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Enquanto isso, nas Terras Selvagens - Parte I Opções
#1 T.REX Enviado : 03/08/16 23:42
Chovia forte naquela região tropical, a água martelava o teto de uma casa de madeira e palha de uma sacerdotisa, próxima ao rio Iniagi. A água caia forte do alto da casa, que explodia no chão. Luame suspirou, olhando pela janela. Mal dava para ver a floresta ao longe, encoberto pela neblina baixa. Não era bem isso que esperava quando chegara na floresta de Eudan, uma floresta que circulava o Domo de Arminus e sua capital Telas - cidade feita em pedra, das casas até as grandes torres e palácios existentes na cidade. Tudo feito do mesmo tipo de material, uma terra considerada como “Terra de Ninguém”, onde nenhuma influência política ou social está definida. O povo local, chamado de Sangar, a avisou da maldição da região, não impondo obstáculos. Mas Luame, recém chegada de Calco, o ignorou dos avisos, para passar um curto período como curandeira, procurando sol e sossego, depois de passar um longo período cansativo em Saravossa. E há dias a chuva não parava. Fora isso tudo ia bem.

Ela gostava do isolamento da região e da cordialidade do povo. Arbroe, um ajudante, era inteligente e bem treinado. E juntos trabalhavam bem.

Mas como chovia! Uma chuva constante, interminável!

Do outro lado do cômodo, Arbroe virou a cabeça.

- Escute – falou.

- Creia em mim, eu escuto – Luame retrucou.

- Falo sério. Ouça.

Só então ela percebeu um outro som misturado à chuva, vários baques na porta. Então ela esticou o pescoço para fora da janela para ver quem batia em sua porta. Dois homens de uma tribo local carregavam um homem – pelos braços e pernas - parecendo estar ferido.

- Eles precisam de você – disse Arbroe.

Luame abriu a porta. Os indivíduos carregaram o homem ferido até ela, enquanto uma terceira pessoa surgiu gritando ordens da raça humana, de cabelos ruivos.

- Temos um curandeiro aqui? – perguntou, quando ela se aproximou.

- Sou a sacerdotisa Luame – respondeu ela. – O ruivo franziu a testa para ela usa uma armadura de couro leve, um escudo preso em suas costas e uma espada embainhada.

- Sou Iergis. Trouxemos um homem muito doente, Sacerdotisa.

- Então é melhor levá-lo para Telas.

- Seria bom, mas não conseguiríamos atravessar a floresta com este tempo. Vai precisar cuidar dele aqui mesmo.

Luame caminhou ao lado do homem ferido enquanto o carregavam para dentro. Parecia ser um moço, quase menino. Dezoito anos no máximo. Erguendo a camisa empapada de sangue ela viu um rasgo ao longo do ombro, e outro na perna.

- O que aconteceu?

- Acidente – Iergis gritou. – Caiu de sua montaria. Um segundo cavalo o atropelou.

O rapaz estava pálido, trêmulo, inconsciente.

Arbroe ficou parado na porta, indicando o caminho. Os homens transportaram o ferido para dentro e o acomodaram no chão, sobre um colchão. Luame acendeu uma lanterna a óleo sobre o rapaz, debruçando-se para examinar os ferimentos. Imediatamente percebeu que o estado do moço era crítico. Morreria com toda certeza.

Uma laceração larga começava no ombro e terminava no peito. No final do ferimento, a carne reduziria a tiras. A primeira impressão de Luame foi de que a perna havia sido rasgada.

- Fale mais sobre o acidente – pediu ao ruivo.

- Eu não vi nada. Disseram que ele caiu do cavalo e um segundo cavalo passou por cima dele.

- Parece até que foi atacado por uma fera – ela comentou, examinando a ferida. Como sacerdotisa, lembrava-se detalhadamente de pacientes que atendera a tempos. Havia tratado de dois casos. No primeiro uma criança de dois anos fora mordida por um cachorro. No outro, um funcionário de um circo embriagado fora atacado por um tigre. Um encontro e tanto. Os dois ferimentos eram similares. As marcas deixadas por animais possuíam um aspecto inconfundível.

