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Dírtam .  

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Por Alexandre Romero Inforzato


Quando narro essa história, sou comumente recompensado com reações que vão da discreta incredulidade a manifestações exuberantes de zombaria. Em parte isso é compreensível – já que sou um bardo e as pessoas nem sempre associam a fina arte de entreter audiências com uma profissão de verdade. Contudo, garanto que a narrativa a que darei início não teve de maneira alguma seus fatos adulterados para melhor granjear a simpatia de meus ouvintes. Ela é, em si, mais do que suficientemente fantástica.

Chamam-me Silvus Vauno e sou natural de Saravossa, a capital do mundo civilizado. Quando atingi a maioridade, decidi correr o mundo para adquirir experiência e ouvir com meus próprios ouvidos os segredos confiados pelos viajantes embriagados em seus transes etílicos. Percorri desde então vários reinos, até acabar me perdendo ao longo da travessia montanhosa para a Levânia setentrional – quando o jovem rastreador que seguia comigo foi vitimado pelo excesso de confiança na própria capacidade de distinguir entre frutos inofensivos e venenosos. Foi assim que cheguei ao remoto vilarejo de Ludan.

Ali conheci um outro andarilho. Trajava uma capa de viagem cinzenta muito empoeirada e suas botas, de tão gastas, pareciam prestes a abandonar as solas. Despertou-me a atenção, sobretudo, a maneira austera com que o viajante empunhava o cajado, bem como os adornos invulgares que a indumentária sóbria porventura revelava. Estava na taberna quando ele chegou e caminhou até o proprietário, sussurrando alguma coisa enquanto lhe depositava uma peça de ouro nas mãos. O pobre homem, lívido, ofereceu uma mesa ao viajante e desapareceu instantaneamente pela porta da cozinha, retornando em seguida com várias garrafas de vinho e um copo de vidro.

O andarilho, então, baixou o capuz e pude ver que se tratava de um elfo, o que atiçou minha curiosidade enormemente. Vi a oportunidade de desvendar-lhe a história quando o sujeito começou a esvaziar furiosamente um copo de bebida atrás do outro. Aguardei até que a segunda garrafa estivesse vazia para me apresentar.

“Saudações!”, aproximei-me com uma mesura, “Noto que és, como eu, um viajante sozinho nestas terras ermas”, prossegui, descansando a mão sobre o encosto de uma cadeira, “Se não te causa incômodo, desejo sentar-me à tua mesa, pois tenho o espírito onerado pela solidão da estrada”. O elfo, com expressão serena, estendeu então a palma aberta em direção à cadeira, num gesto de consentimento.

“Sou Silvus Vauno, poeta e trovador”, declarei enquanto me acomodava, “Ando pelo mundo em busca de inspiração e lendas, porém sofro o infortúnio de ser consistentemente privado de meus companheiros de viagem”.

“Chamo-me Dírtan”, tornou calmamente o elfo, com dicção perfeita apesar do forte sotaque, “Bebamos juntos, pois vejo que experimentamos desventuras semelhantes”.

“Perdeste algum ente querido?”, ousei indagar, tendo reconhecido na voz de meu interlocutor o acento ligeiramente ébrio característico dos que têm uma história para contar e estão apenas à espera de uma boa desculpa para fazê-lo.

“Os demônios da desgraça e da ironia acompanham-me desde sempre”, principiou o elfo, empurrando o copo para mim e levando uma das garrafas à boca pelo gargalo, antes de prosseguir:

***
“Acontece que sou um mago” [disse Dírtan] – “nascido e criado num reino de elfos a várias centenas de quilômetros daqui, no coração do continente. Não, meu jovem, eu não espero que saibas onde é que fica. Na verdade, não deveria sequer ter trazido o assunto à tona. De qualquer maneira, foi onde nasci – filho de uma Casa de arquimagos cuja genealogia remonta aos primórdios de nossa civilização. Todos os meus sete irmãos e irmãs tornaram-se elementalistas de renome. Não é sem ironia, portanto, que minha paixão por artefatos e encantamentos – ramos da magia significativamente mais sutis e complexos do que o elementalismo – tenha me entregue à indiferença de meus familiares”.

