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Epílogo  

Algum lugar no interior das Cordilheiras de Sotopor, Abadom, Inverno de 1.403 D.C.

A canção do silêncio...

A doce melodia do nada. Ora tão bela como a sinfonia do aço, ora tão mortífera como a canção da morte. Eu a escuto caminhar ao meu lado naquele pouco iluminado e gélido corredor no seio da Cordilheira de Sotopor, em Abadom.

Adentramos, eu e meus irmãos sacerdotes, numa longa e sinuosa passagem que serpeja pelo interior da rocha, descendo quase de maneira íngreme para o interior da montanha. Aqui e ali, postas de sangue, pedaços de carne e alguns ossos aparecem iluminados pela tépida luz de nossos archotes. Um cheiro de morte paira no ar. Caminhamos de maneira lenta e cautelosa, sem fazer ruído, com apenas nossos pensamentos para dialogar.

O silêncio só é quebrado, aqui e ali, pelo chapinhar de nossas botas sobre o lodo e a lama sanguinolenta que cobre o solo do corredor e pelo sussurrar enregelante do vento que provém de algum lugar alhures. A escuridão engole a parca luz de nossas tochas, brincando conosco sobre nossos receios. Que terrores se escondem na próxima curva? – ela questiona. Algum horror os aguarda nas sombras à frente? – ela adverte.

A passagem termina numa pequena antecâmara, com um piso formado por pequenos azulejos brancos incrustados com um mosaico negro representando símbolos bankdis e demoníacos. Defronte a passagem nossos archotes iluminam uma estátua gasta e antiga representando um humano ajoelhado perante um ser infernal, adorando-o. A imagem revolta-nos, mas ainda mais a Aranis que faz menção de destruí-la. Susto-lhe a mão e balanço a cabeça negativamente. O barulho pode atrair inimigos indesejáveis.

A antecâmara bifurca-se; um dos caminhos corre para a direita e termina em um recinto com uma arcada assentada sobre duas colunas. Os arcos são formados por duas figuras de aspecto feminino, com corpos voluptuosos, mesmo esculpidos na rocha fria, exibindo pequenos chifres em suas frontes e asas coriáceas em suas costas. Elas se erguem até tocarem-se com as mãos no ápice do pórtico. Uma porta de madeira com um ferrolho estragado e gasto barra a passagem.

O trajeto da esquerda abre-se em uma câmara irregular que termina no que parece ser um largo corredor que deve conduzir ainda mais para baixo e para o interior da montanha. Espadas e cimitarras enferrujadas amontoam-se em um canto, junto com vários barris e ânforas.

Decidimos investigar primeiro o recinto da direita, pois percebemos rastros de sangue indo para o local. Abrimos a porta facilmente e entramos num largo e sombrio pavilhão. À luz dos archotes percebemos uma porta fechada à direita, ladeada por um par de grandes figuras de pedra com formato semelhante às vistas nos arcos da entrada; ao fundo vislumbramos o que parece ser outra porta com pequenos símbolos em alto relevo. Mais um par de estátuas, semelhante às primeiras, também parece guardar esta entrada. Um estranho odor pútrido enche o lugar, misturado com o de mofo e coisas velhas. Uma pequena mesa redonda de madeira envelhecida e algumas cadeiras quebradas se encontram empilhadas num canto, à esquerda.

Mal nos acostumamos com a penumbra quando, inesperadamente, nossas sombras projetadas pela luminosidade das tochas parecem criar forma, se multiplicar, alongar-se e deixar as paredes avançando em nossa direção. Surpreendidos, experimentamos um tremor gélido subindo pelos nossos corpos à medida que percebemos mãos translúcidas procurando nossos corações. Recuar já não é uma opção, pois a porta à direita é arrebentada à medida que uma massa enorme de carcaças disformes e retorcidas, vestidas de cota de malha e armadas com machados e espadas avança como se guiadas pela carga de algum exército perdido.

Mal tenho tempo de desviar do toque gélido do ser esguio e escuro. Manejo meu martelo sagrado e despedaço aquele espírito demoníaco. Garras e mãos esqueléticas, de coloração azulada, agarram-me pelo ombro procurando me jogar no solo enquanto tentam golpear com suas armas. Giro o corpo e o martelo; pedaços de membros e ossos se espalham pelo local. Mais desmortos avançam e tentam me acertar com montantes. Seus olhos amarelados brilham tênues na semi-escuridão do lugar. Ergo o escudo e avanço, carregando sobre aquelas monstruosidades, derrubando algumas e empurrando outras. Mais golpes do martelo. Mais criaturas destruídas. Um corpo incendeia-se perto de mim. Alguém deve ter jogado um dos archotes nele. A criatura grotesca emite urros inumanos, convulsionando-se, numa inútil tentativa de se livrar das chamas. Consegue apenas fazer o fogo propagar-se por mais alguns outros desmortos, aumentando o caos reinante no recinto.

O incêndio dos corpos dos mortos vivos melhora um pouco a luminosidade ambiente; eu percebo um dos espíritos sombrios se erguer do chão atrás de mim e tentar cravar suas garras negras em minha perna. Consigo evitar uma delas, mas a seguinte consegue me atingir. Uma sensação de queimação se espalha; sangue escoa do ferimento e uma dor forte sobe até os quadris obrigando-me a vergar sobre o peso de meu corpo.

Uma voz ergue-se no recinto: - Protejam os olhos!

