumerava os pergaminhos.

- Sobre o começo do fim da Seita, Eurid.

- Como assim, senhor?

Olhei novamente os extensos vales, com suas árvores e rios, e beijei com ternura e reverência o símbolo de Crizagom que sempre carregava comigo.

- Falaremos hoje, Eurid, de quando as coisas realmente começaram a mudar. De quando a esperança retornou aos corações dos homens, iniciando o fim das forças infernais. Falaremos hoje, da Batalha dos Mil Mártires, e de como foi recuperada a Pedra Negra, nossa grande arma contra a dominação dos Príncipes Demônios.  

Eurid me olhou espantado, mas logo se ocupou a escrever, e eu, como que em um transe, mergulhei em minhas lembranças, enquanto o som rabiscado da pena arranhando o pergaminho era substituído por sons de conversas e discussões. De repente, o ar ficou tremendamente quente e abafado.

***

Andreus desenrolou o mapa da cidade de Zanta em cima de uma pesada mesa e apoiou seu elmo em uma das pontas do mapa, duas manoplas em outras duas e uma lamparina na ponta restante. A sala era terrivelmente pequena, na verdade, era a cozinha de uma casa abandonada, cujo dono havia fugido ou morrido em meio ao caos. Ela estava apinhada de gente, todos paladinos de Crizagom, com suas armaduras, armas e escudos. Como Andreus, estávamos cansados e sujos, e poucos de nós haviam dormido mais que uma hora ou duas, de cada vez, nos últimos três dias de batalhas. E como os soldados que aguardavam do lado de fora da casa, estávamos à beira da exaustão completa.

  Estiquei o pescoço na esperança de obter algum vislumbre do mapa, mas tive de me contentar em apenas ouvir o que nosso líder dizia.

- Os malditos bankdis estão por toda parte, e nossos batedores avistaram reforços chegando por aqui, aqui e aqui - ele apontava no mapa os locais em que o inimigo estava, e embora eu não conseguisse ver, percebi que estávamos perigosamente cercados.

Logo no início, possuíamos uma grande quantidade de soldados, entre homens do rei, sacerdotes e paladinos de Crizagom, mas tivemos muitas baixas nos primeiros ataques, com muitos de nossos irmãos caindo vitimas de flechas envenenadas. Agora, contávamos com pouco mais de mil sacerdotes e nenhum soldado do reino. O próprio rei Juliam havia morrido no primeiro confronto, ao tentar salvar seu filho de um cerco bankdi.

- Nosso único objetivo é recuperar a Pedra Negra - a voz de Andreus soou alto acima dos murmúrios de aprovação. - Mas não será fácil, pois ela deve estar muito bem protegida.    

- E como iremos achá-la, senhor? - perguntou Cavam, transferindo seu olhar do mapa para os olhos de nosso mestre. - Há milhares de malditos demonistas lá fora!

Muitos soldados murmuraram concordando e olharam para Andreus ávidos por uma resposta segura e convincente. Cavam - além de ser o segundo em comando - era um guerreiro experiente e leal aos preceitos de Crizagom, sendo suas palavras sempre muito bem aceitas. Havíamos nos conhecido quando ainda éramos noviços, ao construímos juntos um pequeno tempo do outro lado do vale norte, e nossa amizade apenas se fortaleceu com o passar do tempo.

- Como eu disse, essa tal de Pedra Negra deve estar muito bem protegida - respondeu Andreus com um sorriso forçado. - De forma que devemos procurá-la onde houver a maior concentração de poder do inimigo. Ou seja: onde estiver o Lorde Infernal, lá estará a pedra.  

Os guerreiros apinhados na sala se entreolharam, buscando uns nos outros uma boa objeção para aquela loucura. Contudo, o argumento de Andreus fazia sentido, e todos fizeram um sinal pedindo a proteção do deus da justiça para a batalha que estava por vir, inclusive eu.

Olhei para Targo, que estava ao meu lado, e ele me retribuiu o olhar com um sorriso. Targo era o melhor guerreiro que eu conhecera, com quase dois metros de altura, impressionava por sua inteligência e raciocínio rápido. Fora ele quem me treinara, e a ele era grato por ter salvado minha vida uma dúzia de vezes.