Conformei-me, eventualmente, com minha sina e, farto da busca juvenil por prestígio e aceitação, tomei gosto pelo isolamento. Liderei uma expedição arqueológica no extremo sudeste de Tagmar, onde desperdicei vários anos da minha vida em tentativas vãs de desvendar o segredo do Domus. Que Domus? Meu caro, se eu tiver que me deter para esmiuçar cada detalhe dessa história, não vamos a lugar algum. Basta dizer que, frustrado por meus magros progressos, estive à beira de abandonar tudo e reiniciar meus estudos em outro ramo da magia. Foi então que o acaso interveio.

No longo caminho de volta, fomos surpreendidos por uma nevasca terrível. Naquele instante, perebi que minha bússola mágica havia sido arruinada pelos anos que eu passara em Telas, estudando o Domus. Se tivesse me dado conta disso antes, poderia ter até mesmo feito algum progresso com meus trabalhos baseando-me na seqüela mística que danificara irreparavelmente o meu principal instrumento de navegação. Ali, a única coisa que isso significava era que estávamos completamente perdidos, à mercê de um clima hostil. Em situações como essa, placidez de espírito e objetividade de raciocínio são fundamentais – por isso, esmigalhei a maldita porcaria inútil numa rocha para aliviar a minha frustração.

Foi então que avistamos uma formação rochosa ao longe, e nos apressamos em alcançá-la a fim de providenciar abrigo para a caravana. Qual não foi a minha surpresa ao verificar, na manhã seguinte, que uma das faces basálticas daquele rochedo escuro era bastante regular – regular demais para ser natural, e ainda assim fundia-se perfeitamente com o restante da formação, constituindo uma sofisticada obra de engenharia provavelmente temperada com mágica.

Castiana, a especialista em runas, não custou a localizar a assinatura mágica do painel, revelando-a em letras luminosas com um encantamento de sua própria autoria. Os caracteres remetiam inegavelmente ao alfabeto élfico, exceto que a escrita era tão antiga que não permitia qualquer tradução imediata. Experimentamos com os possíveis fonemas da inscrição por várias horas, até finalmente encontrar a combinação de sons que desativou o selo místico da porta. O que encontramos além daquela passagem, no entanto, não foram os vestígios de algum santuário arruinado pelos séculos, e sim câmaras subterrâneas decoradas com estátuas e murais em perfeito estado de conservação, e corredores entrelaçados que se estendiam por centenas de metros, num dédalo interminável de escadas, rampas e canais.

Os dias seguintes foram dedicados a um processo lento e cuidadoso de exploração, o qual demandava o exercício constante de uma ampla variedade de métodos para detecção de armadilhas. Tal precaução não se mostrou em vão: a quantidade de gatilhos mágicos espalhados pelo complexo era avassaladora, limitando drasticamente o nosso trânsito. O melhor que se podia fazer era determinar a localização das armadilhas. Não tocamos em nenhuma delas – confesso, com certo embaraço – por simples ignorância de como as desativar. Enquanto isso, Olan e Izenna (o casal de historiadores), passavam o tempo todo contemplando murais e tecendo suas teorias sobre as possíveis origens e o propósito daquele lugar. Quando finalmente nos reunimos para cruzar as informações obtidas por cada grupo, eles se mostraram convencidos de que havíamos encontrado algum tipo de prisão ou depósito de artefatos proscritos – quem sabe as duas coisas. Uma análise mais pormenorizada dos murais poderia fortalecer uma ou outra hipótese, mas isso levaria tempo.

À noite fomos despertados pelo som de um pranto desesperado vindo dos subterrâneos. Conjurando rapidamente uma esfera de luz, corri para averiguar a origem do estardalhaço, mas tudo o que encontrei foi um cadáver ressequido abraçado a um pacote de couro velho. Izenna e Olan juntaram-se a mim. Os gritos se prolongaram ainda por vários minutos – vinham de uma das várias seções do complexo cujo acesso era impedido por uma barragem maciça de armadilhas. Olan reconheceu os restos mortais de Castiana, e era obviamente a voz dela que ecoava ainda, de forma sobrenatural, pelos corredores. Ficamos então ali, perplexos e impotentes, até que as súplicas desencarnadas se reduzissem a um lamento baixo, soluçante e longínquo. “Mulher idiota”, sussurrei para mim mesmo, sinceramente penalizado com o resultado da ganância e do descuido de Castiana. Agachei-me para recolher o embrulho que custara sua vida, e dessa vez foi Izenna quem soltou uma exclamação de pavor – ela apontava um dos murais com a mão trêmula, e sua voz era um balbucio desarticulado.