Daveom conjura um imenso globo de luz arcana sobre nossas cabeças. O lugar parece ser iluminado por mil velas. Os humanóides sombrios guincham de maneira atroz e desaparecem imediatamente. Um alento? Ledo engano... Mal as criaturas afundam nas paredes indo proteger-se em lugares desconhecidos, um tremor se espalha pelo chão e as quatro estátuas que guardavam as portas parecem ganhar vida, movendo-se pesadamente de seus lugares, espalhando rochas e poeira e derrubando alguns desmortos no caminho.

Que encantamento nefasto era aquele? Monstros de pedra nos atacando? Por Crizagom, que necromante seria este que tem até seres de rocha o protegendo?

Uma das bestas se aproxima. Seus passos retumbam sobre o solo. Minha perna lateja de dor e sou obrigado a recuar alguns passos enquanto oro ao senhor da justiça pela melhora do ferimento. A dor desaparece imediatamente. Um punho rochoso desaba sobre o lugar onde me encontro. Esquivo-me de seu ataque, pulando para o lado, enquanto golpeio com o martelo. Lascas e pedaços de pedra partem-se e caem de seu membro, espalhando-se, mas a criatura nem parece sentir o golpe. Ela se volta e prepara um novo ataque.

Nisto, como uma praga, mais dois desmortos aproximam-se por trás. Machados em punho, erguidos para fender meu crânio. O barulho das armaduras trai sua presença. A estátua investe novamente com seu punho em um movimento para frente, potente, pesado, porém lento. Mais uma vez eu consigo desviar-me e não sou atingido por pouco. O punho da criatura, porém, atinge violentamente os dois mortos vivos lançando seus pedaços por todo o salão.

Um grito seco, agudo e vejo Iasa ser arremessada alguns metros para trás, atingida por outra estátua. A sacerdotisa rola pelo chão empoeirado, mas se levanta cuspindo sangue. Com um grito de guerra, a filha de Crezir parece não sentir o ferimento e arremete mais uma vez contra seu oponente. Do lado oposto, Aranis se encontra encurralado entre três desmortos e a estátua que tenta acertar-lhe o crânio. O sacerdote de Cruine brande sua espada sagrada e decapita, de um só golpe, os três desmortos, mas por pouco não é atingido pelo ser rochoso. Nirgar, o devoto de Blator, maneja seu machado de guerra com uma força e agilidade ímpares para sua estatura, arrancando violentamente pedaços e mais pedaços de rocha da estátua com quem lutava. Certamente ele clamara auxílio ao divino general e este respondera. Procurei por Daveom, mas não pude localizá-lo, pois a estátua outra vez tenta me acertar. Seu golpe atinge meu escudo que sai voando de meu braço quase o levando consigo. Engolindo um lampejo de dor, manejo meu martelo de luz com ambas as mãos e dirijo um ataque para o crânio da estátua, concentrando nele todo o vigor de meus braços. Meu senhor concede-me a graça de acertar em cheio a criatura, despedaçando sua cabeça e terminando com o combate.

Corro em auxílio de meus irmãos, mas minha ajuda não parece ser mais necessária. Iasa acabara de destruir seu oponente rochoso e terminava a existência dos últimos desmortos no local onde estava. Vejo a estátua que atacara Aranis se desfazer completamente ante meus olhos em uma nuvem grande de pó mal cheiroso. Provavelmente mais um sortilégio do arcano de Saravossa. O sacerdote de Cruine nem parece notar a ausência do atacante e concentra seus últimos golpes em um grupo de bestas mortas vivas, terminando o combate no salão. Nirgar estava assentado sobre um monte de pedregulhos espalhados sobre corpos de desmortos. O que restara do monstro de pedra que esfacelara.

Estávamos para entrar pela abertura da porta destroçada quando Daveom saiu desta com uma expressão desanimada.

- Lá dentro só tem utensílios e móveis velhos que parecem não ser utilizados há muito tempo. Provavelmente este lugar estava sendo empregado apenas como depósito daqueles seres que nos atacaram. Não tem nada de útil aqui. Melhor nos concentrarmos na outra porta.

Voltamos nossa atenção para o fundo do recinto. O globo luminoso conjurado pelo arcano ainda continua ativo e ilumina uma grande e pesada porta de metal com estranhos símbolos, parecidos com runas macabras destacando-se em relevo. Noto que os rastros de sangue passam por baixo dela. O arcano se concentra procurando entender o significado daqueles sinais. Absorto em seus pensamentos, ele fala quase mecanicamente:

- Devo demorar algum tempo para decifrar isto. Pode ter alguma armadilha aqui.

Decido ir investigar o outro pavilhão que descobríramos na bifurcação. Iasa me acompanha. Passamos pelos restos das criaturas que abatêramos e fazemos o caminho inverso, nos dirigindo até o salão irregular, onde várias armas se amontoam, junto a barris de madeira envelhecidos, ânforas e jarros de argila cozida. O que parece ser um largo corredor abre-se nos fundos do pavilhão, conduzindo ainda mais para baixo e para o interior da montanha. Noto um estranho barulho, bem distante, semelhante a um curso d’água que vem do final do corredor. Iasa balança a cabeça confirmando que também ouvira o som.