- Senhor, com todo o respeito - uma voz vinda do outro lado da sala atraiu nossa atenção. Era um jovem rapaz, ordenado paladino havia pouco tempo, cujo nome não me lembro.  - Os homens estão falando em se render. O exército inimigo é quase cinco vezes maior que o nosso e já dominou a maior parte da cidade. Não podemos vencer e...

- Vencer? Quem falou em vencer, garoto? - Andreus reagiu irado. - Quando vi os malditos rompendo nossas defesas e passando aos milhares pelos portões da cidade soube que não poderíamos vencer. Isso não tem nada a ver com vitória, tem a ver com lutar por um ideal, honrando nossos votos e promessas. Se falharmos, não haverá mais Tagmar.

- Mas então... - O jovem ficou pálido e fitou o mestre da Ordem de Crizagom com um olhar incrédulo.  - O que o senhor pretende fazer? 

Andreus olhou cada rosto naquela sala, e eu senti uma incrível força quando seus olhos encontraram os meus. Ele deu um longo e profundo suspiro e retirou as duas manoplas que apoiavam o mapa.

- Fui um devoto de Crizagom a minha vida inteira. Justiça, honra, bravura, disciplina e estratégia, são preceitos que sempre estiveram comigo - recomeçou Andreus, calçando as manoplas de ferro. - Já carregava suas palavras na boca e sua espada nas mãos antes mesmo de me tornar um homem. E mais uma vez tenho a oportunidade de fazer a justiça valer nessas terras, e não pretendo desperdiçá-la. Um homem pode esperar a vida toda por um momento como este e nunca chegar a ele. Alguns simplesmente ficam velhos e doentes, morrendo em alguma cama fedorenta. Nós vamos morrer jovens e fortes, e eu não gostaria que fosse de outra forma.

- Mas nós podemos sair da cidade, ir para as montanhas da cordilheira de Keiss...

- Venham para fora, andem! Não vou gastar saliva com vocês! 

Andreus prendeu a bainha de sua espada na cintura e pegou o elmo na mesa, caminhando com passos largos em direção a porta. Na rua havia cerca de mil guerreiros seguidores de seu deus. Estavam todos sujos e cansados, com bandagens enroladas em cortes. Mas mesmo em um estado deplorável, não pareciam derrotados, e esse pensamento trouxe lágrimas aos olhos de Andreus, fazendo com que suas palavras saíssem em jorros de fúria.

- Sou Andreus Tonar e todos me conhecem. Sou o mestre da Ordem de Crizagom e, assim como vocês, estou morrendo de medo. Gostaria de estar em uma confortável casa a beira de um lago, com uma boa mulher e filhos. Sei que poucas coisas são mais importantes do que sonhos, família e os prazeres da carne. Contudo, algumas coisas são, e esse conhecimento é o que nos torna homens.

Eu estava a poucos metros atrás de Andreus, e daquela posição, pude ver lágrimas brotar nos olhos de uma dúzia de soldados e, para minha surpresa, nos meus também. Andreus desceu a pequena escada da casa e infiltrou-se no meio da multidão, de onde tomou fôlego para que sua voz chegasse nítida a todos os ouvidos.

- Irmãos, não há necessidade de adiar o inevitável. Juntem os homens, todos em posição para atacarmos a maior coluna do exército inimigo. Quem quiser ir embora, que vá, com a minha benção. Encontrem outra vida em algum lugar e não ousem dizer que um dia lutaram por Crizagom. Os que ficarem, quero todos perfilados aqui, fazendo uma barreira com os escudos com, no mínimo, vinte homens de profundidade. Lutaremos aqui, na rua principal da cidade de Zanta, pois isso nos dará bastante espaço e as casas ao redor impedirão que os malditos nos flanqueiem. Agora vão! E que Crizagom esteja com vocês - Ele bateu com o punho cerrado contra o peitoral de ferro e, logo em seguida, projetou o braço para frente, como se desse um soco no ar, enquanto pronunciava o grito da Ordem de Crizagom: ‘Honra e Força!’, sendo acompanhado por centenas de vozes. Depois de uma hora estávamos todos ali: sujos, cansados e em menor número. Mas prontos para esmagar nossos inimigos.

