"No princípio, na primeira pérola do cordão da existência, havia apenas as cores do caos. Seguindo a infinitude do para sempre, que era aquela primeira esfera, onde as luas contavam-se como todas e como nenhuma”.
Ouvíamos aquelas palavras pela terceira vez, desde a fuga do acampamento bankdi. Os mesmos versos imutáveis, iguais tons de voz e ênfase, que reforçavam todo aquele inferno que estávamos vivendo... Parecia uma ironia poética do destino, ouvir sobre o caos primordial em meio a labaredas e mais labaredas bankdis.
A voz do velho tremeu mais um pouco e parou finalmente. Então o corpo ferido e trespassado por flechas negras caiu sobre meus braços doloridos. Arrastei-o para longe das janelas, onde ele dizia poder ver as multidões de seus fiéis. Pobre e senil criatura!
As setas negras zuniam sem complacência. Varavam as janelas e aterrissavam aos nossos pés. Aldrabar havia percorrido o chão cheio de escombros da torre em busca de projéteis utilizáveis.
— Temo que nossas aljavas não bastem para toda a fuga… — Ele disse.
— Uma massa está vindo do sul! — O grito veio dos andares superiores. O mago Petas, dependurado da janela mais alta, nos alertava. — Os Bankdis convocaram suas legiões de demônios! — Ele saltou com uma respiração curta para aterrissar entre as vagas de escombros e flechas partidas, e continuou:
— A frente está a quinhentos metros, mas os batedores já se encontram bem próximos. — Ergueu o corpo magro e com ele a voz: — Escondei-vos! Um encanto é necessário!
Aldrabar se espremeu ao chão. O rosto fino absorvia a poeira secular. Continuou a afastar o lixo e o entulho. Com isso, encontrava mais flechas e revelava estranhos desenhos no chão.
Mais uma vez, puxei o velho pela manga suja e nos posicionei em proteção. Quando Petas iniciou o encanto, fluidos místicos percorreram o salão, um prenúncio da força que viria. Naquele momento a voz imutável despertou novamente.
“Mas houve o fim da primeira pérola, e com ela, a separação do caos. Formaram-se os reinos superiores e os inferiores e em pouco tempo a sapiência manifestou-se em ambos”.
“As emanações do caos indômito e destruidor, deram origem aos primeiros seres infernais: os príncipes demônios. E oriundos da consciência e emanações das forças da criação nasceram os titãs. Os seres titânicos eram treze, e chamaram a si mesmos de Treva, Luz, Água, Terra, Fogo, Ar, Crônus, Crio, Ânimus, Étere, Maná, Entropia e Gênese”.
O ancião calou-se de repente, no momento em que as forças do encanto de Petas atingiram seu nível máximo. O vento rodopiou pela Torre e lançou poeira sobre nossos olhos sofridos. Urrou profanações e lamentos. Sentimos um frio brusco, quando o encanto partiu em direção aos inimigos. Luzes pálidas cavalgando ossos e fogos-fátuos. Um frio mortal e negro. Provocado pela conjuração da magia…
— …Negra! — Meus olhos atônitos não acreditavam no que eu via. Corri para Petas desesperado. Tentei fazer com que ele desfizesse o encanto profano. — Você usou magia negra! Estamos em uma missão sagrada! Você não tinha o direito! — Bravejei.
Mas, minhas pernas enrijeceram e minha corrida parou. Malditos fazedores de milagres… Petas transformou-me numa “meia estátua”. Eu mal podia respirar. Lá fora o céu escurecera e o ar assobiava palavras malditas. Mais flechas entraram pela janela, cravavam-se nas paredes e exalavam cheiros podres. Veneno bankdi.
— O que está… maldição Petas! A torre está tremendo! — Aldrabar gritou como se tivesse três pulmões. Petas teve que abandonar a posição conjuratória e libertou-me da paralisia.
— Está feito! — Sua voz nunca esteve tão consumida. — Metade dos demônios e hordas foram banidas. Mandei-os para os níveis mais inferiores do Caos Infernal.
— Idiota… — Tentei sem sucesso controlar a raiva ardente. — Sabe que estamos escoltando um homem santo. Quer trazer a ira de seu deus sobre as nossas cabeças? É isso que quer!? Você e essa magia podre?
— Você sabe que não temos escolha! — Sua voz, a face, os pulmões, tudo nele parecia enfraquecido. Um fio de sangue escorreu dos ouvidos do mago. — A Seita Bankdi é muito mais do que pensamos ao aceitar o trabalho. Há! — Ele esfregou as mãos nas têmporas e nas orelhas e ficou um pouco a rir para os dedos vermelhos — Nos disseram: “um pequeno grupo de fanáticos que quer erradicar todas as religiões mais antigas”; “uma meia-dúzia de ignorantes”; “poder nenhum...” — cuspiu para o lado. O sangramento aumentava. — Eu li a mente de um deles quando estava lá no alto, na janela. A Moldânia Superior já não conhece os antigos ritos. Todos os cultos derivados da história antiga foram esquecidos. Malim — apontou para o velho — é um homem santo? Sim; é verdade. O último que ainda vive. O último representante da adoração ancestral. E nós estamos carregando-o por planícies de demônios e venenos. Dominadas por forças incompreensíveis que podem nos esmagar como insetos!
Calou-se nesse ponto e eu também não disse nada. Petas tinha toda a razão. Carregávamos a história do mundo conosco. Um mundo que queria esquecer essa história.
“Depois de pérolas e mais pérolas de infinito horizonte, as mudanças vieram. A descendência dos titãs trouxe os deuses à existência. Estes filhos desejaram unir-se às criaturas dos reinos inferiores. De sua união surgiram os titãs-segundos. Naquela época deu-se a primeira discórdia. Quando deuses e titãs-segundos uniram forças contra os criadores e trouxeram ordem ao universo. Foi o início da Lei”.
