CAPÍTULO 10
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CAPÍTULO 10 .




Perdido nos pensamentos dentro da carruagem, Servilis pouco ligava para as batidas da roda no chão esburacado em certas partes, desde que chegasse logo ao Castelo das Brumas.

Agora que o Deus Selimom derramara compaixão em seu coração Servilis apressava-se para evitar um terrível mal.



Quando a princesa Elira contou-lhe que tivera dois filhos com o mago Figvel, Servilis ficou catatônico. Assim que Elira afastou-se, Servilis dirigiu-se ao rei Jorge I e contou-lhe o que dissera Elira. Jorge I ficou pasmo, um golpe na já debilitada saúde. O orgulhoso rei pediu que Servilis desse um fim nesse filho bastardo que Elira, secretamente, concebera. O príncipe Jorge II nada saberia. O fato era que Servilis temia que a descoberta dos bastardos pudesse macular o período de paz que pairava sobre o reino. Era uma decisão difícil e argumentou que seria um ato que talvez ele não pudesse realizar. Mas o rei Jorge I não cedeu. Prometeu-lhe transformá-lo em Lorde e dar-lhe terras, o que proporcionaria grandes fortunas ao sacerdote. Servilis aceitou.

No caminho de volta ao Templo na cidade, Servilis conjeturou as chances de serem verdadeira a sorte do destino. Lembrava-se Servilis que, há muito tempo, um homem no Templo chamado Ernest, atormentava um noviço clérigo lembrando-o de como chegou ao Templo. “Você veio à noite, sim, sim. Era bem magrinho sabe, estava coberto com um tecido caro, seda vermelha. Mas o que foi encontrado com você, isso era bem estranho. Você segurava, brincando, um anel de uma pedra verde, bem bonito, com um cão nela”. Era constante ouvir Ernest falando para o jovem chamado Elril. Elril, que em élfico, quer dizer “alma nobre”. Muita coincidência.

Como Sacerdote Mestre do Templo na cidade, Servilis sabia de muitas coisas que aconteciam pela cidade, principalmente perto do Templo. Entre suas informações, não foi difícil encontrar um nome forte para retirar do seu caminho o único obstáculo que o separava de tornasse Lorde. Distribuindo um pouco de ouro, conseguiu marcar um encontro, a sós, com um homem chamado Elmer. Aos seus ouvidos, era o nome de maior competência para realizar tal ato.

O encontro se deu em uma antiga casa de guilda abandonada, mas que Servilis sabia conter um aposento secreto, que era usado para rituais nada bondosos. Teria que ser tudo bem trabalhado para que o nome de Servilis não fosse descoberto. O local seria totalmente contrario ao que estava acostumo ser visto. Com astúcia disfarçou a voz, que seria necessário para fazer o contrato. E o ouro sairia dos cofres do Templo. Era um plano astutamente bem elaborado. Restava ser concluído.

Na noite em que o comandante Tilosos adentrou no castelo trazendo o corpo do príncipe Cresuel, todo o castelo fora acordado. Reuniu-se no Grande Salão, dado a cerimônias e coroações reais, os servos e convidados que no castelo estivessem. O príncipe Jorge II estava no torno, que breve seria seu, a princesa Elira ao seu lado. Generais, guardas, servos, e tantos outros se aglomeravam para ver o corpo de Cresuel e ouvir a narrativa de Tilosos. Ali, dentre as pessoas que se pasmavam com as palavras de Tilosos, o mago Figvel e o sacerdote Servilis veriam o inicio de uma grande historia.

No instante em que terminara Tilosos, Servilis seguiu em direção ao Príncipe Jorge II. Ninguém o detendo. Servilis, após escutar como o príncipe Cresuel havia falecido, disse que suspeitava do Mago Figvel e que este poderia ter algo a ver com o incidente. Foi por sua sugestão que o príncipe Jorge II, na dor da perda do único filho, ordenou que Figvel fosse preso. Para espanto de Servilis, Figvel nada fizera, não reagira. Sabia Servilis o motivo, pois era Figvel quem realmente estava em estado de choque rente a morte de seu filho.

É, dessa forma, que Servilis interferiu no destino de Elril. Mal sabendo ele que seria o ato de maior bondade já prestada.