Descemos cautelosamente em meio à penumbra de algumas lamparinas de óleo que iluminam o corredor. Observo que ele termina em uma grande porta de bronze que se encontra entreaberta. Entramos e nos vemos frente a um salão cheio de luz. Dois grandes candelabros com várias velas se encarregam de iluminar o local. Várias prateleiras e bancadas se encontram espalhadas de ambos os lados do recinto, deixando a parte central livre e em cada uma delas dezenas de potes de vidro fosco, jarros de cerâmica, caixas e pequenos barris estão armazenados juntamente com pergaminhos, papiros e vários utensílios metálicos parecidos com facas, pinças de caranguejo e pequenos punhais de formatos estranhos e bizarros. Abro alguns daqueles potes e vejo que eles contêm diversas substâncias diferentes: óleos, pós, unguentos, postas, líquidos; alguns com odor adocicado, outros com cheiro acre e outros ainda tão fétidos que lágrimas chegam a correr de meus olhos. Todos estão rotulados em uma língua estranha que não consigo decifrar. Noto outra abertura no fundo do salão, de onde o murmurejar de águas parece vir mais alto.

Iasa também abrira algumas caixas e diz: - Isto aqui se parece com um grande depósito, Kerdal! Tem material suficiente para anos de uso...

- Deve ser um depósito das coisas usadas pelo necromante que Aranis diz existir - digo concordando com ela - Fico imaginando no que estas substâncias são usadas e o que seriam. Mas podemos trazer Daveom aqui depois para ele ver isto, Iasa. Venha, vamos dar uma olhada atrás daquela porta.

Aproximamos-nos da abertura e o som de água corrente fica mais alto. Atrás da porta abre-se uma grande caverna onde o que parece ser um rio subterrâneo corre no andar inferior. As paredes parecem ter sido escavadas no seio da própria montanha e do teto grandes blocos pontudos de rocha pendem sobre nossas cabeças. Um pequeno meandro de rocha leva até perto do rio aonde vemos vários barris cheios de água, alguns deles sobre pequenos carrinhos de mão, prontos para serem transportados.

- Achamos o reservatório de água do templo – disse. A sacerdotisa meneou a cabeça concordando.

Vasculhamos o lugar, mas não encontramos nada nem ninguém. Decidimos, assim, retornar até nossos companheiros. Ficou a certeza de que o que procuramos se encontra atrás da porta de metal.

De volta, reportamos aos demais sacerdotes o que tínhamos encontrado. Nesse ínterim, parece que o místico conseguira decifrar as runas estranhas. Seu rosto se ilumina e ele pede que nos preparemos para entrar. Ele encosta uma das mãos na folha da porta e recita algumas palavras numa língua cavernosa, mais parecendo rosnar do que falar. Ouve-se um som abafado de mecanismos internos se movendo e Daveom empurra a folha de metal. A porta gira sobre si mesma, revelando o que se escondia atrás dela... A visão do inferno...

Uma ampla caverna se descortina ante nossos olhos, iluminada por uma centena de tochas, velas e luminárias. À nossa frente uma grande abertura no topo da caverna domina a visão, se estendendo até a superfície, permitindo-nos ver um pedaço do céu pouco estrelado de Abadom. Abaixo dela, uma depressão aparentemente profunda, de pequenas dimensões, tinha sido criada pela água que deveria cair da abertura, formando um pequeno poço natural. Ao fundo, uma plataforma rochosa erguia-se não muito acima da parte frontal. O acesso à mesma se dava através de uma pequena escadaria irregular de pedra, à esquerda. Uma pequena ponte sobre o que parecia ser um abismo se encontra à frente da escadaria.

A parte inferior é dominada por uma dezena de celas de metal enferrujado e outro tanto de mesas colocadas enfileiradas e próximas umas às outras; As celas se encontram cheias de pessoas que dividem seu espaço com um número incontável de cadáveres. Homens, mulheres, crianças, humanos, anões, elfos; todos presos como animais. Soluços, lamentos e choro formam uma sinfonia agonizante.

Sobre as mesas jazem inúmeros corpos desmembrados, mutilados e irreconhecíveis, alguns empilhados sobre outros. À direita, outro tanto se encontra pendurado por correntes amarradas aos pés, de cabeça para baixo, igualmente desfigurados como seus pares nas mesas. Uma quantidade enorme de sangue coagulado se encontra espalhada pelo local. Um odor nauseabundo formado por uma mistura de velas aromáticas, coisas em putrefação, fumaça, excrementos, poeira e mofo empesteia toda a caverna e revolta nossas entranhas. Tudo era praticamente idêntico ao que eu encontrara no recinto do terror no andar de cima. Um verdadeiro matadouro!

No fundo, próximo à plataforma rochosa, uma grande pilha de ossos se amontoava dando-nos uma ideia da quantidade imensa de vidas que se desfizera naquele local.

No momento em que entramos no pavilhão, alguns guardas bankdis tiravam um grupo de pessoas do interior de uma cela e os tocava, como gado, para a escadaria. Outros guerreiros montavam guarda próximos à ponte, na plataforma e perto das mesas.

