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Prólogo .  

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Em algum lugar nas Cordilheiras de Sotopor, Abadom, Inverno de 1.403 D.C.

A sinfonia do aço...

A doce melodia de metal contra metal que eu já escutara inúmeras vezes; o retinir do ferro ecoando numa cacofonia de sons entrecortados com gritos de ódio e de dor, de carne sendo dilacerada, de sangue borbulhando e de ossos se partindo. Sons entremeados com o bailar dos adversários... A dança da morte, como ironizava Targo.

Observo o meu par nesta dança. Um guerreiro de altura mediana, tez escura, longos cabelos em desalinho por baixo do elmo e olhos chamejantes de ódio inumano. Sua couraça emitia um pálido brilho que refletia a luz das fogueiras que iluminavam e tentavam aquecer o acampamento onde nos encontrávamos. Em sua mão direita balançava uma grande espada curva salpicada de sangue negro coagulado. À esquerda, um escudo redondo, de metal já gasto pelo tempo, com o odioso símbolo bankdi em relevo.

Uma rápida vista pelo local de nosso embate e vejo que meus companheiros de armas também se encontram engajados em seus próprios duelos. Havíamos atacado repentinamente e surpreendêramos os demonistas. O baile tivera início. A música tocava...

Movo meu Martelo de Luz para o lado enquanto assumo uma postura defensiva clássica, aguardando o movimento de meu adversário. Os bankdis são sempre impacientes e previsíveis. Eu sei, já luto contra eles durante mais de cem anos.

No breve momento de espera, meus pensamentos devaneiam. Num instante, cá estou eu, Kerdal, envolvido em um combate mortal contra um guerreiro da Seita, na entrada de um templo cheio de demonistas, nos contrafortes gélidos e nevados da Cordilheira de Sotopor, em Abadom, um lugar que não revia há mais de cento e dez anos; No momento seguinte estou na ensolarada Saravossa, muitas semanas atrás, na Área dos Templos, frente a frente com o Mais Sábio, ainda carregando as cicatrizes de Zanta e o pesar pela morte de meus companheiros, mas entregando, finalmente, a Pedra Negra em suas mãos.

Ele recebeu o artefato de uma maneira muito cerimonial, agradecendo e orando aos deuses pela vitória. Notei que ele foi sincero em suas palavras de consolo e tristeza com a morte de tantas vidas por conta de uma esfera do tamanho do punho de um homem, mas me garantiu que o sacrifício de meus irmãos paladinos não fora em vão. Em meu íntimo eu orei para que aquilo fosse verdade.

O guerreiro demonista ataca interrompendo minhas lembranças. Impaciente e previsível como eu imaginava. Observo-o mover sua espada num movimento em arco para baixo; mas o faz de maneira lenta e desleixada, girando o tronco, movendo lateralmente o braço esquerdo e expondo seu torso da cobertura do escudo. Aparo seu golpe com meu escudo enquanto troco a base dos pés para frente, projetando meu martelo junto com meu corpo e toda a força de meus músculos do braço direito, sobre a brecha na defesa do inimigo e, num instante, está tudo acabado. O corpo do bankdi cai à minha frente, com seu peito destroçado sob a armadura amassada. Deixo-o ali, afogando-se em seu próprio sangue e volto-me para o lado, pois outro guerreiro avançava saltando sobre os corpos no chão. Opto por um movimento atípico, que eu domino como ninguém; giro rapidamente o corpo e lanço sobre ele meu escudo pegando-o totalmente despreparado. O impacto o faz perder o equilíbrio e cair. Aproveito a oportunidade e parto-lhe o elmo e o crânio com meu martelo sagrado. Menos um adorador infernal.

Enquanto me recomponho, desvio os olhos dos corpos caídos ao meu lado e contemplo a carnificina que se desenrola ao redor. As rochas, a neve e os ladrilhos do chão da entrada do edifício tingem-se de escarlate, escondendo os estranhos e vis símbolos neles impressos; pedaços de membros decepados amontoam-se junto com corpos, armas, placas de armaduras, manoplas, escudos e outros equipamentos que se espalham pelo local. Tendas desmontam-se e algumas se incendeiam.

Ao lado e acima da luta, sobre grandes pilastras, agachadas, estátuas de gárgulas demoníacas nos observam com suas bocas abertas em um esgar mudo de cólera, suas garras erguidas como querendo esganar nossos corpos. Testemunhas mudas e impotentes de nosso prevalecer sobre as trevas. Ao fundo, um pórtico de quatro colunas da entrada do templo também estava encimado por mais gárgulas de aspecto infernal, convidando-nos para que entrássemos e fôssemos engolidos pela escuridão lá de dentro. Um conjunto de portas esculpidas em madeira acinzentada de grande altura, com a face de um demônio em alto relevo no meio delas, erguia-se como pequenas muralhas no fundo.