Entretanto, se por ato do próprio Deus Selimom ou o bom coração de Servilis, este não mais poderia acontecer. Quando, cedo na manhã desse mesmo dia, encontrou o pergaminho com quatro palavras, Servilis dirigiu-se a sala no Templo. No caminho, tendo encontrado um noviço que se atrasara, ordenou que este o aguardasse, caso precisasse de ajuda. Dentro da sala, dirigiu-se a estatua de Selimom, O Deus Justo, e entoou uma oração. Foi nesse momento que Servilis viu a barbaridade que iria cometer. Trairia os votos que fizera anos atrás para com o deus, quebrara a jura com a princesa Elira, rompera a bondade que era sua marca. Não, não. De forma alguma poderia acontecer tal ato de injustiça. Nessa oração ao Deus Justo, que começara “Ó Deus amável, que nos aquece a alma; nos da vida...”, Servilis arrependeu-se de tramar a morte de um jovem inocente.

Agora, no caminho do Castelo das Brumas, teria que encontrar a princesa Elira e contar-lhe o destino que traçara para seu filho desaparecido.



A carruagem brecou e Servilis teve que segurar firme para não ser jogado a frente. Ouviu-se o relinchar de cavalos e a batida de grandes patas no chão, fazendo a poeira subir.

Abrindo a pequena portinhola da carruagem, Servilis viu um guarda do castelo aproximar-se, com uma espada longa na mão, barrando seu caminho.

— Trago o Mestre Servilis do Templo, para ter com o rei Jorge I. O noviço clérigo argumentou, antes que o guarda algo perguntasse.

Servilis olhou para o que estava acontecendo. Um guarda idiota atrapalhando o salvamento do filho da princesa Elira. Projetou um pouco mais a cabeça para fora e vociferou a imprudência do guarda:

— Abra o portão, logo! Se não farei com que vá trabalhar no porto. Ande homem. Não podia Servilis pedir ajuda, pois talvez os guardas, pelo menos estes aqui, não seriam de confiança, e não queria que tal escândalo seguisse cidade abaixo.

O guarda temeroso com as palavras do sacerdote tratou de abrir o portão, permitindo a carruagem subir o morro para o castelo.

O noviço que conduzia a carruagem, chicoteou os cavalos, e estes logo começaram a jornada.

Não demorou em que chegassem frente o castelo, e este continuava tocado pela cortina da morte que logo teria mais um cadáver se Servilis não interferisse.

Abrindo a porta antes que o clérigo fizesse, Servilis pulou os degraus da carruagem, enquanto virava-se para o noviço, dizendo:

— Vá ao calabouço, encontre um clérigo chamado Elril e diga-lhe que eu o aguardo. Agora. Servilis sabia que tinha de falar com Elira antes que algo acontecesse, e agradecera ao bom Selimom por ter permitido que o clérigo que o acompanhava tivesse se atrasado naquela manhã. Quando este caminhava para dentro do castelo, direção do calabouço, Servilis disse:

—No caminho, não confie em ninguém. E diga a Elril que a vida dele corre perigo. Terminada estas palavras, Servilis correu para dentro do Castelo das Brumas, sem se importar com ninguém, tentando evitar que mais uma morte ferisse o reino de Dantsem.

Aos passos largos, dificultados pela idade, Servilis penetrou pelo castelo, envolto na atmosfera sepulcral que mantinha desde três dias passados. No caminho, nada que visse surpreendia o já acostumado sacerdote. Toda a beleza do local era apenas um traço na mente paranóica de um velho sacerdote tentando evitar a morte do único herdeiro da família real de Dantsem. Duas servas do castelo olharam intrigados para a velocidade que Servilis jogava suas pernas à frente, fazendo com que o manto longo esbranquiçado, voasse solto ao seu redor. A preocupação pelo seu ato transbordou de dor o coração do homem, o suor escorreu-lhe pela face e sua boca travou-se com o medo de não chegar a tempo.