Com o coração revoltado por tal visão caímos sobre os demonistas como uma alcateia de lobos famintos. Famintos por justiça e vingança. Três soldados colocam-se entre mim e os escravos. Ergo o escudo e tomo a iniciativa. Avanço brandindo o martelo sobre o braço de um lanceiro. Madeira, metal e ossos se partem sob o tijolo de aço da cabeça de minha arma. Ignoro os gritos de dor do demonista aleijado e concentro minha atenção sobre o próximo oponente. O guerreiro parece descarregar todo o seu ódio num vigoroso golpe com a espada. A lâmina desce como um relâmpago dirigido à minha cabeça. Pisco os olhos quando as faíscas resultantes do impacto entre a espada e meu martelo embotam e ofuscam a vista já obstruída pelo visor do elmo. Percebo que o demonista carregou todo o seu peso no golpe. Giro lateralmente o corpo e a mão que segura o cabo coberto de couro envelhecido do martelo e deixo a lâmina do meu oponente deslizar pelo lado plano da cabeça da minha arma de modo a que a força do seu próprio golpe o desequilibre. Meu adversário perde o equilíbrio e projeta seu corpo para frente, descobrindo seu flanco. Transformo minha defesa num contra-ataque, girando o martelo num arco, atingindo as costas do homem, partindo sua espinha e prostrando-o.

O terceiro surge praticamente sobre mim. Mal tenho tempo de erguer o escudo e um enorme machado de guerra cai sobre ele, com a força de uma montanha, fendendo a parte superior deste e atingindo a lateral de meu elmo. Uma dor aguda corre sobre minha têmpora esquerda e sangue escorre do ferimento. O machado é recolhido com violência e junto com ele meu escudo se vai. O inimigo investe novamente. Ele procura acertar-me no peito, no pescoço e nos flancos. A dor aumenta e o olho do lado ferido começa a querer inchar, mas consigo desviar de seus ataques. O ataque seguinte é dirigido contra minhas pernas. Um golpe errado e mal calculado. Prolongo o arco do movimento do machado com um toque de meu martelo e a defesa do maldito demonista desabrocha como uma flor para mim...

Giro rapidamente sobre meu corpo e despedaço seu crânio num fulminante golpe lateral. Sangue espirra para todos os lados enquanto ele tomba inerte à minha frente. Uma rápida vista d’olhos e vejo que não tenho adversários por perto. Clamo a Crizagom pelo milagre da cura e novamente sou atendido. Meus ferimentos são restabelecidos.

Enquanto meus companheiros terminam com o restante dos guerreiros demonistas, corro até as grades da jaula mais próxima onde os esqueléticos sobreviventes se apertam e clamam por liberdade. Com um golpe, quebro a trava metálica que tranca a porta e abro-a. Olhos famintos, mãos sujas e lábios descarnados brindam-me com agradecimentos enquanto eles saem, de maneira atabalhoada, de sua prisão.

Mas antes que os primeiros libertos pudessem se por em segurança, uma voz rouca e profunda se ergue em meio ao retinir do aço. Uma figura muito alta, envolta em um robe negro, cheio de símbolos demonistas e com a cabeça coberta por um capuz que lhe cobre o rosto aparece no alto da plataforma e parece olhar para baixo, em nossa direção.

A aparição solta um pequeno riso desdenhoso. Ele ergue uma das mãos e fala algo em uma língua cavernosa. E eles aparecem...

Já lutei contra várias aberrações, demônios e monstruosidades que um homem possa imaginar, mas a visão daquelas bestas superava tudo que já vira até ali. Cerca de cinco enormes criaturas, de aparência grotesca e repugnante, semelhantes a uma massa humana disforme de carne e ossos gigantesca e robusta, com vários braços, pernas e algumas com mais de uma cabeça surgem ao lado do necromante e pulam da plataforma rochosa.

Elas aterrisam no pavimento inferior em meio ao estrondo de seus pés e os gritos de pavor dos pobres sobreviventes. Percebo, para meu horror, que as cabeças das criaturas são completamente desfiguradas, com vários olhos e bocas. Verdadeiras abominações!

- Para trás de mim – falo para as pessoas – vão para a saída, agora!

Elas saem correndo em direção à porta, tropeçando e passando por cima dos corpos estraçalhados de seus captores, enquanto assumo uma posição defensiva entre elas e a besta mais próxima. Os outros sobreviventes, dentro das jaulas, ainda gritam de pavor, o que parece não interessar as criaturas. De repente, as pessoas que corriam, param e começam a contorcer-se e a gritar de dor. O arcano maligno devia ter-lhes lançado um sortilégio.

- Daveom – gritei para o mago - ajude aquelas pessoas!

Enquanto o místico prepara um contra feitiço, as abominações se aproximam, rugindo, e, movendo seus punhos, nos atacam. A criatura próxima a mim golpeia de baixo para cima, mas consigo esquivar de seu movimento e contra-ataco com uma pancada em seu ombro. Ela parece quase não sentir. Imagino que deva ter uma constituição física sobre-humana. Vejo Nirgar ser lançado de encontro à pilha de ossos e quase afundar-se na mesma. Iasa luta como uma leoa, mas a besta não sente seus golpes e atinge a sacerdotisa jogando-a por sobre uma das mesas, quebrando esta e espalhando cadáveres e sangue pelo chão da caverna. Aranis parece ser o que melhor se sai contra as abominações. Vejo-o envolto por uma aura luminosa que atrapalha os golpes de duas criaturas, fazendo-as errar grosseiramente seus ataques. Enquanto isso, o sacerdote vai retalhando seus agressores um a um.

Um barulho de trovão invade a caverna e uma imensa rajada elétrica atravessa o lugar indo quebrar-se de encontro ao necromante, mas este nem emite um som de dor. Ele responde e envia uma esfera flamejante de encontro a Daveom.