Minha visão recai sobre os demais irmãos sacerdotes que me acompanham nesta missão e novamente meus pensamentos viajam para o passado recordando como passei a conhecê-los.

Após a entrega da Pedra Negra recebi alguns dias para descansar e curar minhas feridas, embora as mais profundas estivessem longe de cicatrizar. Um jovem acólito levou-me até meus aposentos e como estava muito cansado pela longa viagem desde Azanti, adormeci profundamente após um rápido banho. Não sei quando tempo permaneci adormecido, mas acordei bem tarde na manhã seguinte, e com o corpo ainda dolorido. Quebrei o jejum com uma modesta refeição e ainda esgotado, voltei a dormir. Contudo, não repousei muito tempo após. No meio da tarde um soldado molda chegou e me disse que eu estava sendo convocado para uma reunião urgente no templo central de Saravossa. Crisagom tinha outros planos para mim e eles não incluíam muito tempo de repouso.

Lá, fiquei sabendo que teria de partir novamente em menos de duas alvoradas. Informações importantes haviam chegado e uma missão urgente estava sendo planejada. Ela parecia simples à primeira vista, não fosse tremendamente perigosa e mortal. Um grupo de combatentes deveria navegar secretamente através do Denégrio até a foz do Rio Mam, segui-lo até perto de sua cabeceira evitando o máximo possível as concentrações de pessoas e, dali, seguir até um templo da Seita, nas Cordilheiras de Sotopor, perto da divisa dos invadidos Abadom e Plana. Deveríamos invadir este templo e resgatar um tomo que o Mais Sábio garantia que continha segredos antiqüíssimos que nos ajudariam a lutar contra os demônios. Como ele sabia deste tomo e da localização do templo permaneceria um mistério, mas eu tinha minhas suspeitas de que os irmãos sacerdotes de Cambu da Cidadela dos Viajantes estavam envolvidos até o pescoço naquela missão.

De posse do objeto deveríamos retornar em segurança o mais rápido possível e nos dirigirmos até o Templo de Todos os Deuses nas montanhas perto de Abrasil para entregá-lo nas mãos do Mais Sábio.

Nosso grupo era insólito. A liderança seria partilhada entre quatro sacerdotes. Como nossa Ordem sofrera imensas baixas na Batalha dos Mil Mártires, em Zanta, eu iria representar os gloriosos Paladinos de Crisagom, apesar do meu estado físico. Mais três Sacerdotes também participariam da jornada; Nirgar Anbal, um jovem robusto Senhor da Guerra anão; Iasa Ranor, uma impetuosa humana sacerdotisa de Crezir e um soturno elfo dourado Vingador Negro com o estranho nome de Aranis Mognir. Seríamos responsáveis por comandar um pequeno grupo de bravos voluntários que se infiltraria em território inimigo em uma missão praticamente suicida. Como nosso tempo era escasso, apenas cumprimentei meus irmãos sacerdotes com um aceno de cabeça, após tomarmos conhecimento dos objetivos e propósitos da missão, e parti para arrumar meus pertences, deixando as apresentações e conversas para mais tarde.

Contudo, nunca cheguei realmente a conhecer muito sobre eles, pois viajamos em quatro pequenas embarcações separadas umas das outras, para evitarmos confrontos com embarcações verrogaris que infestavam as águas do Denégrio. Recordei-me da última vez que navegara pelo lago. Foi quando abandonava Abadom rumo a Filanti, muitos anos atrás. Graças aos deuses passamos incólumes pela viagem marítima.

Em terra, seguimos por rotas distintas para diminuirmos as chances de encontrarmos bestas selvagens ou patrulhas bankdis. Meu pequeno grupo foi o primeiro a chegar perto do templo. Aguardamos os demais aparecerem e, após um breve reconhecimento da área, atacamos.

Eu agora os via, naquele pavilhão de acesso ao grande pórtico central do templo, lutando cada um ao seu estilo contra os soldados demonistas que montavam guarda na entrada do mesmo. Nirgar, como a maioria dos anões devotos de Blator, brandia um machado de guerra com ambas as mãos, cortando e dilacerando sem piedade. A bela e feroz Iasa, filha do dragão, sacerdotisa de Crezir, manejava sua cimitarra com habilidade invejável e uma fúria ímpar. Aranis, o vingador negro de Cruine, com seu assustador elmo em forma de crânio, movia sua vingadora sagrada de maneira atroz, decapitando seus adversários. Guerreiros voluntários corriam pelo acampamento eliminando os últimos focos de resistência.

