CAPÍTULO 3
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CAPÍTULO 3 .




Subiu devagar a escadaria de pedra. As rochas, já com rachaduras e barrocas nas laterais, esperavam o deslize do homem que a sombra, projetada por uma tocha, na parede apertada. Era uma escada circular, escura e tão sigilosa que poucos sabiam de sua existência. Segurando firme a tocha que crepitava rompendo o silêncio da escuridão, o homem parou rente a barreira de sua subida. Não restava dúvidas de que seu contratante conhecia bem o local o que tornava sua tarefa mais fácil. Inspirando o ar seco cheio de poeira e a fumaça gerada pela queima de pano e óleo, o homem empurrou a porta, que cedeu a sua pressão e abriu-se.

Os olhos, treinados há tempos para tais momentos, esquadrinharam o aposento com uma porta, de ferro-morto, minério valioso dos anões próximos ao vulcão Forja, guardara. Não maior que uma cozinha de taberna, o local arrancava suspiros dos primeiros visitantes. Não havia janela, de forma que tochas deveriam ser acesas. De fato, enquanto seus pés esmagavam a poeira no chão, o homem acendeu um archote que se encontrava próximo.

A iluminação aumentou e no mesmo instante sua mão deslizou pela cintura, os dedos atentos ao contato gélido com o punhal cuja lâmina fora untada com um veneno letal, capaz de matar um homem adulto em poucos minutos. Virou-se rápido para o outro lado do aposento com seu braço esticado, longo como uma vara, o arder do fogo da tocha em sua face. Segurou firme o cabo e aguçou os olhos. Não tinha atirado por que temia ser um erro de seus instintos. Mas nunca ocorrera erro antes, sabia ele, e este não seria o primeiro.

— A lâmina não me causaria a morte, mas a substância cuja ponta resguarda, ela sim, me mataria. Uma voz, de tom espectral, ecoou pela sala mal iluminada.

Seus olhos não enxergaram o outro homem que ali se encontrava. Teria ele chegado mais cedo? Teria chegado ao mesmo instante e não o percebera? As perguntas vinham como o brilho de um relâmpago que desaparecia na fugaz tempestade.

— De fato, a lâmina não mataria. Talvez nem o veneno também, dependendo de quanto você pagaria, rápido, pela sua vida. O braço ainda estava estendido, o peso da lâmina desprezível pela rigidez dos músculos treinados. A voz abafada trespassou o aposento, chocando-se com barreiras que escuridão ainda não permita ver. Decidiu prosseguir antes que o outro começasse.

— Diga, que flor cresce nos campos verdes de Novini? A pergunta pegaria o intruso de surpresa e não haveria mentiras que ouvidos treinados não percebessem. Sabia também, que se fosse quem o esperava, a resposta seria a combinada, tornando despreocupável o rígido braço cuja mão segurava “a morte”. Porém, se o outro vacilasse na verdade, o braço, ágil, desceria veloz como as ondas do mar.

— Cavalinhos-prata e bétulas alaranjadas. A voz, sem tremer, deu força e timbre nas duas últimas palavras. Era a resposta certa. Tendo combinado essa preliminar, ambos sabiam que era perfeita. A pergunta seria feita no singular e o local, um lugar campestre nos arredores da cidade chamada Colina Sonleyon, não apresentava nem uma das flores da resposta dada. Simples e fatal.

A certeza da resposta fez o braço descer. Relaxou a coluna e flexionou o pescoço. Os olhos também ficaram leves.

— Não o percebi aqui. Por quê? A pergunta saiu-lhe baixa e, dando dois passos largos para a esquerda, local onde se encontrava um outro archote, esperou a resposta.

— Cada um tem os seus meios de viver, meu caro. Era uma fuga da resposta verdadeira.

— Esse é um dos motivos, então, pelo qual pretende me contratar? Acendeu o outro archote e logo a luz aumentou, fazendo recuar a escuridão que até então mostrava-se invulnerável. Pôde, agora, começar a enxergar o aposento melhor.

Realmente era estranho, se não sinistro. Tinha o chão de madeira rajada, a poeira cobrindo a maior parte. Estendia-se, nas paredes do lado direito, uma seqüência de candelabros bronzeados, ocupados por novas velas negras de pavio amarelo. Em outra parede, sob uma bruxuleante luz piscante de uma das tochas, o que parecia um quadro, só que este coberto por um tecido grosso, preto. Uma enorme gárgula abria suas asas de pedra em direção a entrada, com seu chifre no nariz, voluptuoso, segurando uma correia de couro cuja função, enojando os emocionistas, era segurar uma ressecada cabeça humana. Ainda não podia ver mais adiante, a escuridão cobrindo-lhe como uma cortina a um palco.

— Sim, Elmer. Este foi um dos motivos pelo qual quero lhe contratar. Diversas notícias vieram ao meu conhecimento e você mostrou-se competente. Esperou um pouco, as palavras ainda soando finas pela sala quase toda iluminada.

— Já chega de luzes. Você pode escutar tão bem nas sombras quanto na luz, mas deixe a escuridão aliar-me neste momento. Falou o homem. Mais uma ordem do que um pedido.

— Claro! Você paga, eu obedeço! Não tinha mais motivos de continuar com uma longa conversa. Enquanto cedo terminasse seu serviço, outro poderia ser feito e mais ouro encheria as algibeiras de sua calça.

— Ótimo, bom que seja assim. Havia algo nas palavras desse homem que Elmer não conseguia entender. Pelos anos de experiência que tinha, sabia, não duvidava, que aquela voz que escutara não era do homem que estava dentro da escuridão.

— Você dará inicio há uma nova era neste reino. Um novo curso surgirá e outros terão o poder nas mãos. O que me diz, aceita?