À medida que o duelo de energias místicas ruge acima de mim, a coisa volta a tentar me atingir. Ela procura me socar de várias maneiras, com todos os seus braços, enquanto recuo e respondo aos seus ataques, mas o monstro parece não sentir os ferimentos que lhe causo. A fadiga começa a penetrar em meus membros e o martelo começa a pesar em minhas mãos. Então, um dos golpes acerta a ponta de meu martelo, jogando-o para o lado. No momento seguinte me vejo atirado alguns metros para trás, com o peito explodindo. O ar some de mim. Existe somente a dor. O chão abre seus braços duros e me recebe. A dor aumenta. A queda me deixa zonzo. Vagamente percebo a besta se movendo para terminar com minha vida. Procuro minha arma, mas não a encontro. Estou desarmado... E sem escudo.

“Não importa, eu estarei contigo. A justiça sempre triunfará”. – uma voz sussurra em meu coração.

A dádiva de Crizagom! O presente que meu senhor me concedera encontrar alguns momentos antes, no depósito subterrâneo do templo lá em cima... Recordo-me das palavras.

- Lorde de honra e bravura, que tua luz resplandeça e que o raio da justiça destrua todo o mal!

O símbolo de Crizagom em meu peito aquece-se e começa a brilhar intensamente. De repente, um raio de pura luz sagrada irrompe da pequena peça metálica num arco crescente atirando-me para trás enquanto atinge a criatura, envolvendo-a e dissolvendo toda a carne de seu ser.

Num instante tudo acaba e não tenho mais ninguém para enfrentar. Meu honrado senhor interviera novamente a favor de seu devoto e me concedera aprender um novo milagre que eu presenciara o efeito pela primeira vez. Apalpo o pergaminho que levo em meu alforje e oro agradecendo.

Ergo-me procurando meu martelo . Corro os olhos pela caverna e vejo meus irmãos sacerdotes também começarem a prevalecer sobre seus oponentes. Nirgar, apesar dos vários ferimentos na cabeça e no corpo, consegue erguer seu machado e com uma força sobrenatural desmembra a besta que o atacava; Iasa, com o braço esquerdo ensanguentado e quase inútil, clama à sua deusa, oferecendo seu corpo como dádiva; instantaneamente, uma pálida luz acobreada envolve sua cimitarra e, num ataque impetuoso, a sacerdotisa corta a criatura bem no abdome, partindo-a em duas, encerrando o combate. Entretanto, logo a seguir, ela verga sobre si mesma, tomada de profundas dores.

O sacerdote de Cruine já destruíra um de seus atacantes e, naquele instante, sua vingadora sagrada acabava de decapitar a última aberração; contudo, ele coxeava de uma perna e tinha um feio corte na cabeça. Daveom encontrava-se prostrado, no mesmo local onde iniciara seu embate com o arcano necromante. Procurei pelo infame no topo da plataforma, mas ele não estava mais lá. Teria fugido? Cheguei até o místico e percebi que se encontrava paralisado, mas ainda respirava. Algumas feias queimaduras transpareciam de seus braços. Fazia uma oração pedindo a cura para o mago quando Nirgar me chamou.

- Paladino, ajude-nos a libertar os demais prisioneiros. – Olhei para Daveom e vi que ele ficaria bem e fui ajudar meus irmãos de fé.

Corro até as jaulas mais próximas e vou quebrando as travas liberando as pobres vidas que se encontram trancafiadas. Elas mal conseguem andar. Dezenas de cadáveres se amontoam também no interior dos cárceres. Alguns já em decomposição...

olho para a plataforma e lá está o maldito: - Então é assim que termina?

Outra vez aquela voz rouca se levanta ecoando pela caverna. Mas, aparentemente, nada acontece! Nenhum tremor, nenhum raio de luz negra, nenhuma chaga brotando em nossos corpos. O feitiço teria falhado?

Um ruído de algo se arrastando. Sons de ossos e carnes se mexendo. O farfalhar de vestes úmidas. Vozes guturais aparecem... E uma centúria de mortos se levanta. Nas jaulas, nas mesas, no chão. Até os corpos pendurados começam a se contorcer...

A horda avança lenta, porém inexorável, em nossa direção. Aranis pega em meu braço e diz:

- Temos de destruir o mestre destas bestas ou ele continuará a enviar seus lacaios contra nós em número cada vez maior até nos destruir. Somos os que estão em melhores condições...

- Venha comigo então, e vamos confrontá-lo – respondo. Volto-me para Nirgar e Iasa – Iremos enfrentar o necromante, eu e Aranis. Conseguem proteger estes? Seus ferimentos...

- Vão, e que Blator os guie – respondeu o anão. Ele olha para a sacerdotisa e diz: - Vamos, filha do dragão! – e parte em direção dos monstros. Iasa não responde. Apenas ergue sua arma e também avança.

Não olho mais para meus bravos companheiros. Dirijo meus passos para a esquerda, onde atravesso a pequena ponte de madeira sobre um longo abismo e subo os degraus quebrados e desnivelados da escada de pedras que leva à plataforma rochosa acima. Aranis segue logo atrás, coxeando. No alto da plataforma, vejo a figura do necromante entretida em estudar um cadáver aberto sobre uma mesa cheia de aparelhos estranhos e grotescos. Mais atrás, à sua direita, cerca de cinco sarcófagos estão abertos. Dois deles se encontram ocupados. Dentro, jazem seres que lembram humanos, com a pele ressequida, acinzentada, de aspecto decadente e caquético, mas com músculos rijos. Um estranho odor almiscarado preenche o local, bem diferente da podridão abaixo. O arcano parece sequer notar nossa presença.