As informações nos diziam que o templo não era muito grande e que era habitado principalmente por cultistas e servos, com uma guarda aparentemente pouco numerosa. Esperávamos encontrar criaturas infernais e sacerdotes negros no local, mas eles ainda não tinham aparecido.

Um facho de luz cegante e um eriçar súbito de pelos em meus braços e cabelos anunciou a passagem de um raio elétrico ao meu lado, tirando-me de meu transe, e indo quebrar-se de encontro ao corpo do último demonista que pretendia fugir para o interior do templo. Um presente de Daveom, o arcano que acompanhava nosso grupo. Balancei a cabeça perguntando-me se realmente precisávamos de um conjurador de encantamentos no grupo, mas ele fora enviado expressamente pela Biblioteca de Saravossa para averiguar se havia alguma outra coisa interessante para ser levada. Era uma presença tolerável e talvez pudéssemos utilizar seus conhecimentos para algum fim útil.

Tão rápida como havia começado, a canção do aço silenciou, sendo substituída pelos gemidos dos moribundos. Alguns guerreiros correram para a entrada do templo, enquanto os demais e nós, sacerdotes, prestávamos uma rápida ajuda aos feridos.

Após estas providências, caminhei de encontro aos meus companheiros e disse-lhes:

- Lutaram bem, meus irmãos de armas. - É verdade, paladino. Foi uma boa luta. O Senhor da Guerra e seus filhos foram honrados com esta vitória

- Ainda não acabamos com estes demonistas malditos – rosnou Iasa – deve haver mais lá dentro. Vamos dar um fim neles.

- Refreie sua fúria, filha do dragão. Antes de matarmos mais bankdis temos uma missão a cumprir – disse à sacerdotisa de Crezir – precisamos encontrar o tomo que o Mais Sábio deseja.

Aranis se aproximou e, abrindo a viseira do elmo, nos brindou com um olhar pragmático e distante.

- Até agora as informações estão corretas. Se tudo estiver certo, o templo tem um pavimento superior, um inferior e dois laterais. A biblioteca onde o tomo deve estar guardado pode estar em qualquer um destes lugares – nos informou.

Eu já havia destruído alguns destes templos antes e, pelo que pude recordar deles, o subterrâneo costumava guardar algumas coisas de valor para os bankdis. Decidi, então, levar meu grupo ao andar inferior do templo. Iasa vasculharia o andar superior, Nirgar e Aranis ficariam com os laterais.

Após decidirmos a questão reunimos nossas forças e atravessamos o pórtico de entrada rumo ao interior da escuridão.

***

Alguma coisa não parecia estar certa...

Adentramos a nave central do templo encontrando esparsa resistência. Apenas alguns cultistas que foram rápida e silenciosamente eliminados pelos arqueiros no átrio da entrada. Fileiras de archotes e inúmeras velas forneciam uma fraca iluminação que quase beirava a uma penumbra. O ar dentro do recinto estava frio e carregado de odores misturados de plantas, incenso, enxofre, sangue e algo que lembrava carne decomposta, que preenchiam as narinas, afogavam os pulmões e revolviam as entranhas de alguns mais sensíveis. Um gosto amargo subira aos meus lábios. Ao longo das maciças e ameaçadoras paredes laterais, imagens, símbolos e esculturas profanas adornavam as colunas, pilastras e nichos do grande pavilhão. Não se viam vitrais ou janelas. Uma sensação de peso oprimia o ambiente, como se imensos olhos cheios de fúria e ódio nos vigiassem e longas garras quisessem entrar em nossos corpos e nos arrancar as almas. Um medo irracional, doentio e sobrenatural parecia querer paralisar e acorrentar nossas vontades.

No fundo do santuário, um grande altar de mármore negro erguia-se sobre uma pequena plataforma, com símbolos bankdis e demoníacos inscritos no mesmo. Uma substância com aspecto de sangue coagulado tingia de rubro o minério profano em vários locais. Lateralmente, à direita e a esquerda, erguiam-se dois grandes monólitos de rocha de coloração ainda mais escura que o altar. Uma estátua de um dos malditos príncipes infernais com as mãos voltadas para baixo erguia-se atrás e acima do mármore, como que a protegê-lo. Pequenos candelabros com velas pendiam das palmas das mãos da estátua e jogavam sua pálida luz sobre o local. A adaga cerimonial encontrava-se disposta ao lado do altar e grossas correntes pendiam das extremidades deste, nos locais onde se localizariam as mãos e pés da vítima. Pedaços de linho ensanguentados e com inscrições estranhas e de aparência demoníaca completavam a cena deprimente. A sensação de repulsa fora angustiante. Tentei imaginar quantas vidas tinham sido destruídas naquele lugar e quantas almas estariam aprisionadas nos infernos por conta daqueles sacrifícios. Minha vontade fora de entregar tudo aquilo às chamas, mas eu tinha uma missão e a purificação poderia esperar.