Aproximei a esfera de luz do painel e reconheci, com horror, a representação estilizada de uma elfa carregando um pacote de couro. A figura, terrivelmente assemelhada à Castiana que conhecemos em vida, exibia um símbolo curioso sobre a cabeça e estava cercada de outras gravuras – reproduções mais ou menos fiéis de cada um dos membros de nossa expedição, inclusive eu próprio – igualmente marcadas. “Então é isso que os murais fazem”, pensava apavorado, em minha desesperada corrida rumo à superfície. Não me voltei para olhar o que sufocou a voz de Izenna, não me deti para atender aos gritos de socorro de Olan. Não parei sequer para alertar o restante dos membros da excursão. Tomei o primeiro cavalo que encontrei e cavalguei durante horas numa direção qualquer, sem olhar para trás, até minha montaria cair de cansaço. Só então me dei conta de que ainda apertava firmemente o pacote de couro contra o peito.

***
Levei semanas para retornar ao meu reino. Quando fui encontrado por uma patrulha, estava mais morto do que vivo, de forma que não tenho memória alguma do que aconteceu entre aquele momento e o dia em que recobrei a consciência, sobre uma cama no Templo de Curas. Fiquei surpreso ao notar que estava cercado de sacerdotes e – diabos! – metade do Conselho de Arquimagos devia estar ali. Desorientado pelo longo período de inconsciência, senti a mão de minha irmã Irianna sobre o meu rosto enquanto sua voz distante dizia coisas que não faziam sentido – que eu era um herói e o regente em pessoa desejava falar-me.

Foram dias bons para mim. Talvez pelo aspecto dramático do meu retorno, ou então pelo conteúdo do pacote que eu arrastara de volta comigo – quatro livros, escritos naquela forma antiga do idioma élfico, livros de magia! O fato é que, acidentalmente, eu me tornara uma celebridade. Obviamente, não divulguei todas as circunstâncias sob as quais aqueles itens haviam sido adquiridos. Não me olhe assim, rapaz. Você, que vive de contar estórias, deveria saber como a verdade é elástica. É possível que eu tenha omitido alguns pontos secundários do que ocorreu, obtendo benefícios indiretos do crédito absolutamente justo que me cabia por aquela descoberta singular. Era MINHA expedição, afinal. Obviamente, a situação não demorou a fugir do meu controle. Fui instantaneamente nomeado membro temporário do Conselho de Arquimagos, com a tarefa de coordenar o estudo dos tomos encontrados e já vislumbrando a possibilidade de me tornar um membro permanente, dependendo dos resultados.

Curiosamente, ocorreu que a análise dos livros já se iniciara ao largo do meu arbítrio e, a despeito da responsabilidade confiada a mim, tive a impressão de que o andamento daquela pesquisa estava em curtíssima medida submetido à minha liderança. Grítias Nendúril, celebrado estudioso de idiomas mortos, tomou as rédeas da tradução. Assim, coube a ele confirmar que os volumes em questão descreviam técnicas empregadas por nossos ancestrais para desencadear “convulsões naturais de ampla magnitude”. Isso, meu caro, é uma forma acadêmica de dizer “magia elemental do tipo que altera a paisagem”. Mais uma vez, que ironia! – eu ter inadvertidamente alcançando a notoriedade através de algo a que renunciara em princípio.