No chão da plataforma, dois imensos pentagramas místicos feitos de ladrilhos carmesins se encontram desenhados. Poças de sangue negro se acumulam no meio deles entremeadas com outras de sangue meio coagulado.

Ao fundo, outro sarcófago se encontra fechado, ladeado por três figuras inertes, semelhantes a estátuas envoltas em armaduras completas e vergando enormes montantes. Outra mesa destaca-se, contendo diversos pergaminhos e livros, uns abertos, outros fechados, disputando espaço com vidros de poções, óleos, pequenas caixas e joias de tamanhos diversos. E lá, perdido entre outros tomos, estava ele; sim, a descrição da capa batia com o que nos fora dito... O livro que o Mais Sábio aguardava!

- Aranis, olhe. Sobre aquela mesa! – disse para o vingador negro. Ele olha e seu rosto se ilumina, também reconhecendo o tomo.

Avançamos para a outra mesa a fim de pegar o tomo, mas, , à nossa frente surgem vários demônios guardiões bloqueando nossa passagem. Os defensores negros certamente estavam invisíveis e esperavam o momento exato para nos atacar.

O arcano volta-se para nós, enquanto seus demônios se espalham nos cercando.

- Ora, vejo que dois resolveram se sacrificar para que vocês chegassem até aqui. Que atitude nobre. Mas inútil. Logo vocês estarão como qualquer uma de minhas criaturas desmortas. Bastam apenas mais alguns... Cortes. E isso meus demônios podem conseguir.

Como se aquela frase fosse uma ordem, as criaturas demoníacas erguem suas armas flamejantes e investem contra nós. Aranis brande sua espada e parte um dos demônios ao meio, enquanto eu manejo meu martelo e despedaço o crânio de um e o peito de outro. Mais demônios avançam golpeando. Eles procuram nos acertar de todas as formas possíveis; com suas armas, com suas chamas e com seus sortilégios malignos. Para todos seus ardis conseguimos responder à altura. Ao fundo, o místico infernal parece se divertir em ver nossos esforços para tentar chegar até o próprio e dar um fim em sua sórdida existência. Mas por mais demônios que destruíamos, mais pareciam chegar...

Então, Aranis se ajoelha e ergue sua voz ao senhor dos mortos. Um ribombar de trovão, um ruflar de asas e seres divinos surgem em nosso auxílio, engalfinhando-se com vários demônios. Aproveito a oportunidade e a surpresa causada pelos enviados celestiais. Ergo meu martelo de luz e golpeio um dos demônios atacantes, liberando espaço à minha frente. Dou um salto e caio sobre a mesa por cima do cadáver, assustando o próprio necromante. Agarro um dos punhais que fora usado para abrir a infortunada vítima e com um grito espeto-o no coração negro daquele ser desprezível, achando aquela uma morte muito misericordiosa para tão vil ser.

Ele engasga e cospe sangue; suas mãos tentando arrancar a arma profundamente entranhada em seu tórax. Mas então, estranhamente, ele começa a gargalhar. Uma gargalhada rouca, histérica e completamente insana...

- - Realmente imaginou destruir alguém que viu os primordiais no fogo tartárico de maneira tão banal?! –

Como uma marionete sem cordas, o corpo do místico cai ao chão, sem vida. Corro até ele e abro seu capuz revelando a face jovem e desfigurada pela dor de um acólito humano. Um pequeno medalhão brilhante pende em seu peito sem vida. Um artefato mágico provavelmente. A lembrança de sua reação frente ao raio elétrico de Daveom surge repentinamente. Minha surpresa só não é maior que minha decepção ao constatar o óbvio. O jovem só podia estar possuído pelo verdadeiro necromante.

E o próprio se revela. O outro sarcófago, ao fundo da plataforma se abre e dele sai um corpo semi-esquelético e decadente, com pedaços de carne apodrecida, cobertos por pele branco-acinzentada e pegajosa, pendendo de seus membros. Dois pontos de luz carmesim flutuam em órbitas tão vazias como poços de escuridão odiosa. Ele ajeita uma envelhecida, gasta e corroída túnica multicor, que, em tempos a muito esquecidos parecia indicar uma ascendência nobre ao seu usuário.

Ele aponta um dedo para mim e fala em uma voz cavernosa e gutural:

- Contemple mortal, a verdadeira face de Lairendur, o imortal. Contemple a face do seu algoz. Meus cavaleiros... Ergam-se, protejam seu senhor e esmaguem os infiéis!

As três figuras envergando couraças parciais que se encontravam inertes ao lado do sarcófago se movem e com uma agilidade incomum colocam-se à frente do necromante demonista. Enormes montantes manejados por mãos esqueléticas com músculos rígidos apontam em minha direção. Faces cadavéricas exibem um esgar inumano de fúria. E aquele estranho odor almiscarado que exala de suas formas ressequidas. Ele chega a ser incômodo. Respirar começa a ficar difícil. Noto um estranho temor tomar meu coração e minha mente. Vozes acusadoras invadem meus pensamentos; tentam me recriminar. Observo meus braços fraquejarem. Luto contra aquela força opressora e clamo a Crizagom por coragem. As vozes se calam. Meu coração se aquieta.

Aranis se coloca ao meu lado no momento em que as criaturas atacam. Noto que ele não está de posse de sua arma sagrada. Ele empunha uma espada de luz cintilante. Olho para trás rapidamente e vejo que a luta entre os enviados e os demônios continua, com uma fúria ímpar. As criaturas infernais não nos molestarão e podemos concentrar nossos ataques nas bestas à frente.