Os batedores localizaram a entrada do nível inferior, que se encontrava nos fundos do templo, atrás do altar profano e da estátua maldita e eu desci para o mesmo juntamente com meu grupo. Dois lances de escadas abaixo e minhas suspeitas se confirmaram. Entramos num grande recinto iluminado por vários archotes que parecia ser o depósito do templo. O lugar cheirava a mofo e a madeira apodrecida e o ar estava frio e úmido. Vários barris estavam empilhados num canto à esquerda. Sacos de grãos e outros alimentos amontoavam-se a direita. Inúmeras prateleiras com os mais diversos materiais e ferramentas espalhavam-se pelo pavilhão. Vasculhamos cada pedaço daquele lugar, mas não encontramos nada. Uma pesada porta de madeira no final do depósito parecia trancada e foi derrubada a golpes de machado por um guerreiro. Um largo corredor abriu-se a nossa frente, mas não vimos ninguém. Onde estariam os sacerdotes e os intendentes deste lugar?

Mais adiante, no corredor, à esquerda, duas portas, também fechadas, tiveram o mesmo destino da anterior. O primeiro recinto parecia ser um local para conserto de objetos metálicos e de madeira, com alguns martelos, pregos, serras, engrenagens, facas, pedras de amolar, pedaços de corda e fios espalhados por uma pequena bancada; o segundo recinto, bem maior que o primeiro, se assemelhava a um depósito de itens diversos, com dezenas de arcas e baús cheios de roupas que variavam de peças finas a andrajos típicos de camponeses, sandálias, sapatos, botas, anéis, jóias e adereços femininos, entre vários outros objetos pessoais, alguns com aspecto bem envelhecido, outros mais novos. Todo aquele material não condizia com a indumentária utilizada pelos demonistas e nem com a natureza do local. O que poderiam estar fazendo naquele lugar?

De repente, um dos guerreiros deu um pequeno grito de exclamação: “Lorde Kerdal, aqui!”.

Dirigi-me até onde ele se encontrava e vi um amontoado de livros e pergaminhos empilhados num canto quase escurecido do lugar, exceto por um pequeno local onde o resto de uma vela espalhava uma pequena luz. Orei a Crisagom para que o tomo com as características do que procurávamos pudesse estar no meio deles, mas decepcionei-me. Nem sinal do livro!

Frustrado, ordenei aos homens que subissem e encontrassem Daveom. Ele que descesse até aqui para ver se aqueles volumes seriam de algum préstimo para Saravossa. Meneei a cabeça e questionei o senhor da justiça: “Lorde da bravura e da honra, o que procuramos não se encontra neste local. Porque então me trouxeste até aqui?”

O pequeno fiapo de luz da vela esquecida perto do canto quase escuro onde os livros se encontravam bruxuleou caminhando para o fim de sua existência. Minha atenção foi atraída para ela. E lá, iluminado pela vela que se apagava, um pequeno pergaminho enrolado se encontrava esquecido e empoeirado. Curioso, tomei-o nas mãos e o abri. Parecia ser muito antigo e estava escrito num malês incomum, mas que eu ainda conseguia ler. Qual não foi minha surpresa quando vi que se tratava de como conseguir uma dádiva de Crisagom. Meus olhos vislumbravam um presente que meu senhor me concedia. Fechei os olhos, orei em agradecimento e pedi uma oportunidade para usar a dádiva recebida.

O som de passos apressados no corredor interrompeu minha oração e, dali a instantes, a figura do arcano surgiu no aposento.

- O que tem para mim, paladino da justiça? – questionou-me.

Mostrei-lhe a pilha de livros, mas retive o pergaminho que achara comigo.

- Encontramos alguns tomos. Não sei se serão de alguma utilidade, mas gostaria que desse uma olhada.

Os olhos do mago iluminaram-se: – Sim, vamos ver se encontramos alguma coisa de valia aqui.

Enquanto ele revirava os volumes, resolvi questioná-lo sobre o andamento das buscas.

- Os meus irmãos encontraram alguma coisa?

Ele respondeu-me, sem parar de examinar os livros: – Nada. Nirgar e Aranis surpreenderam alguns demonistas no refeitório e nos alojamentos, mas nada de livros. Iasa, no andar superior, também eliminou alguns inimigos e encontrou uma sala onde tinha uma pequena biblioteca com alguns volumes interessantes, mas nem sinal do tomo que procuramos. Os três estão lá em cima agora tentando entender a situação e decidindo o que fazer.