- Atacado? Que nada! Impossível, acredite em mim – recusou Iergis, demonstrando nervosismo. Luame ficou intrigada.

- Quer uma limpeza? – Arbroe indagou.

- Sim.

Abaixando-se mais, ela tateou o ferimento com a ponta do dedo. Se um cavalo o atingira, haveria terra na carne. Mas não encontrou nenhuma sujeira, apenas uma espécie de espuma, pegajosa

- Há quanto tempo ocorreu o acidente?

- Cerca de uma hora.

Mais uma vez Iergis demonstrou nervosismo. Estava agitado, ansioso.

Luame concentrou-se nos ferimentos. Não consegui identificar nada mais. As indicações não conferiam. Nenhuma contaminação por terra no local atingido, nenhuma contusão. A pele do paciente fora rasgada – lacerada – no ombro e na coxa.

Na verdade parecia mais uma mordida. Mas o corpo não apresentava arranhões, típicos de um ataque de animal.

Novamente examinou a cabeça, os braços, as mãos...

As mãos.

Sentiu um arrepio ao olhar para as mãos do rapaz. Havia cortes pequenos, rasgos nas palmas.

- Muito bem – disse a Iergis –, espere lá fora.

- Por quê? – ele perguntou. Não gostara da ordem.

- Quer que eu o ajude ou não? – irritou-se Luame, empurrando-o e fechando a porta na cara dele.

- Continuo a limpeza? – hesitou Arbroe.

- Sim. – ela concordou. Parecia mesmo uma mordida. O rapaz gemeu. Os lábios dele moveram-se, a língua enrolada, dizendo algo numa língua em que Luame desconhecia.

Ao ouvir tais palavras, Arbroe gelou, recuando horrorizado.

- O que quer dizer? – Luame perguntou.

Arbroe tremeu a cabeça.

- Não sei. Não é daqui.

- Não sabe? Por favor, prossiga com a limpeza.

- Não posso. Cheiro ruim. – Ele franziu o nariz e fez o sinal de seu deus.

Luame parou nos restos da espuma pegajosa existente no ferimento. Tocou-a, esfregando o material entre os dedos. Assemelhava-se um pouco com a saliva.

Os lábios do rapaz ferido mexeram-se de novo, e novamente voltou a sussurrar.

- O que ele disse? – perguntou Luame.

- Ele o mordeu – respondeu Arbroe aterrorizado.

- Quem o mordeu?

- Aparições noturnas. Raptores.

Luame franziu a testa. Já ouvira falar sobre lendas de aparições noturnas na região que raptavam bebês e crianças pequenas.

Arbroe recuara, fazendo novamente o sinal de seu deus e murmurando:

- Este cheiro não é normal. Foi um Raptor.

Luame estava a ponto de ordenar que seu ajudante voltasse ao trabalho quando o rapaz machucado sentou-se no colchão, com os olhos arregalados. Arbroe gritou apavorado. O jovem ferido gemeu e virou a cabeça, lançando um olhar bem aberto para um lado e para o outro, e em seguida vomitou uma golfada de sangue. Entrou imediatamente em convulsões, o corpo todo vibrando. Luame o agarrou, mas ele pulou do colchão para o piso barroso. Vomitou outra vez. Havia sangue por toda a parte. Iergis abriu a porta, gritando:

- Ei, o que está acontecendo aqui? – Mas quando viu tanto sangue recuou, com as mãos na boca.

Luame pegou um bastão que tinha por perto para colocar entre os dentes do rapaz, mas percebeu que seria inútil. Com um espasmo final ele relaxou e ficou quieto, estendido no chão.

Ela se abaixou para tentar reanimá-lo e pedir ajuda ao seu deus, fechando os olhos. Mas antes de lançar seu encanto de Curas Físicas, Arbroe segurou seu ombro, puxando-a.