Dois deles se movem contra mim. Aranis também parece sentir os efeitos do temor que me invadira momentos antes, por isso, desvio-me dos ataques e bloqueio o golpe da criatura. O sacerdote de Cruine se recobra e entra na luta. Volto-me para meus oponentes. Uma das criaturas avança frontalmente golpeando impiedosamente, enquanto outra tenta flanquear-me. Aparo os golpes do inimigo à minha frente, e por muito pouco não sou atingido pelo outro agressor ao lado. Novo ataque, desta vez pelo flanco. Jogo o corpo para o lado enquanto o golpe se perde no vazio. Giro o martelo e acerto meu adversário do tronco jogando-o para trás, enquanto me desloco para baixo, escapando do outro montante que tentava separar minha cabeça do corpo. Rolo pelo chão enquanto a criatura tenta acertar-me, tirando lascas do solo da caverna e inutilizando um dos pentagramas. Golpeio lateralmente por baixo, sobre uma das pernas daquela coisa e a faço perder o equilíbrio. Ela estatela no chão, largando sua arma e expondo todo o seu corpo. Aproveito a oportunidade e desço o tijolo de aço de meu martelo sobre o peito da criatura esmagando-o. Uma enorme explosão acompanha o findar de existência da besta. Sou atirado para trás. O fedor do enxofre invade minhas narinas e todo o meu corpo é tomado por queimaduras. Milhares de agulhas atravessam meus membros. Meu martelo se perde. A consciência se esvai. Novamente o chão me recebe. Uma dor lancinante percorre minha cabeça e me vejo perto da borda da plataforma.

Com a visão borrada me pego olhando para cima. Os enviados lutam bravamente, mas o número de demônios conjurados pelo necromante é cada vez maior; olho para baixo e observo Nirgar e Iasa quase sendo sobrepujados pelo imenso número de cadáveres. Volto-me para o lado e vejo Aranis ser atingido por um golpe que faz desaparecer sua lâmina de luz e em seguida por outro que o joga no chão. As criaturas avançam sobre ele para exterminar sua vida. Não posso permitir aquilo. No pouco de forças que me restam ergo minha mão e sussurro a oração:

“Correntes da justiça, aprisionem o mal; grilhões da bravura, contenham as trevas”.

Um lampejo de luz cintilante... E outro... E mais outros...

Correntes de pura energia divina surgem do alto, do chão e de lugar nenhum envolvendo as criaturas. Seus braços, pernas, troncos, cabeças se imobilizam pelas cadeias sagradas. Inutilmente eles tentam se libertar.

Eu ganhara tempo. Tento erguer-me, mas meus membros não me permitem. Tateio o chão até encontrar meu martelo e trago-o para perto. As queimaduras martirizam minhas carnes.

Nisto a voz do necromante demonista se faz ouvir novamente.

- Olhem para vocês caídos onde estão. Tudo o que seus deuses lhes concederam simplesmente falhou. Suas armaduras são inúteis, suas armas são desprezíveis e seus milagres totalmente sem efeito – Com um gesto, ele destrói minhas correntes, liberando as criaturas.

Ele ergue sua mão e uma esfera de energia negra sai desta se projetando em minha direção. Um domo negro me cobre e sinto como se cada pequeno ponto de meu corpo estivesse se decompondo. Uma dor excruciante, maior que qualquer outra que tenha sentido antes me domina. Para minha vergonha, não consigo segurar um grito de agonia...

- Sim, Grite... Talvez assim você possa me destruir... – A gargalhada do monstro é uma bofetada em minha honra.

Acredito que até um sacerdote pode duvidar e conhecer o terror. Tudo parecia perdido. Eu falhara. Na missão mais importante eu falhara. Procuro meu deus dentro de mim, mas encontro apenas silêncio. Em vez da voz de Crizagom tudo que consigo ouvir é uma pergunta martelando meus pensamentos: “Kerdal, você tem medo de morrer? Você tem medo de morrer pelo que acredita e pelos seus companheiros?”. Eu tinha? Imagens de meus amigos e entes queridos mortos atravessam minha mente. Ilara, Leonim, Morfans, Symas, Altiom, Leymar, Arctus, Imlad, Harim, Andreus, Cavam, Targo e tantos outros que partiram sem que eu pudesse fazer qualquer coisa para impedir. Não desta vez. Não aqui, não agora. Por Crizagom, eu faria tudo o que fosse possível para salvar meus irmãos de fé e destruir o mal. Nem que minha vida fosse entregue em libação.

Uma chama arde em meu coração. Uma onda revigorante percorre meus braços e pernas. Minhas forças voltam. Ergo-me apoiado em minha arma.

- Mesmo que minha carne seja dilacerada e meu corpo seja entregue em sacrifício, eu me erguerei para ajudar meus companheiros e dar um fim em sua existência desprezível. Pois o Senhor da Justiça sempre prevalece no final. Lorde de honra e bravura usa-me a mim como escudo para os meus companheiros e como espada para destruir o mal!

Instantaneamente, um tremor de terra se faz sentir seguido de um imenso raio de luz sagrada que atravessa a abóbada da caverna, destruindo parte desta e espalhando blocos de rocha por todos os lados. Ele me envolve e penetra em mim. Uma nova onda de dor me invade, mas, estranhamente, eu me alegro com esta. Começo a sangrar. Olhos, ouvidos, nariz, lábios, queimaduras e vergões. Cada ferimento parece se abrir e despejar minha vida por ele. O martelo de luz em minha mão se aquece e brilha intensamente. A luz começa a cobrir meu braço e parte de meu torso. Minha mente se ilumina e eu sinto uma grande paz. A dor desaparece. Meus temores se desvanecem, não sinto qualquer emoção ou sentidos do corpo. Só o que interessa é cumprir a justiça!