Previsivelmente, cada livro tratava de um dos aspectos fundamentais do elementalismo, e cada um deles foi confiado a um membro do Conselho: Ardras Trilence, arquimago-chefe do reino, ocupou-se do que tratava da terra. Fírien Niênir, célebre bruxo ígneo, a ele foi confiado o volume do fogo. Grítias incumbiu-se do que dizia respeito ao ar – e à minha irmã Irianna (o orgulho da família, diga-se) foi designado o elemento de sua especialidade, água. Eu, Dírtan Galatór, passei então a funcionar como uma espécie de consultor, efetivamente mais um observador do que participando dos experimentos. Engraçado como a política tem o poder de subverter a ordem das ciências... Ressentimento? Ora, não seja tolo, bardo.

***
No princípio, infelizmente, as coisas não correram tão bem. Após vários meses de estudo e experimentação em localidades remotas, os encantamentos mais simples ainda causavam inúmeros efeitos adversos aos praticantes – vômitos, náuseas, ulcerações e queimaduras graves. Tais reveses, ainda assim, eram frequentemente eclipsados pela euforia de cada pequeno progresso. A única coisa que me causava real pesar era assistir ao suplício de minha irmã, cujo corpo sofria mais do que os outros os efeitos da busca obstinada por conhecimento e poder. Mais de uma vez procurei dissuadí-la de prosseguir com aqueles estudos. Nessas ocasiões, ela me retribuía com uma frieza em nada condizente com sua índole habitualmente suave e afetuosa.

Determinado, de qualquer maneira, a aliviar seu sofrimento, comprometi-me intimamente a divisar um modo de prevenir os efeitos deletérios daquela magia, assim como seus usuários ancestrais certamente teriam sido capazes de fazê-lo. Foi então que encontrei, num dos livros, a descrição de certa cerimônia pela qual a proteção de um espírito arcano seria invocada. Parecia, na verdade, mais um conjunto de orações do que um encantamento propriamente dito. Havia cerimônias análogas em cada um dos livros, e isso me encheu de esperança. Divulguei logo o achado aos meus colegas, os quais mostraram disposição para a experiência.

Após alguns dias de preparação, decidimos submeter minha idéia à prova. O ritual em si era surpreendentemente simples, estendendo-se cada um por não mais do um par de horas. A princípio, nenhum efeito se fez notar, exceto talvez um leve incremento na impressão geral de que a minha utilidade para o grupo era no mínimo questionável. Recolhi-me, naquela noite, com pensamentos sobre a transitoriedade das coisas e suspeitando que logo eu haveria de ser detestado por minha família quando Irianna conseguisse finalmente se matar com um daqueles malditos feitiços.

Fui despertado na manhã seguinte por uma forte chuva DENTRO de meu abrigo. Saí apressado, arrastando as pernas pelo líquido que me alcançava os joelhos, e vi minha pequena irmã rindo e brincando com colunas de água altas como torres de catedrais. As colunas se entrelaçavam, projetando-se pelos ares, e explodiam em saraivadas espetaculares que se recompunham em espirais descendentes antes de retornar à forma original. Eu poderia ter aplaudido, se não estivesse tão aterrorizado.

Obviamente, as cerimônias do dia anterior haviam surtido ALGUM efeito. Tive a confirmação disso quando encontramos Ardras meditando serenamente sobre um rochedo que não estivera ali no dia anterior. Fírien, então, havia subsituído o conteúdo de uma lagoa próxima por uma massa borbulhante de magma – e estava nadando nela! Aquilo tudo me deixou tão perturbado que só notei que Grítias estivera ausente quando ele ressurgiu no dia seguinte, acompanhado de cinco ou seis tornados.

***
Retornamos eventualmente à capital do reino, onde fomos recebidos com pompa e honrarias. Eu havia conquistado minha cadeira cativa no Conselho de Arquimagos e meu nome agregou-se ao dos meus irmãos – de fato, superando-os – no rol dos grandes e célebres. Eu deveria estar radiante, mas o que era talvez um pressentimento do que viria a seguir me perturbava o sono. Irianna, Ardras e Fírien foram nomeados embaixadores do reino, sendo frequentemente enviados ao estrangeiro. Imagine o poder de persuasão exercido por alguém que pode derrubar uma montanha sobre a sua cidade ou incinerar acres de terras com o estalar dos dedos. Grítias passou a desempenhar funções diversas – espião e emissário, dentre outras – já que aparentemente conseguia viajar dez vezes mais rapidamente pelos ares do que qualquer um de nós a cavalo.