- Não. A Aparição vai pegá-la.

- Arbroe, por favor...

- Não. – Ele a encarou alucinado, - Não pode entender estas coisas.

Luame olhou para o corpo no chão. Arbroe chamou os outros homens, que entraram na sala e levaram o corpo embora. Iergis surgiu, limpando a boca com as costas da mçao, resmungando:

- A senhora fez o possível.

Ela observou os homens que levavam o corpo de volta a floresta a dentro, após montarem em seus cavalos.

- Melhor assim – Arbroe comentou.

Luame pensava nas mãos do rapaz. Estavam cobertas de cortes e machucados, um padrão característico de tentativa de defesa. Tinha certeza absoluta de que ele não fora atropelado por um cavalo. Havia sido atacado, e erguera as mãos para se proteger.

- De onde eles vieram?

- Não sei. Espero que não voltem nunca mais.

À noite a chuva finalmente parou. Sozinha num quarto atrás do cômodo onde o rapaz pereceu, Luame folheava livros de Tales muitos manuseados. Arbroe falou em “raptor”, e apesar disso, ela suspeitava que se tratava de uma palavra conhecida na região. E não deu outra, estava no livro. “Sequestrador” ou “raptador”.

Isso a fez pensar. Ela não acreditava em superstições das tribos locais... E os cortes na mão não poderiam ter sido feitos por uma aparição. O que o rapaz tentara dizer a ela?

Luame ouviu gemidos no quarto ao lado. Uma das mulheres da tribo entrara em trabalho de parto, e Aelen – uma parteira local, que nada presenciou a chegada do rapaz atacado, a auxiliava.

Luame chamou Aelen para fora do quarto onde estava por um instante.

- Aelen...

- Sim, minha sacerdotisa?

- Sabe o que é um raptor?

Aelen era uma sessentona grisalha, uma mulher forte, com os pés no chão, pouco dadas a fantasias. Sob o ar da noite ela franziu o cenho e repetiu:

- Raptor?

- Sim. Já ouviu essa palavra?

- Já. Quer dizer... alguém que entra à noite e leva uma criança.

- Um sequestrador?

- Sim.

- Uma Aparição noturna?

A atitude da mulher mudou de imediato.

- Não diga essa palavra, minha sacerdotisa.

- Por que não?

- Não fale em Aparições Noturnas agora – Aelen pediu com firmeza, indicando com o movimento da cabeça a mulher que se preparava para o parto. – Não convém dizer essa palavra.

- Mas um raptor morde e lacera as vítimas?

- Morde e lacera? – Aelen pareceu surpresa. – Claro que não, minha sacerdotisa. Nada disso. Um raptor é um homem que leva um bebê embora. – Ela parecia irritada com a conversa, ansiosa para encerrá-la. Recuou em direção ao quarto para fazer o parto. – Eu aviso quando ela estiver pronta, minha sacerdotisa. Creio que demora uma hora ou duas, talvez.

Luame olhou para as estrelas, e ficou ouvindo o movimento suave das árvores. Na escuridão, procurou identificar as sombras delas. A paisagem era tão normal, tão calma, que se sentiu como tola, por falar em homens sequestradores de bebês. Retornou ao seu quarto, lembrando novamente de que Arbroe insistiria em afirmar que a palavra não era do reino de Tales. Por curiosidade, procurou o termo em um livro de Calco que trouxera em sua viagem, e para sua surpresa encontrou um verbete também ali:

raptor (sequestrador, sequestro, rapto): ave de rapina

Sds. carnívoras,
#2 samuel.azevedo Enviado : 04/08/16 13:18
Muito bom!
#3 Max_Sovat Enviado : 21/08/16 17:36
Um excelente texto! Digno das terras selvagens!
A verdadeira felicidade reside no livro dos sábios, no dorso do cavalo e no seio da mulher amada! - Antigo dito de Cavalaria
#4 T.REX Enviado : 21/08/16 21:15
Dancing
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