Eu estava na primeira fila quando o exército demonista surgiu no início da rua principal que dava para o castelo de Zanta. O castelo havia sido construído no alto de uma colina e nós nos posicionamos a menos de um quilômetro de seus muros, para termos a vantagem de lutar na parte alta da cidade. De onde eu estava podia ver o tamanho do exército inimigo, uma verdadeira horda de demonistas que preenchia toda a extensão da rua. E ainda brotavam mais, a cada minuto, como se saídos do chão, vindos das profundezas dos planos infernais.

Ao meu lado direito estava Cavam, meu melhor amigo, e no meu flanco esquerdo, Targo, meu tutor. Não conseguia pensar em melhores companhias com quem dividir carcaças bankdis. 

Quando nos avistou, o exército inimigo hesitou e, após um breve soar de uma corneta, parou completamente a cerca de quinhentos passos de distância. Um homem careca, com o corpo pintado de vermelho e nu até a cintura, se adiantou.

- Seus vermes - gritou o homem, com o dedo percorrendo nossas fileiras. - Vocês não passam de porcos imundos e suas mães de cadelas miseráveis. Todos vocês morrerão hoje e eu oferecerei seus corpos ensangüentados ao meu senhor.

Aquilo era claramente uma provocação, mas, obedientes, nenhum de nossos homens se adiantou, respondeu ou atacou. Vendo que suas palavras estavam sendo jogadas ao vento, o demonista começou a pular e a uivar como um animal, rodopiando e proferindo palavrões.

- Suas línguas apodrecerão, suas tripas criarão vermes e seus olhos ficarão pretos. Vocês assistirão ao estupro de suas mulheres e ao assassinato de seus filhos, e tudo o que apreciam nesse mundo será destruído. - Ele cuspiu em nossa direção e seu rosto se contorceu em um sorriso macabro. Voltou caminhando lentamente para as suas fileiras, onde foi ovacionado como um herói.

Olhei assustado para Cavam e ele me deu alguns tapinhas nas costas para espantar meu temor óbvio. Retribui com um aceno de cabeça e, após um longo suspiro, comecei a entoar um de nossos cânticos preferidos nos cultos a Crizagom:  “A Canção da Justiça“, sendo seguido pelas vozes de todos os bravos guerreiros de Crizagom que lá estavam.

Desde aquele dia até hoje nunca mais ouvi essa canção cantada por guerreiros, e nunca mais ouvi tão bem cantada do que naquele trecho da rua principal de Zanta. Éramos poucos, mas éramos os melhores guerreiros de Crizagom. Não havia em nossas fileiras um homem fraco sequer, e apenas poucos eram jovens. A maior parte era de guerreiros experientes, endurecidos pela guerra e fortalecidos pela fé. Não havia um homem ali em quem não pudéssemos confiar, e cuja coragem fosse fraquejar por algum momento. Embora eu fosse o único meio-elfo nas linhas de batalhas, nunca fui discriminado, éramos todos irmãos e eu me sentia em casa. Cantávamos para aplacar nossos temores e dúvidas, e para abafar a zombaria do inimigo. E como cantamos naquele dia. 

A canção terminou com um urro feroz. Senti-me terrivelmente bem disposto como se as bênçãos de Crizagom estivessem comigo, e eu não era o único, pois mesmo antes desse urro terminar, Targo tinha caminhado para fora de nossa formação desafiando os inimigos. Os chamou de cães do inferno, cuspiu em suas honras e os convidou a sentir o peso de sua espada. Uma corneta soou tão alto por de trás das linhas inimigas que me fez estremecer. Cavam tocou o meu braço e eu dei um salto para o lado com o susto. Ele riu de mim e pôs a mão em meu ombro, chegando seu rosto mais próximo de meu ouvido para que sua voz não fosse abafada pela corneta estridente. 