Decidi deixar o arcano lá embaixo e subi para o pavimento central onde encontrei meus confrades arguindo-se mutuamente.

Iasa, naturalmente, era a mais enfurecida: – Estou começando a questionar a veracidade desta fonte de informações. Este templo parece não ter nada de especial. A guarda era ridícula e aqui encontramos somente cultistas. Não seria isto uma traição?

Nirgar balançou a cabeça numa negativa veemente: – O Mais Sábio dificilmente se enganaria sobre estas questões. E eu acredito que a procedência da fonte é segura. Os sacerdotes de Saravossa não são negligentes assim. Recuso-me a acreditar que fomos enviados aqui, neste fim de mundo, para sermos traídos!

A sacerdotisa da deusa da fúria e da matança ergueu ambos os braços num movimento amplo abrangendo toda a nave do templo: – Onde, então, por Crezir, estaria este livro que o Mais Sábio tanto deseja? Vasculhamos cada grão de poeira deste lugar dos infernos e nem sinal dele!

- Posso tentar realizar um ritual e extrair alguma coisa de um dos cultistas que exterminamos há pouco – disse Aranis – Talvez ele saiba da existência de uma sala secreta que nos tenha passado despercebido.

“Sim” – pensei comigo – “pode ser que haja um compartimento secreto neste lugar”. Busquei em minhas memórias alguma lembrança que pudesse auxiliar, mas nada me veio à mente.

Então, algo aconteceu...

Eu me encontrava de frente ao altar demoníaco e próximo de um dos grandes monólitos, quando reparei que um pedaço de uma de suas faces parecia que estava se erguendo e encolhendo depois. Meus olhos estavam pregando-me uma peça? Que sortilégio maligno seria aquilo? Uma ilusão?

Aproximei-me da estrutura, agora alheio à discussão e toquei-a com meu martelo de batalha. Rocha pura. Dirigi minha arma mais para o lado de fora, próximo do lugar onde vira a suposta ilusão... E a cabeça afundou a pedra!

Compreendi imediatamente o fato. Naquele lugar do monólito não tinha rocha nenhuma. Uma espécie de tecido muito grosso e pesado fora colocado ali, da mesma coloração negra, provavelmente para encobrir uma abertura escavada no corpo do grande objeto. Encontrei-a e vi que era grande o suficiente para passar um humano robusto. Olhei para dentro e me deparei com um lance de escadas que conduziam para baixo. Decidi investigar antes de chamar meus companheiros; podia ser uma armadilha e eu não estava disposto a sacrificar nenhuma vida se pudesse evitar isso. Entrei pela abertura e fui engolido pela escuridão.

***


Tateando, comecei a descer as escadas. Meus pés disseram-me que os degraus eram feitos de pedra, não de mármore polido ou madeira, mas algo bem áspero. Serpenteando, elas me levaram bem para baixo, para as profundezas. A escuridão, aqui e ali, era quebrada por pequenas velas vermelhas perto de meus pés, que tremeluziam tênues, como estrelas distantes e me permitiam ver que me encontrava no interior de um túnel escavado na própria rocha. O silêncio era quase absoluto e somente era quebrado pelo meu fôlego. Continuei descendo até que entrevi, perto de uma curva, um distante e pequeno facho de luz. Junto, ela também trouxe um som que lembrava um choro ou um sussurro, mas ainda baixo demais para que se distinguisse o que era. A claridade foi ficando mais nítida à medida que descia e pude vislumbrar o que parecia ser o umbral de uma larga porta entreaberta de onde a luz escapava. Os sons também foram ficando mais audíveis. Gemidos, um choro feminino, pedidos de misericórdia. Uma voz rouca e um estalo suplantaram as lamentações.

Meu coração disparou. Venci os últimos degraus praticamente guiando-me pela fatia de luz que saía das frestas e dos batentes da porta. Devia haver escravos atrás dela. E também mais demonistas. E talvez, coisas piores. Eu deveria retornar e buscar auxílio, mas o senso de urgência prevaleceu. Eu tinha que ajudar aquelas pessoas!

Segurei firmemente meu escudo e meu martelo de batalha, reuni forças e chutei a folha da porta para dentro, espalhando lascas de madeira para todos os lados. Entrei... E vi...

Eu pensei que vivenciara quase todos os horrores que os seres viventes podiam causar uns aos outros no meu longo tempo de existência. Contudo, o que observei naquele lugar ainda assola meus sonhos até hoje.