Como era dia, os archotes do castelo estavam apagados, e a luminosidade advinha de janelas altas ou espelhadas do chão ilustrado. Por onde andava, o castelo demonstrava um labirinto de corredores e alcovas elaboradas. No corredor, este mais longo agora, Servilis encontraria no final, bastando apenas dobrar a direita, a porta do quarto de Elira. Teria que falar com ela.

Enquanto as sombras eram mantidas afastadas pela luz que descia do céu e era espalhada no chão marmorizado, Servilis sentiu o perfume campestre crescendo, logo antes que toda uma parte do corredor mostrava-se iluminado, pois um pequeno jardim, este capricho da única mulher viva da família Jorge, permitia enfeitar o seu lar. Prosseguiu Servilis, esvoaçando o manto branco e pensando que palavra diria a futura rainha de Dantsem.

À parte do corredor, bem iluminado, surgiu. Era amplo e perfumado, sendo tocado pelo chão florido de cores bonitas. Foi, nesse momento, cujos pés quase alcançavam um metro de distancia um do outro, que Servilis parou, atônito com o que vira.

Sua vista passando pelo pequeno jardim, sendo divisado por uma fonte, Servilis viu a princesa Elira que procurara. Estava usando uma roupa azulada e andando de costas. Mas o motivo da surpresa maior de Servilis, foi ter visto o homem que contratara para matar Elril.

Não sabia no que pensar, ou se quer imaginar o que aquele homem estaria conversando com Elira. Suas pernas obedeceram ao comando de saltar para frente, conduzindo o corpo incólume do sacerdote.Seus pés esmagaram botões-de-fada, deixando profundas marcas no solo adubado. As pequenas flores desaparecendo, anunciando a morte que espreitava no corredor do castelo.

— Elira, afaste-se dele. Servilis rugiu como um leão.



***



Respirar, pelo menos nos últimos dias, era um tormento. Os pulmões tragavam o ar denso que preenchia o quarto. A cada inspiração fagulhas ascendia uma dor na carne interna, próximo ao peito. Seu peso fora retido a metade do que antes esbanjava, seus músculos secaram, apenas ficando pele enrugada sob os ossos porosos de um ancião. O cabelo há muito abandonara, deixando a cabeça lisa e salpicada de manchas cinzas. Os dedos alongaram-se e suas unhas, três esquerdas e duas direitas, caíram sem força para se sustentar, tornando os dedos hastes de carne branca visível a qualquer. As costelas ficaram bem visíveis, podendo ser tocadas. Era assim que o rei Jorge I defendia seu vasto reino, pois ele ainda era o rei, e sob sua voz ninguém levantava a cabeça.

Quando Servilis, sacerdote do templo na cidade, veio contar-lhe o que Elira fizera, Jorge I chorou de raiva pela traição da mulher de seu único filho. Prometera que o filho bastardo de Elira não viveria para tomar posse do trono, mesmo sendo de sangue real. De modo que dissera a Servilis que lhe consagraria Lorde. Mas no momento, Jorge I preocupava-se em manter-se vivo.

Amanda cuidava do rei como se fosse um menino e o príncipe Jorge II não reclamava da posição dela. Era o amor que permitia sustentar a dor de seu amado rei.

Enquanto estavam no quarto, ainda com Lorde Calinior marcando presença, o rei Jorge I pensou quem governaria depois da morte do príncipe Jorge II. Se fosse, não queria que o filho bastardo de Elira assumisse o poder.

— Jorge... . Suspirou calmamente no silêncio do quarto.

— Sim meu pai? Jorge II queria que seu pai não sofresse mais.

— Quero, que se case de novo. O rei Jorge I encontrou essa solução agora, no momento dos devaneios dolorosos.

— Eu... Não posso meu pai. Jorge II ficou incrédulo com o pedido do pai. Não sabia o por que de tal questão agora.

— Já sou casado pai e amo Elira. Defendeu-se Jorge II.

—O reino Jorge, sem herdeiro... . Parou. As forças não vinham mais. Esforçou-se para continuar, mais o que saiu foi o ar seco dos pulmões doentes. Ainda suspirou, mas não havia como continuar. A voz, na fatal doença, sumiu. Uma vontade do prazer sonoro.