- Kerdal, saiba que foi um prazer e, acima de tudo, uma honra lutar ao seu lado. - Ele se afastou e desembainhou a espada. E antes que eu pudesse protestar contra suas palavras agourentas, todos os guerreiros ao meu redor desembainharam suas espadas, e o grito de Andreus me fez olhar para frente. O inimigo, enfim, estava avançando. 

Não demorou muito para as duas forças se encontrarem, e durante o primeiro embate, dezenas de corpos bankdis ganharam o chão. O exército inimigo podia ser grande - e era - mas não chegava perto de nossos guerreiros em habilidade militar. Matávamos com facilidade e logo nosso avanço foi interrompido por uma coluna de corpos que se amontoavam sob nossos pés. A mistura de sangue e terra tornara o terreno lamacento e escorregadio, de forma que eu tive de me apoiar por duas vezes em Cavam para não cair e ser pisoteado por meus próprios companheiros.  

Eu estava golpeando com minha espada de cima para baixo num frenesi involuntário, e meu braço começou a ficar dormente devido ao cansaço. Não agüentaria aquele ritmo por muito tempo. Naquele momento, percebi que era exatamente esse o plano do inimigo: eles tinham um exército fraco, de modo que matávamos sem dificuldade, mas a proporção era absurdamente desigual, com cerca de cinco inimigos para cada um de nós. E assim que cansássemos, seriamos engolidos por um mar de demonistas.

Tentei forçar passagem para frente, em direção a Andreus, mas não consegui dar mais de três passos. Gritei para que recuassem, mas ninguém me deu ouvidos. E porque dariam? Estávamos matando e vencendo, mas indo para uma armadilha.

Foi então que ele apareceu. O Lorde Infernal em pessoa surgiu de trás de seu exército, brandindo uma maça-de-armas gigantesca, com sua armadura negra que cobria todo o corpo. O próprio Demônio era quase quatro vezes maior que Targo, e cada passo seu cobria três metros com facilidade, fazendo-o avançar com velocidade em nossa direção. 

O primeiro golpe foi arrasador, derrubando três de nossos guerreiros. O demônio rompeu nossas defesas com facilidade e cada golpe com sua maça-de-armas derrubava três ou quatro homens de uma só vez, e ele avançava como um cozinheiro enxotando os ratos de sua cozinha.

Vi quando Andreus direcionou sua coluna de soldados para bloquear o caminho do Demônio. Era uma manobra difícil, mas os guerreiros a realizaram com eficiência e disciplina exemplar, movendo-se como se fosse um só corpo. 

Um homem com o rosto pintado tentou me espetar com sua lança, mas a desviei com meu escudo e o cortei por baixo, fazendo-o cair. Cavam completou o trabalho furando seu pescoço antes que levantasse. Outro demonista veio ao meu encontro brandindo um martelo e, mais uma vez, seu golpe se perdeu em meu escudo. No entanto, esse homem era bem mais rápido que o primeiro e eu não consegui desviar o golpe que pegou em cheio o flanco direito do meu elmo. Um barulho ensurdecedor ressoou em meu ouvido me deixando parcialmente surdo. Senti o sangue escorrer pelo meu pescoço e avancei como um animal em direção ao infeliz que me feriu. Meu ódio era tanto que o cortei três vezes depois que já estava morto.

Targo gritou algo que não pude entender e me empurrou para o lado esquerdo com suas mãos enormes. Vi o Lorde Demônio proferir palavras estranhas, com sua voz grossa e tripla, como se mais de uma alma caída habitasse aquele corpo infernal. Um instante depois houve uma grande explosão nas fileiras à frente, e uma chuva de fogo e pedras caiu sobre nossas cabeças. Uma mistura de fumaça e poeira encobriu minha visão e eu pensei que o inferno deveria ser daquele jeito. Uma nuvem cinza-avermelhada pairava baixo e um forte odor de enxofre me fazia tossir. Homens moribundos gemiam em volta e feridos imploravam por uma ajuda que não viria. Ouvi um dos paladinos gritando ordens para seus homens e mais a frente, outro gritava tentando reunir seus companheiros. Sem dúvida, aquilo era o inferno.