Encontrava-me num amplo e bem iluminado salão que parecia ter sido escavado no seio da própria montanha. De um lado havia várias celas com muitos homens e mulheres presos. Seu aspecto era deprimente. Esquálidos e bastante emagrecidos, nus e alguns com cabelo e barba enormes, eles estavam deitados ou escorados nas barras de metal aparentando total exaustão. Odores fétidos de excrementos, urina e podridão empesteavam o ar. Os olhares das pobres criaturas imploravam auxílio. Do outro lado várias mesas de madeira estavam dispostas em linha. Sobre elas cadáveres de outros escravos jaziam com partes de seus corpos arrancadas, membros cortados e ventres com as entranhas à mostra. Alguns deles se encontravam pendurados próximos às paredes através de ganchos e correntes presos em seus membros, como gado em abatedouro, também com partes de seus corpos faltando. Uma quantidade imensa de sangue, grande parte já coagulado, se encontrava no local, espalhado pelo chão. Observei que abaixo de cada mesa, um pequeno orifício se abria sobre uma espécie de canaleta que corria pelo aposento, levando a um imenso tanque escavado no solo do recinto. E, horror dos horrores: encontrava-se quase cheio de sangue!

No meio do salão, alguns demonistas arrastavam alguns escravos para os fundos do pavilhão, alguns pareciam mortos, outros, de tão fracos, não resistiam, porém um ainda encontrava forças para lutar contra eles e era violentamente pisoteado e ferido. Uma jovem, com o rosto ensangüentado e desfigurado, que tinha um demonista segurando-a pelos cabelos, olhou surpreendida pela minha súbita aparição e estendo-me uma das mãos, rogou:

- Ajude-me, por favor,...

Cheio de fúria e indignação, investi cegamente contra os demonistas, que, pegos desprevenidos, demoraram a esboçar reação. O primeiro tentou atravessar-me o pescoço com um golpe de sua lança. Desviei sua estocada com meu escudo e acertei-lhe um golpe na cabeça, derrubando-o. O segundo avançou com sua espada em punho. Não o esperei e também fui ao seu encontro. O chão estava escorregadio com tanto sangue espalhado, mas consegui manter o equilíbrio. Ele dirigiu sua espada curva contra minha cabeça. Agachei-me e o golpe perdeu-se no vazio. Aproveitei o momento e acertei-lhe um dos joelhos. Ele vergou, gritando de dor. Mãos livres agarrando o lugar destroçado. Terminei seu sofrimento com um potente golpe contra seu rosto. O choque do impacto adormeceu meu ombro. Um projétil tilintou o elmo de encontro à maçã de meu rosto, não me acertando os olhos por pouco. Pelos deuses, de onde teria vindo? Busquei o arqueiro girando a cabeça e o descobri perto de uma das mesas, procurando abrigar-se atrás de um dos corpos enquanto carregava uma nova flecha. Não lhe dei tempo. Largando meu martelo, que pendeu frouxo em meu pulso, peguei a espada do bankdi morto aos meus pés e atirei-a na direção do maldito. Ele caiu com a arma alojada em seu peito. Mais um lanceiro avançou gritando alguma coisa que não entendi. Quebrei-lhe a ponta da lança, depois a mão e depois o braço e por fim a cabeça. Um guerreiro surgiu, vindo de lugar nenhum, lançando estocadas contra meu escudo com a espada longa de duas mãos que brandia furiosamente. Uma e outra vez, até que lhe acertei o peito afundando cota de malha, carne e ossos. Outro demonista atacou-me com um punhal. Agarrei-lhe a mão afastando a lâmina e enterrei-a no pescoço do cultista vendo sua expressão de ódio se transformar em medo e dor e morte.

Uma voz gutural ergueu-se e sons profanos, na língua demoníaca, encheram o recinto. O bankdi restante clamava por ajuda. E ela veio.

Gritos e guinchos inumanos invadiram o lugar quando dezenas de demônios caiam do topo do pavilhão com um baque surdo quando atingiam o solo. Os primeiros eram robustos, largos, com faces semi-humanas distorcidas de ódio. Um par de chifres, pernas de bode e garras compridas completavam suas aparências bestiais. Eu conhecia este tipo; demônios guerreiros.

Ao verem tamanho horror, os escravos sobreviventes entraram em pânico, gritando de medo; vários deles fizeram menção de fugir, outros caíram em prantos e alguns perderam os sentidos. Alguns demônios tiveram sua atenção atraída para eles e avançaram em sua direção. Barrei-lhes o caminho, interpondo-me entre eles e os pobres servos. Eles uivaram de fúria.

Nas celas mais gritos. Mas lá, pelo menos eles estariam a salvo das bestas.