Não restava dúvidas das intenções desse homem-de-sombras. Ele queria um trabalho e Elmer poderia fazê-lo.

— Aceito! Apenas... diga quem e onde. Suspirou enfaticamente e esperou a resposta.

— Um membro da família real, que está no Castelo das Brumas. Enquanto falava, sua mente imaginava o futuro que o esperava.

Elmer franziu o cenho. Era uma missão arriscada demais. Mas o ouro compensaria.

— Aceito. Se pagar adiantado! Foi sua resposta.

Obteve sucesso.



***



— Pensei que tivesse terminado Amanda! Mais um suspiro do que o formidável som de outrora, a voz saiu espalhando-se pelo quarto, de dimensões de um grande salão.

Amanda tornou a pegar uma colher de prata, dirigiu um cilindro de cristal e fluiu o líquido que ali dentro se encontrava. Era de tom verde e consistência fina.

— Não majestade, ainda resta mais. Disse Amanda, com sua voz solene.

Deitado em sua cama de macias penas de ganso, com vários travesseiros enfeitados, o rei Jorge I, atual rei de Dantsem, sentia o peso da idade em seus ossos. Afinal, 71 verões fazem diferença quando se compara o novo ao velho. A mão agarrou-se a coberta pesada e estico-a para o pescoço. Uma profunda tosse, dura e seca, atacou-o enquanto sua cabeça latejava pela ausência de cabelos, tendo um frio intenso percorrendo o couro desprotegido. Apressando-se, Amanda socorreu seu velho senhor, antes que da tosse venha a falta de ar e da falta de ar venha o desmaio e do desmaio viesse a sangria e por último, esperando que não ocorra, o jubiloso fim que aguarda todos nós: a morte.

A colher entrou na boca e logo o gosto de espuma salgada encheu o paladar do rei. O alívio veio quase que imediato assim que o remédio desceu pela garganta.

— A tosse continua... Não sei como parar! Estava claro que ela se importava com a saúde já debilitada do rei Jorge I. Apesar do homem que fora, motivo bastante para que muitos o amaldiçoassem, sempre tratara Amanda com um respeito digno.

Talvez houvesse algo mais nesta história.

E seria assim.



Quando se casou com Emen, tornando-a rainha de Dantsem, Jorge I estava com 26 verões de idade. Nos tempos que se passaram, Emen teve um único filho, que recebera o nome do pai, formando assim uma das primeiras dinastias do reino de Dantsem, a dinastia Jorge. Dentre as servas, lindas e puras mulheres, que serviam Emen, Amanda era a mais espetacular de todo o Castelo. Jorge I perguntava-se por que de tanta beleza em uma serva e não em sua rainha. Era o desejo masculino de Jorge I que falava e não mais o seu bom senso. Ora, pensava ele “Eu sou o rei... mando e desmando”.

Assim, Jorge I, rei de Dantsem, levava secretamente a linda Amanda para a cama, deixando a rainha Emen corroendo de dores por causa da gravidez. Não devia julgar Jorge I pela sua falta de consenso, pois a serva, amante do rei, era, em uma palavra, irresistível. Um cabelo longo e preto, cujas pontas unidas miravam para curvas sinuosas de um fino quadril, olhos de azul-celeste, lábios carnudos e macios, face feminina com bochechas rosadas e toda uma pele morena, mas não morena de sol forte, mas morena de constantes regalias. Como era linda a Amanda de muitos verões passados. Emen delirando com sua gravidez.

Quando Emen deu a luz, sofrendo de dores fortes que a faziam torcer o dedo de um homem, um menino veio ao mundo trazendo a “boa nova” cheia de esperança para Jorge I. Mas a boa nova teve um preço. Um preço alto para os dias solitários que Jorge I enfrentaria. Emen, rainha de Dantsem, havia falecido durante o parto, cumprido sua função de rainha, deixando um herdeiro ao reino.

Os dias solitários, Porém, atingiriam Jorge I de tal forma que sua substância íntima, seu ego, sofrera alterações. Amanda ainda estava ali, sedutora, sensual, bela domando fera, mas não era o bastante. Jorge I era um rei e não havia como casar-se com uma serva de sua falecida esposa, cuja vida dera para salvar o único filho. Jorge I preservou sua amante até os dias de hoje.

Mas a presença consoladora, apenas à noite à surdina, não foi suficiente para aplacar a crueldade que surgiu em Jorge I. Com Jorge II crescendo, Jorge I travava disputas acirradas com outros assuntos. Na maioria eram de oficio militar e revoltas do povo, sempre abatido com rigorosas chacinas ou elevação de impostos. É dessa forma que muitos ainda se lembram do reinado longo de Jorge I, apenas retirando sua amante dos pergaminhos da história.

Voltando ao quarto do rei Jorge I, uma lufada de vento desprende calafrios do moribundo.

Há tempos que a saúde do rei Jorge I estava debilitada, o que preocupava sua amante. Esta, por sua vez, não deixava seu senhor sozinho no amplo quarto.

A tosse cedeu e a agonia parou. Os olhos, envoltos por lágrimas, observaram Amanda sentar-se na cama, alinhando seu corpo e massageando o peito do rei.

— Espero que hoje não venha febre, disse Amanda.

— Deixe essa conversa pra lá. Diga-me, o corpo de Cresuel, está no Templo? Vociferou o rei.

Passando a mão pelo rosto de Jorge I, sabendo que estavam sozinhos havia horas no quarto real, Amanda sofria com seu amor a perda do quase-neto.

— Ainda, meu rei... Jorge está la. Viu as lagrima rolarem pela face enrugada do ancião deitado, moribundo. A morte estava próxima.

CAPÍTULO 4
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