Caminhei cambaleante por entre os corpos procurando um rosto conhecido, mas não encontrei nenhum, e a fumaça começava a se dispersar quando me vi cercado por um número crescente de sacerdotes. Todos haviam se separado de seus respectivos lideres em meio ao caos que se seguiu à explosão, e minha armadura entalhada com o símbolo da Ordem de Crizagom - que denunciava minha posição de comando - atraia os homens de menor patente acostumados a seguir ordens, fazendo com que me rodeassem como moscas no mel.

- Juntos! - gritei para organizar o grupo. - Em linha, em linha!

Esse grito foi para direcionar os sacerdotes para um grande grupo de demonistas que surgiu morro abaixo, correndo e gritando; era cerca de três vezes maior que o nosso, mas ao nos ver parou, afinal, portávamos armaduras completas e nosso olhar transbordava ódio e violência. 

- Ataquem! - gritei, percebendo a indecisão do inimigo.

Soltei um grito de guerra e lancei-me morro abaixo. Não pensei que seria uma luta fácil, mas o terror do inimigo era tão evidente, que estava na hora de aumentar esse terror.

Gritávamos correndo em direção a chacina. Era um grito de vitória, feito propositalmente para causar o medo num inimigo já abalado. Os demonistas ainda eram em maior número, mas estavam sem fôlego e sem moral. 

Perfurei o peito de um homem e cortei o braço de outro. Brandia minha espada de um lado para outro, como se estivesse abrindo caminho em uma mata fechada. Nesse tipo de investida não há tática, apenas um deleite insano em massacrar os inimigos. Matávamos e nos deliciávamos com o medo nos olhos deles, enquanto sua retaguarda fugia em completo desespero.

Eles ainda poderiam ter nos derrotado, pois seu número era muito maior, mas é difícil lutar subindo um morro, e nosso ataque súbito havia derrubado seu ânimo. Além disso, muitos demonistas estavam alucinados, numa espécie de transe. Um homem alucinado luta bem na vitória, mas na derrota entra em pânico rapidamente. Paramos e deixamos os que sobraram fugir. Não havia necessidade de nos cansarmos correndo atrás do inimigo, pois tínhamos vencido e para provar isso, ficamos em pé sobre seus corpos e muitos metros do chão a nossa frente estavam cobertos com seu sangue.

Retirei o elmo amassado pelo golpe do martelo e senti minha cabeça latejar e minha visão escurecer, cambaleei e fui amparado por um dos sacerdotes que agora me seguiam. 

- O senhor está bem? - perguntou-me um deles.

- Estou bem. Foi só uma tontura.

- O senhor perdeu muito sangue, precisa descansar. 

- Descansarei quando tivermos vencido, rapaz - respondi, esforçando-me para levantar. Não podia demonstrar fraqueza, não agora, e meus amigos precisavam de ajuda.

Minha visão estava turva e eu mal conseguia distinguir os vultos ao meu redor. Tentei seguir em frente guiando-me pelos sons da batalha, mas minhas pernas me traíram e cai de joelhos no chão ensangüentado. Percebi uma silhueta enorme, cercada por várias outras menores, vindo em minha direção. Tive certeza de que eram os outros paladinos de Crizagom confrontando o Lorde Infernal, e usei a espada como apoio para ficar de pé e ir ajudá-los. De repente, um forte clarão surgiu em minha frente e uma nova explosão me arremessou metros para trás. Bati com o rosto no chão e um gosto de ferro me veio à boca. Com um esforço sobre-humano coloquei-me de pé novamente e mais vultos apareceram ao meu lado. Fui tomado pro uma alegria indescritível e uma nova onda de otimismo invadiu minha alma fazendo meu corpo estremecer. Essas novas silhuetas possuíam asas, e luzes envolviam seus corpos, além de portarem armas brilhantes. Eram os enviados sagrados de meu deus, portadores de sua honra e sua bravura, e sua aparição em meio ao caos fez meu corpo empertigar de orgulho. Voaram com velocidade em direção à figura gigantesca e começaram imediatamente a atacá-la.