Mais demônios surgiam. Estes agora eram mais fortes que os anteriores, com chamas envolvendo seus corpos de pele avermelhada. Chifres protuberantes saiam de suas cabeças. Olhos rubros dardejavam ira. Uma espécie de cota de malha incandescente cobria seus troncos e eles envergavam machados e montantes flamejantes. Também os reconheci de lutas passadas. Defensores Negros. Extremamente letais.

Eles nos contornavam lentamente. Estávamos sendo cercados...

Ouvi mais sons guturais atrás de mim. Outros demônios chegaram. Eram somente três, mas estes eram muito diferentes dos demais. Eram enormes, quase gigantes. Cabeças de cavalo encimavam corpos extremamente vigorosos. Grandes asas de morcego saíam de seus troncos e garras imensas seguravam pesadas lanças crepitando com fogo infernal.

Um deles rosnou arrogantemente e disse em uma voz grossa, rouca e profunda:

- Um verme mestiço seguidor dos outros. Como ousas adentrar nos domínios do Mestre? Pagarás com tua própria alma tamanha afronta – virou-se para os demais apontando para mim – desmembre-o e a estes inúteis atrás dele. Vamos ouvi-los gritar e implorar por misericórdia.

Alguns demônios guerreiros prontamente seguiram as ordens do que parecia ser o líder e avançaram.

Clamei a Crisagom por força e coragem e bradei: - Não se aproximem; ninguém tocará neles!

Imediatamente senti uma tremenda aura de poder e autoridade envolver-me sob a forma de uma luminosidade tépida e persistente. Os demônios que iam à frente subitamente pararam como que impedidos por uma barreira invisível e urraram de pavor. Recuando, fugiram aos gritos, surpreendendo os demais.

Contudo, dois mais ousados prosseguiram e me atacaram. Suas garras rasgaram o vazio tentando acertar-me. Uma delas encontrou meu escudo, enquanto a outra era aparada pelo meu martelo. Eles guincharam de ódio e golpearam novamente. Desviei dos mesmos e, manejando meu martelo de luz, destrocei o crânio de um e estraçalhei o flanco do outro.

Voltei-me para o restante da turba...

- Como eu disse; ninguém tocará neles!

Os demônios guerreiros pareciam intimidados, mas os defensores negros não se impressionaram. Um deles fez aparecer uma bola flamejante entre suas garras e atirou-a em minha direção. A esfera quebrou-se de encontro ao meu escudo, espalhando chamas por todos os lados. Alguns desafortunados atrás de mim foram atingidos por elas e começaram a arder, contorcendo-se. Não pude ajudá-los, pois as bestas, aproveitando-se do ocorrido, avançaram quase como um único corpo. Eu tinha de fazer algo urgentemente ou seríamos todos mortos.

Como já fizera inúmeras vezes, levei minha mão esquerda ao símbolo de Crisagom preso ao meu pescoço. Ergui meu martelo de luz, e com os olhos abertos recitei uma prece há tempos retida em minha memória.

As feras estavam praticamente sobre mim...

Um grande clarão de luz dourada partiu de minha figura em direção às criaturas infernais, um som parecido com trovão se fez ouvir e uma tremenda onda de vento varreu a turba, empurrando-os como se fosse por uma gigantesca mão invisível.

Gritando de dor, inúmeros demônios guerreiros literalmente se desfizeram diante da luz sagrada. Alguns defensores negros fugiram em pânico urrando de pavor, enquanto outros eram atirados vários metros para trás.

Mas eles eram muitos e ainda havia bastante daquelas coisas para sobrepujarem-me.

- Vamos destruí-lo, AGORA! – Rugiu o líder do grupo.

Os três gigantescos demônios avançaram, com o chão do recinto retumbando sobre suas patas em forma de garras. Vendo seus pares partirem para o ataque, as criaturas infernais também marcharam adiante.

Um dos três monstruosos seres ergueu sua garra direita e assumiu uma postura de conjuração. Ele recitou, com aquela voz rouca e cavernosa, um encantamento. Um horrível odor de enxofre elevou-se no ar.

Magia podre...

- Protejam-se atrás de mim! – gritei para as pessoas que se abrigavam, enquanto erguia meu escudo.

Uma tremenda rajada atingiu minha proteção como um aríete, quase me atirando para trás. O ar sibilava coisas malditas, um cheiro de morte misturou-se ao do enxofre e um frio negro invadiu meu corpo. Ouvi um grito, um choro e um clamor...

“Deuses tenham piedade...”

O choque inicial passou, passáramos incólumes pelo feitiço nefasto, mas aquilo fora apenas uma distração. Os demônios novamente estavam prestes a cair sobre mim e os pobres escravos. Olhei para trás; olhares de súplica, de medo, de pavor e de resignação cruzaram com o meu. Eu não podia permitir que aquilo acontecesse. Não àquelas pobres almas sofredoras. Não àquelas pessoas que tinham visto e sentido tamanhas atrocidades. A justiça sempre triunfaria no final...