Transcorreram assim as semanas e, a despeito de todas as honrarias, nunca me sentia tão confortável como quando passava as horas completamente só em meu laboratório. A consciência me ardia e o convívio público nunca fora exatamente uma de minhas paixões. Praticamente não encontrava mais Irianna – ou qualquer um dos demais “colegas”, na verdade. Provavelmente estavam todos ocupados demais coagindo líderes de cidades indefesas no estrangeiro. Isso me incomodava? ALGUMA coisa me incomodava. Que observação infeliz, bardo – é CLARO que os elfos são capazes de compaixão. E pare de me interromper.

***
Certa noite, recebi notícia de que minha irmã retornara de uma ausência particularmente longa. Decidi então visitá-la antes que partisse novamente em nova incumbência. Encontrei os portões de sua mansão abertos e percebi a iluminação em seu interior. Caminhei casualmente pelo jardim, que me pareceu carente de cuidados. Penetrei o interior da residência sem estranhar a ausência de outros habitantes – e já havia quase me esquecido daquele pressentimento ruim, quando ouvi o som abafado de Irianna aos prantos e soluços em seu quarto. Forcei imediatamente a porta, e vi minha irmã pelas costas, encolhida sobre a cama com o rosto entre as mãos. “Não olhe para mim! Saia! Saia agora!”, berrou com a voz carregada de ira, e o ar se tornou subitamente gélido.

Eu nunca ouvira Irianna gritar até então. Ela cobria o rosto, mas notei através dos dedos a cor de sangue e, quando fiz menção de me aproximar, escutei-a murmurar um encantamento. Tive tempo apenas de me atirar para fora do quarto, antes que a porta batesse violentamente, coberta de uma camada branca e esfumaçante de gelo. Em pânico, corri aturdido até a rua. Sem saber como proceder e oprimido por uma sensação ominosa de desastre, apressei-me para ter com Ardras.

Não o encontrei em sua residência, mas fui atendido pela esposa, Celesta. Esta, com os olhos úmidos, revelou-me que há muito Ardras não retornava ao lar – passava todo o tempo livre em seu laboratório subterrâneo, indiferente a ela, aos filhos, aos amigos. E isso era culpa MINHA – ela acrescentou – antes de dar com a porta na minha cara. Restou-me apenas retornar, mais perplexo do que nunca, aos meus aposentos.

Na manhã seguinte voltei a buscar Ardras, disposto a desvendar a todo custo a natureza dos acontecimentos recentes. Não o encontrei em seu laboratório. Ao invés disso, esbarrei em Fírien, que remexia nervosamente uma prateleira de ingredientes mágicos. Quando ele se voltou para mim, quase perdi os sentidos com o que vi. Faltava-lhe o lábio inferior e os dentes arreganhados pareciam congelados num sorriso perpétuo. “-ocê!”, exclamou ele, chiando furiosamente devido à boca arruinada, “Idiota! -ocê -ez isso conosco! Des-aça! DES-AÇA!”. Senti o calor da porta de metal fundindo-se às minhas costas e, percebendo que minha vida dependia do que iria sair da minha boca nos segundos seguintes, procurei ganhar tempo. Expliquei que havia muitos outros livros onde conseguira aqueles e que em algum deles certamente haveria uma cura – o que não era necessariamente uma mentira. Fírien tomou-me pelo braço num aperto calcinante e exclamou secamente, “-amos!”. Foi nesse momento que notei Grítias sentado num canto do aposento, de cenho franzido e completamente alheio à cena.