Amanda segurou firme a mão do rei, os lhos vertidos de pesadas lagrimas. Só pensava nos lindos momentos que tivera no passado. O rei Jorge sempre fora bondoso para ela, embora seu interesse fosse pela carne. Amanda não contrariava os desejos de seu rei.

O príncipe Jorge II olhava de cima a baixo o corpo de seu pai. Não era mais humano. Com um pouco dos lençóis afastados, Jorge II pôde ver o lastimável estado do homem. Toda a pele sucumbira a uma cor plácida, sem vida. Rugas enriqueciam a feiúra da carne, sendo mais concentrada no pescoço. Uma doença que só a idade poderia trazer.

— Pai, não gaste suas forças. Guardais para a cura da doença. Os olhos azuis do príncipe Jorge II fitaram os olhos moribundos de seu pai, leitoso na cama.

O rei Jorge I acenou, piscando uma vez.

Lorde Calinior, que ate agora deixara pai e filho terem, talvez, a ultima conversa, pensava se o assassino cumprira o trato. Como queria que sim. Ele não gastara tanto ouro por uma fraude de um homem experiente. Havia anos, pensado em como arrancaria o sofrimento do príncipe que lhe humilhara na própria casa. Jamais esquecera da noite do seu 56º verão, quando dera um banquete em tal ocasião. Por imprudência de um mero servo, uma criança tola que recebera mais do que repreensão, Lorde Avriom de Calinior fora ridicularizado pelo príncipe Jorge II, mas sabia que fora motivado pela sua mulher, a princesa Elira. Depois desse dia, Lorde Calinior passou a tramar sua vingança.

A chance veio três noites atrás, quando um mensageiro trousse uma carta de seu informante no castelo. Um jovem ambicioso que acreditou na lábia astuta do velho Lorde. Lorde Calinior prometera dar suas posses e o titulo, caso o tal informante o ajudasse. Uma mentira que fora celebrado em casa, com uma gargalhada extasiaste. Contudo, o informante Refal, um homem adotado ainda criança pela princesa Elira, cumprira sua parte.

Foi de tal forma que a vingança contra a família real que estragara o aniversário de Lorde Calinior surgiu. O príncipe Cresuel havia morrido em um ritual mágico, breve o rei Jorge I morreria e, o que Lorde Calinior teria o prazer em dizer, à princesa Elira seria assassinada. Só restava o frágil príncipe Jorge II para conduzir o reino. Lorde Calinior poderia, em fim, ter seu descanso eterno com a promessa cumprida.

Lorde Calinior olhou para a carcaça de seu rei. Como era lastimável a doença.

— Talvez pudesse servir uma taça de vinho, minha cara? Perguntou Lorde Calinior.

Amanda olhou para o homem na cadeira com rodas. Mais um velho doente para eu cuidar pensou Amanda.

— Claro. Trarei logo. Levantando-se da cama, Amanda saiu para pegar o vinho que Lorde Calinior desfrutaria na manhã de tantas mortes.

— Pai, devo voltar para Elira. Tenho que conversar com ela. Falou Jorge II, esperando escutar as palavras de seu pai.

O rei Jorge I apenas suspirou longamente, uma agonia pelo ar que escapava cada vez mais dos pulmões. Não conseguiu falar, tentou, em vão, mas não pôde. Apenas balançou a cabeça enrugada.

O príncipe Jorge II repousou a mão do rei no peito. Esfregou-lhe a face e dirigiu-se a saída. Antes, Porém, disse:

— Avriom, não saia enquanto Amanda não chegar. Deixar meu pai só é permiti-lhe o fim.

— Claro príncipe. Farei o que me pedi. Disse Lorde Calinior. Um novo pensamento percorrendo seus desejos.

O príncipe Jorge saiu do quarto.

A luz que descia de uma janela e fortificada pela varanda aberta, inundava brilhantemente o chão azulejado de tom azul.

O rei Jorge I ouviu o barulho de madeira riscando pedra e virou sua cabeça para a direita. Viu Lorde Calinior aproximar-se, guiando duramente a cadeira rente à cama.

— Sabe, Jorge, é difícil quando se chega nessa idade. Começou o Lorde.

O rei Jorge I não podia dizer nada, sua voz não saia.