Minha visão aos poucos foi se normalizando e eu pude, enfim, avaliar nossa real situação. O que vi fez meu coração saltar quase saindo pela boca: o Lorde Infernal estava caído no chão com dezenas de enviados golpeando-o freneticamente. Terríveis estrondos ressoavam do céu pressagiando uma tempestade, e dezenas de relâmpagos desciam com ferocidade à terra, chocando-se diretamente com o Lorde Demônio, atraídos para ele pelo poder divino. Há alguns metros atrás, cerca de cem sacerdotes formavam uma barreira de escudos para bloquear o caminho entre a parte baixa da cidade e o local onde estava caído o Lorde Demônio, de onde uma nova turba de demonistas vinha em auxilio ao seu senhor. Estes sacerdotes estavam protegendo também a única passagem para o lado leste da cidade, alguns feridos e a Pedra Negra que Cavam SEGURAVA! Com a queda do Demônio ele havia conseguido recuperar a pedra e quando vi o temido artefato nas mãos de meu melhor amigo, corri em sua direção e ele me recebeu com um abraço apertado. Seu ombro estava sangrando e o corpo de Andreus jazia sem vida ao seu lado. Notei uma dúzia de outros paladinos mortos e o dobro de feridos ao redor, e Targo estava agonizando entre eles. Ajoelhei-me ao seu lado e segurei sua cabeça. Sua boca tremia, seus olhos reviravam-se e ele apertava a barriga com força para que suas tripas não saíssem através de um corte que ia de uma ponta a outra de seu abdômen.

- Kerdal... - ele tentou dizer-me algo, mas sua voz saiu baixa, quase como um miado.

- Calma amigo - apressei-me em dizer, segurando sua mão com força. - Não se esforce. Descanse e você ficará bem. 

Ele tentou falar novamente, mas dessa vez não emitiu som algum. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu não pude conter o choro. Targo havia sido meu tutor e devia minha vida a ele, no entanto, agora quando ele mais precisava, eu nada podia fazer.  Mais uma vez ele tentou falar, seu corpo se contorceu com um espasmo e, logo em seguida, ficou completamente imóvel. 

- Adeus, velho amigo. Que Crizagom o receba com todas as bênçãos e honras dignas de um verdadeiro herói. - Sussurrei em seu ouvido, abraçando seu corpo e chorando como uma criança.

Cavam tocou meu ombro com ternura e pude ver o pesar em seus olhos. Ele esticou uma das mãos tremulas e estendeu-me a Pedra Negra. Era uma esfera perfeita, do tamanho do punho de um homem, e não parecia ser tão poderosa quanto diziam. 

- Guarde-a, Kerdal - falou-me. - Você deve levá-la para um local seguro. Deve levá-la para o Grande Sábio, ele saberá o que fazer. Eu vi um grupo de sacerdotes com você, eles poderão escoltá-lo para fora de Azanti.

- Mas e você, vem comigo?

Ele fez um gesto para os sacerdotes que ainda formavam uma frágil coluna na rua principal de Zanta para proteger nossa posição.

- Você pode ir, e pode levar a pedra - disse Cavam, peremptório.

- Perdoe-me senhor, mas se vamos embora, teremos de sair agora - gritou um dos sacerdotes que havia ouvido nossa conversa. - O exército deles está se preparando para atacar novamente.

- Eu não posso ir, Kerdal - Falou, apontando novamente para os homens perfilados. - Alguém tem de ficar e guiar suas almas através dos portões de Cruine. - Seu ombro estava cortado e sua armadura inútil, mas não havia escolha. Andreus estava morto, Targo também, e quase mil dos nossos irmãos haviam perdido suas vidas lutando contra o exército demonista e seu senhor. Ele era o novo mestre da Ordem de Crizagom.

- Eu posso ficar - falei, com os olhos transbordando lágrimas. 

- Não seja imbecil, rapaz!  Você não pode lutar com esse ferimento na cabeça, além disso, preciso de alguém de confiança para manter a pedra em segurança. Vá Kerdal, por mim.