Igualmente tomado pelo braço, Grítias foi arrastado para fora junto comigo. Uma vez que estávamos sob céu aberto, Fírien voltou-se para o companheiro, “Grítias. Grítias! Nós -amos -iajar agora, nós três entendeu? Olhe -ara –im!”. O olhar vazio de Grítias encontrou o de Fírien e o mago retrucou, vacilante, “Sim, c-claro...”. Houve então um sopro, um rumor distante e, antes que pudesse me dar conta do que estava acontecendo, íamos lançados os três pelos ares. Eu não tinha a menor idéia de como voltaríamos à formação rochosa que era agora o túmulo da minha velha campanha, mas meus temores com relação a isso foram efêmeros. Em questão de um par de horas, Grítias de alguma maneira me devolvia àquela cena desoladora, numa situação nada melhor do que a que motivara minha fuga meses atrás. Os restos do acampamento ainda estavam ali, mas nenhum corpo. O olhar furibundo de Fírien denotava que ele, também, não estava em seu perfeito juízo. No instante em que pronunciei a fórmula para abrir a passagem do rochedo, Fírien projetou-se impetuosamente para dentro do labirinto, rosnando furiosamente e vociferando coisas incompreensíveis. Um calafrio carregado de lembranças percorreu a minha espinha, e tive certeza de que jamais tornaria a vê-lo.

Cambaleei então até Grítias e pousei-lhe a mão sobre o ombro, “Grítias, você deve estar com saudades de casa. Vamos voltar, sim?”. A cabeça do mago balançou e um sorriso demente brotou em seu rosto. “Sim, c-claro. Como quiser, Ardras”, foi a resposta. Que ironia! – Grítias, a mente mais brilhante de nossos dias, reduzido a uma criatura idiota e balbuciante. Sua expressão era ao mesmo tempo triste e confusa, como a de um filhote que foi carregado para muito, muito longe do ninho e abandonado para morrer de fome. Todo o incalculável poder que repousava sob o seu comando... inútil.

Enquanto o animal descerebrado em que Grítias havia se transformado nos conduzia de volta, as palavras de Fírien ainda ecoavam em meus ouvidos – “fez isso conosco”. Subitamente, dei-me conta do que havia transcorrido e sofri intimamente com o impacto dessa revelação!... Assim que tocamos o chão, abandonei Grítias ao vazio de seus devaneios e exilei-me imediatamente do reino onde cresci.

***
Em minha fuga pela região montanhosa que circunda o reino, deparei-me ainda com Ardras (ou teria sido ele quem me encontrou?), pousado serenamente sobre uma rocha. Ele não se interessou em saber o que eu fazia ali, nem tampouco inquiriu sobre o conteúdo do embrulho de couro que eu trazia nos braços. Suas feições pareciam petrificadas numa máscara de plácida indiferença. Disse-me apenas, “Olá, jovem Dírtan”, sem qualquer sentimento, e tornou a fechar os olhos, acrescentando, “Irianna te procura”. Deixei-o ali, fundindo-se à rocha, ao mundo, seja lá o que ele estivesse fazendo, e viagei longe para o norte, sem intenção de jamais retornar.



***

“O que nos traz aqui”, arrematou Dírtan, sorvendo a última gota de vinho da última garrafa. Naquele instante, pareceu-me imensuravelmente cansado.

“Mas o quê sucedeu, afinal? Que tipo de maldição ou infortúnio se abateu sobre os teus companheiros? Não estavam protegidos pelos tais espíritos?”, indaguei, sentindo que a história não havia ainda chegado ao seu fim.

“Prestaste atenção em alguma palavra do que eu disse?”, retrucou indignado o elfo enquanto estapeava a própria testa corada, “O ritual desencadeara alguma forma de hibridismo... progressivo e gradual – era isso que os tornava invulneráveis aos respectivos elementos quando os imensos volumes de cada essência eram conjurados. Efeitos colaterais imprevistos, associados à natureza de cada elemento: Fírien tornou-se um lunático furioso, consumindo a si mesmo num turbilhão incontrolável de fúria; Grítias perdeu a substância das idéias, sua mente foi-se pouco a pouco sendo diluída como uma nuvem ao vento até que nada dela restasse; Ardras teve as emoções extirpadas, abandonando tudo e todos que tivessem qualquer coisa a ver com suas paixões; e Irianna...”

“Ela e Fírien...”

“Sim, eu acredito que eram amantes”, suspirou Dírtan, afundando na cadeira, “Fogo e água, eternamente incompatíveis. Que ironia...”

Verbetes que fazem referência

Crônicas de Tagmar-volume 1

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