Então, tudo se torna nebuloso, confuso. Um transe. Vejo-me partindo contra as criaturas que se preparavam para atingir Aranis. Eles voltam seus ataques contra mim. O martelo canta a melodia do aço. Eu bailo a dança da morte. Lampejos de luz branca, golpes de montantes, contra-ataques de martelo, explosões de enxofre, cortes e estocadas sendo fechados, pedaços das bestas jazendo no chão, uma voz cavernosa e rouca proferindo imprecações e encantos, energias místicas se quebrando contra mim, chamas, escuridão; de repente, demônios à minha frente, garras, mais chamas, zumbidos, clarões, mais golpes de martelo, guinchos de dor. Súbito, o borrão se desfaz e eu me pego frente a frente com Lairendur. Sua empáfia e arrogância se desfazendo como areia frente às ondas do mar. O imortal com medo de morrer!

- Tens razão, Lairendur. Não somos grandes guerreiros, nem heróis cheios de fé. São os deuses que nos permitem sê-los. Vá encontrar seus mestres e diga-lhes que um mestiço mortal, servo do Lorde da Justiça o enviou para eles.

Desço-lhe o malho sobre o crânio. Um som repugnante de ossos se partindo e tudo se finda.

Sem seu mestre os demônios debandam e os cadáveres voltam a ser cadáveres. Não tenho tempo para comemorar ou agradecer a graça à Crizagom. Meu corpo se transforma em uma cascata de sangue e chagas abertas. Braços, pernas, tronco, dorso. Sinto minha vida se esvair. As forças abandonam meus membros e o chão me recebe pela última vez. A visão se turva; um aroma suave das florestas de Alus; a visão doce do terno rosto de Ilara; o sussurro dos meus camaradas paladinos e por fim... A canção do silêncio.

“Honra e Justiça” flui de meus lábios e parto para encontrar meu Senhor.

***

O som das trombetas faz-me abrir os olhos. Aproximamos-nos do Templo. À frente deste, um grupo de imensas estátuas de leões, esculpidas em granito e mármore, perfilam-se de ambos os lados. Mais ao fundo, antes do pórtico de entrada, dois imensos obeliscos apontam para o céu nublado da Moldânia. Sobre o arco de entrada uma imensa inscrição em pedra com vários metros de extensão anuncia: À memória de Todos os Deuses, os Senhores da Criação.

Uma guarda de honra moldavi nos recebe. Centenas de sacerdotes se aglomeram para nos observar. Mais atrás, parece que toda a população de Abrasil veio para a cerimônia. Uma atmosfera de expectativa paira sobre os presentes. Murmúrios e cochichos se ouvem.

Então ele surge... O Mais Sábio. Acompanhado de lordes, príncipes, altos dignitários e sumo sacerdotes ele para alguns metros à minha frente e sorri. Um sorriso que é ao mesmo tempo de alegria e reconhecimento.

Aperto o tomo que se encontra debaixo de meu braço e, apoiado em meus companheiros de fé, nos dirigimos até a comitiva. Exibimos, com orgulho, as cicatrizes e marcas que tão árdua missão nos causou. Bandagens, tipoias e emplastros cobrem nossos ferimentos, mas não diminuem a altivez com que lenta, porém firmemente caminhamos. Atrás de nós, nossos camaradas voluntários que nos acompanharam na empreitada começam a bater suas armas em seus escudos e gritam em júbilo. Foi o sinal para que toda a plateia explodisse em vivas.

Em meio ao momento de extrema alegria, meus pensamentos viajam para o passado. Lampejos de memória. Meus irmãos sacerdotes, muito feridos, orando incessantemente para minha recuperação e cuidando de meus ferimentos; meu corpo sendo transportado através das passagens no interior da montanha; os guerreiros voluntários construindo uma padiola para a viagem de regresso; Daveom conjurando esferas flamejantes e incendiando o templo demonista; o sorriso de alegria dos libertos pelo fim de seu cativeiro; a paisagem cinzenta de Abadom; o interior de um barco no rio Mam; o sacolejar de um camarote de navio; uma cama numa estalagem. Todas elas mudando constantemente. A única memória fixa que tinha era a do livro em meus braços, me acompanhando em todo o trajeto de retorno.

E ali estava ele, sendo entregue ao seu novo mestre. Meus irmãos sacerdotes foram unânimes em conceder-me a honra de portar a dádiva que, segundo o Mais Sábio, ajudaria a mudar os rumos da guerra contra a Seita. “Você deu sua vida por ela e por nós, Paladino. Merece tal honraria” – dissera-me Nirgar, o devoto de Blator.

Para mim, mais do que recuperar e entregar um livro, aquela incumbência me agraciara de uma maneira ímpar. Recebera dádivas miraculosas supremas de meu honrado Senhor, que fortaleceram ainda mais minha fé em sua justiça e bravura. Ele me mostrara que nunca era tarde para se mostrar a maior prova do poder dos fiéis nos deuses. E esse poder seria importante nos momentos que viriam pela frente...

Verbetes que fazem referência

Livro das Magias Perdidas

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