Cavam me deu um abraço tão forte que quase partiu minhas costelas. Ainda relutante, fiz a reverência de nossa ordem e girei nos calcanhares, mas antes que partisse, Cavam segurou meu braço.

- Tome. Leve isso também - ele entregou-me um amuleto de ferro, com um símbolo estranho entalhado na parte frontal.

- O que é isso? - perguntei.

- A chave para fora da cidade - respondeu Cavam, com uma piscadela. - Lembra daquele pequeno templo do outro lado do vale? 

- Sim.

- Quem bom. Agora vá, e que Crizagom o guie e o proteja. 

- Mas o que tem o templo? - perguntei curioso.

- Vá! - rosnou Cavam - Ande!

Olhei no fundo de seus olhos e corri em direção ao portão leste, seguido pelos sacerdotes que agora formavam minha escolta.

Parei a cem passos e virei-me para olhar pela última vez meu amigo. O vi ocupar seu lugar nas fileiras e um homem ofereceu-lhe um escudo amassado na ponta. Ele pegou o escudo agradecendo com um gesto de cabeça. Prendeu a correia do escudo no braço esquerdo e desembainhou sua espada. O que havia sobrado do exército inimigo estava se organizando ao pé da colina para um novo ataque.

Um dos sacerdotes que me escoltava gritou. Olhei rápido e vi que estávamos sendo atacados. O grupo avançou em cima dos novos inimigos e desembainhei minha espada, pronto para abrir fendas nos corpos de mais demonistas. Toquei o amuleto que Cavam me dera em busca de mais coragem e minha visão escureceu, voltando ao normal poucos segundos depois. No entanto, eu não estava mais em Zanta. Estava a muitos quilômetros ao norte, em frente ao templo que Cavam e eu havíamos construído. Então, entendi o que Cavam pretendia ao me presentear com o amuleto. Era um item mágico, que me transportou para onde não havia perigo. Ele realmente era a chave para fora da cidade. Da porta do templo, pude ver ao longe a cidade de Zanta, com suas muralhas apinhadas de demonistas e milhares ainda entravam sem parar. Certamente, todos sob seus muros iriam morrer.

Entrei caminhando devagar no pequeno templo. Muitas recordações vieram a minha mente e meu rosto ficou encharcado de lágrimas, salgadas com minha dor. Fiz uma reverência e ajoelhei-me em frente ao altar em ruínas, já fazia anos que não entrava naquele templo. Rezei pelas almas perdidas naquela tarde. Pelas vidas de Andreus, de Cavam, de Targo, do rei Juliam, de seu filho, dos sacerdotes que compuseram minha escolta e deram-me a chance de usar o amuleto, e dos milhares de irmãos que morreram por Crizagom e por Tagmar. Todas essas mortes não seriam em vão, pois eu tinha uma nova missão: encontrar o Grande Sábio.

***

Pela expressão de perplexidade de Eurid soube que mais uma vez havia deixado que meus devaneios passassem dos limites. Notei também que ele pouco havia escrito de tudo o que eu tinha narrado, havia parado de escrever, provavelmente para prestar atenção a todos os detalhes de minha história. Pensei em chamar sua atenção, mas não o fiz. Se eu conhecia bem meu companheiro escriba, ele se lembraria de cada palavra e poderia escrevê-las depois.

- Mas e aí, senhor? - perguntou-me, como os olhos arregalados transbordando curiosidade. - Quem, ou o que, eram de fato as criaturas aladas? Como derrotaram o Lorde Infernal? Como vocês venceram esse último exército?

- Calma! Não vencemos e não foi o último - respondi secamente. - Mas isso já é assunto para um outro dia, rapaz. Há ainda muita coisa a ser relatada e, conseqüentemente, escrita por você. Às vezes tenho a impressão de que precisaríamos de muitos anos para que você escrevesse tudo o que eu tenho a contar. Portanto, fique calmo, teremos ainda bastante tempo para mais detalhes. Podemos continuar essa história uma outra hora. Agora, você precisa de uma boa noite de sono, e eu, de uma oração.


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