As palavras... Eu as ouvira quase cem anos atrás ao redor de uma fogueira, ainda em Abadom...

Voltei meus olhos para os demônios que preparavam para dilacerar minhas carnes e gritei...

“Por tudo que é mais justo e sagrado, Crisagom; não permita que estes filhos sejam maculados. O Senhor da Justiça sempre triunfa no final”.

Súbito, uma dor lancinante percorreu meu corpo, como se milhares de agulhas perfurassem ao mesmo tempo. O ar sumiu de meus pulmões e parecia que eu teria meus braços e pernas arrancados. Rangi os dentes contendo um grito de dor...

Instantaneamente, meu corpo foi envolto por uma luz tão brilhante que cegou a todos. Um som grave, alto, como o de um baque de rocha contra o solo se fez ouvir. Uma muralha dourada avançou de encontro aos seres infernais, engolfando e envolvendo-os em um torvelinho multicor e incandescente. Seus corpos foram sugados para o interior do redemoinho celestial e, em meio a bramidos de indignação, perjúrios e fúria, as bestas se desfizeram provavelmente destruídas ou banidas para os recônditos inferiores do Tártaro.

Um silêncio sepulcral instalou-se no recinto. Sentia-me tão fraco que dobrei os joelhos e caí. As dores começaram a melhorar, mas ainda imobilizavam meus membros.

Alguns homens e mulheres começaram a rir, outros a chorar, outros a glorificar os deuses. Haviam presenciado um milagre. Tinham sido salvos...

Caído, eu tentava entender o que acontecera. Mas a resposta era clara e cristalina. Meu senhor interviera e agraciara seu servo mais uma vez. Eu ainda não compreendia bem, mas o resultado era bem visível. Os demônios tinham desaparecido e não fugido apenas. O milagre fora muito mais poderoso que os que eu conhecia. Precisaria meditar sobre aquilo mais tarde.

Esbocei uma oração em agradecimento, enquanto tentava erguer-me; os braços pareciam de bonecos de pano e falhavam...

- NÃO! Os servos do Mestre, destruídos. Você pagará por isso, infiel! – Rugiu uma voz.

O último bankdi. O que solicitara auxílio. Eu havia me esquecido dele...

O maldito tirou uma adaga de seu manto e correu em minha direção. Eu não tinha forças sequer para erguer meu escudo.

Um silvo. E o corpo do demonista foi atirado longe, de encontro a uma parede, caindo sobre uma das mesas e lá ficando, sem sentidos.

Mas de onde...

Olhei para a porta. Daveom abandonava a postura de evocação e entrava no pavilhão. Acompanhavam-no meus irmãos sacerdotes e alguns guerreiros.

Enquanto os escravos feridos recebiam ajuda, Nirgar orava por minha recuperação.

- Como me encontraram? – perguntei-lhe.

Ele riu: - Com o barulho que se fez aqui em baixo pudemos ouvir tudo lá de cima. Daveom saiu do porão e não o encontrando julgou que tivesse achado uma passagem secreta. Ele a descobriu e aqui estamos.

Aranis e Iasa juntaram-se a nós e questionaram o que acontecera. Descrevi-lhes o que vivenciara e eles foram unânimes em concordar que o tomo que o Mais Sábio queria só podia estar naquelas instalações subterrâneas. Ao investigar o local, O sacerdote de Cruine também foi categórico:

- Existe um necromante neste lugar. Tenho certeza. Tem de ser destruído. – disse laconicamente.

Um dos guerreiros chegou até nosso grupo e nos informou que haviam descoberto uma saída do pavilhão, atrás de uma grossa cortina de tecido nos fundos do recinto. A passagem conduzia a um corredor que descia profundamente no interior da montanha.

Decidimos deixar os sobreviventes aos cuidados dos soldados enquanto nós mesmos e Daveom conduziríamos uma investigação nos níveis inferiores.

Antes de sairmos, um dos homens que resgatara nos confidenciou que um grupo dos seus havia sido enviado, há pouco tempo, para as galerias subterrâneas. Ele ouvira um dos bankdis dizer que iriam ajudar o mestre a criar o supremo guerreiro.

- Estamos prontos. Podemos partir – disse Iasa.

Enquanto meus companheiros atravessavam rumo às sombras, eu imaginava o que poderíamos encontrar à frente. Uma voz, lá no íntimo, sussurrou tranquilizando-me:

“Não importa, eu estarei contigo. A justiça sempre triunfará”.

Verbetes que fazem referência

Livro das Magias Perdidas

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