— Veja bem. Quando se está caçando, o caçador não pode perder a chance de uma boa mira. Não, não pode. Lorde Calinior falava saboreando as palavras. Cada uma era dita como se tivesse sido ensaiados durante anos. Uma amargura florescia a cada nova entoação.

Parando, encostadamente a cama, Lorde Calinior segurou a mão frágil do rei Jorge I. Este nada podendo fazer. O Lorde sentiu a fragilidade do rei e permitiu-se um sorriso malévolo. O calor do sangue atingiu o braço esticado do rei e esse sentiu os lábios tremer. Alguma coisa deveria dizer. Não conseguiu.

— O que faço, meu bom rei, é fornecer a você o fim do sofrimento. Terminou essa frase dando uma leve risada, salpicando de saliva os lençóis de cetim do rei.

O rei Jorge I sentiu o frio aproximasse. Viu bem quando Lorde Calinior, o homem que jurara lealdade, estendeu a mão, também enrugada, mas ainda com força, em direção ao pescoço, fino e maleável, estendido indefeso na cama. Os olhos fitavam seu carrasco de baixo a cima. Eram olhos amarelados, escarnecidos de ódio guardado, de dor intelectual, de traição. Sentiu a pressão dos dedos fechando a garganta, tornando o ar um fio de desejo no silêncio do quarto.

Lorde Calinior pressionou mais, os dedos retendo uma força acumulada pela alma. Não queria que esse momento fosse rápido, haveria tempo. Amanda demoraria a trazer vinho. Preocupou-se em fazer o rei sofrer, sofrer cada vez mais. No lapso de seus pensamentos, viu a claridade da vida esvaindo-se dos olhos do rei. Sua mão pressionou mais um pouco, fechando a passagem do ar.

O rei Jorge I tremeu a falta de ar. Não tinha força para escapar. As mãos seguraram a de Lorde Calinior, sem nada poder fazer. Sua força, pelo menos agora, era pouca. Tentou em vão retirar, afastar a “lâmina da guilhotina” de seu suposto amigo. Não conseguiu. Ar esvaindo-se. Um fio perdido na malha da vida.

Lord Calinior parou de pressionar o pescoço do rei. Não por que quisesse, mas por que uma onda de tosse apoderou-se de se. Veio forte, mais que as outras. Uma seqüência de arrepios, violência no corpo, dor. Seu tórax doía agora, um gosto quente na boca antecedeu a carnosidade do catarro expelido. Mas, para espanto de Lorde Calinior, não saiu de tom verde-amarelado, igual aos outros. Manchas avermelhadas preenchiam a maior parte da massa catarrenta que o lenço guardava. E mais tosse, mais catarro-sangue expelido.

A dor nos pulmões arrebatou o corpo frágil do velho Lorde. Lagrimas caiam pela face, inundando a boca de água salgada. Logo a asma fez os olhos revirarem. Agora, no momento em que cumpria sua vingança, a asma e a tosse não permitiam a Lorde Avriom de Calinior, respirar. Não havia como respirar. Era uma dor congelante. Sem força para segurar-se, Lorde Calinior caiu ao chão. Seu corpo batendo nos azulejos centenários do castelo.

A boca abria-se e fechava-se, tentando tragar o ar em volta. Nada. Como se uma bolha, esvaída de ar, tivesse sido colocada na cabeça de Lorde Calinior, ele não respirava. Vieram os espasmos, os catarros saindo, agora, pelo nariz. A fina dor nos ouvidos tornando o momento um sofrimento sem um servo ou alguém para ajudá-lo. O chão, frio, suportou o peso estorcido do velho nobre. O fim estava próximo.

Os gemidos, mais guinchos loucos do que gemidos, ecoavam pelo quarto do rei. O corpo ao chão, a face grudada com o catarro expelido, os olhos arquejando de dor. Um sofrimento sem igual para Lorde Calinior.

A mão segurou o lençol azul de cetim, derrubando-o. Lorde Calinior viu a morte banhada de azul-turquesa.

Em fim, tudo parou.

Não se ouvia mais os guinchos, nem a respiração dolorosa. Só o soprar do vento, levando harmonicamente dois velhos homens para a eternidade desejada.

CAPÍTULO 11
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