O velho Malim falou essas palavras e caiu para o lado, como que adormecido. O ar ficara pesado com suas declarações. Entristecido, pensei em quanta coisa se perderia com a morte daquele homem.
Aldrabar interrompeu minha divagação com gritos alarmados:
— Na janela! Bankdis na janela!
Eles se multiplicaram em instantes. Eram muitos. Surgiam de todos os cantos. As hordas escalavam os muros altos da torre e se arremessavam da janela sobre nós. Minha espada refletiu minha ira e corpos bankdi começaram a ganhar o chão.
— Petas! A janela! Você tem que fechar a janela! — Eu alternava entre inspirações e golpes decepadores. Belador, minha espada, cintilava azul pungente. Excitada enquanto cortava a carne inimiga como se não precisasse de meu braço. Aldrabar refugiou-se com o velho atrás de uma pilastra caída. Retornou todas as setas recolhidas aos seus antigos donos. Seus disparos mortais cortavam o ar sempre encontrando seu alvo.
— Cuidado! — Mas o aviso de Petas chegou tarde demais. Meu corpo foi arrastado pelos ventos destruidores que se formaram. Escombros foram erguidos do chão e iam se chocar contra as janelas. Aldrabar foi quem me segurou. Se não fosse sua mão amiga meu corpo teria se juntado às dezenas que foram arremessados junto com o monturo. Uma barreira formou-se. Vermelha com o sangue, vísceras e membros partidos e sepultados ali para sempre.
O tornado cessou. Ainda foram necessários cinco golpes e duas flechas para que o salão ficasse livre de vida inimiga. Petas cambaleou por entre os corpos até finalmente cair de joelhos. Exausto e pálido.
— A barreira não vai… aguentar muito tempo! — Havia sido muito esforço. Mais sangue jorrou. Seus ouvidos e olhos vertiam o precioso líquido da vida. — Pelos deuses! Precisamos… dar um jeito de sair! Não podemos perecer neste lugar de trevas! — Segurei-o pelo ombro. — Sente-se. Descanse um pouco enquanto averíguo Aldrabar e o velho.
A torre tremeu novamente. Seus fundamentos ameaçavam ruir e nos tragar. Cascalhos caíram do teto e as rochas que bloqueavam a janela desprendiam-se e rolavam pelo piso. Percebi, naquele momento que Petas chorava. Tudo pareceu mais negro e sem esperança.
Aldrabar gritou:
— Um alçapão! — Vi-o revirar os destroços e afastar uma rocha — Maudi! Venha, cá! Tem um alçapão aqui, rapaz!
Atravessei o salão esforçando-me para esquecer o chão trêmulo, o medo incipiente e os cadáveres que pareciam chamar reforços e clamar por vingança. Juntos afastamos pesos, vigas de madeira e outros destroços. A esperança reacendeu nos olhos quando vislumbramos a porta no chão. Petas se aproximou quase a se arrastar.
— Será mesmo… uma saída?
— Não sabemos ainda. — Forcei o grande puxador de metal para cima. — Aldrabar, ajude-me aqui.
Puxamos com todas as forças até quase o corpo estalar. O ferro gemeu e resistiu mais que nossos músculos. Finalmente a vontade e o desespero foram mais fortes e o portal cedeu. Caiu de lado para revelar as entranhas da terra. A partir de poucos degraus que serviam de entrada um túnel rochoso se estendia indefinidamente. Senti a alma congelar no meu corpo. O ar que bafejava o rosto era antigo, milenar, talvez nunca respirado. Arrepios percorreram minha espinha ao pensar em maldições e lugares que não se deve nunca, jamais, profanar. Recuei.
— Não podemos ter medo, Maudi. Não podemos. — Petas passou por mim cambaleante. Venceu os primeiros degraus em direção ao inferno escuro e desconhecido. Aldrabar carregou Malim e repetiu os mesmos passos de coragem.
E eu? Por todos os deuses! Fiz o que tinha que fazer: segui-os.
— Vocês… abaixem as cabeças. — Ouvi quando Petas falou a Aldrabar e Malim. Alcancei o puxador do alçapão com as mãos e o fechei. A única luz que possuíamos se extinguiu.
— Você também, Maudi. Tenha cuidado. — Ele disse. — Vou selar o alçapão com magia e disfarçá-lo o melhor possível. Mas teremos de nos mover depressa. Com esse encanto feito, o das janelas será automaticamente cancelado. É a ordem das malditas coisas.
Encolhi-me junto à parede úmida e repleta de musgo. Refreei vômitos. Petas sussurrou: — Agora. — O alçapão pareceu se amassar sobre nós. — Eles terão que cavar ao redor para nos pegar. Vamos, rápido!
A magia sobre o entulho se desfez. O som das pedras desmoronando chegou até nós. Como um ribombar das piores tempestades. Os gritos animalescos dos demônios encheram o ar e congelaram nossas almas. Éramos puro medo.
Avançamos através das trevas durante mais tempo do que posso lembrar. Malim estava ausente e silencioso. Quando recomeçou a falar o tom foi como se estivesse numa grande praça tranquila.
“Cinco Titãs fugiram para além da Lei e do Caos. Quatro deles deram forma aos reinos elementais de Aqua, Terra, Fogo e Ar. E o quinto, Étere, ocupou o vazio entre eles.
“Outros, em sua tentativa de fuga, uniram-se ao universo material criado pelos deuses. Este foi o destino de Ânimus, Maná, Entropia, Crio e Crônus. Outros dois foram capturados e subjugados: Treva e Luz.
“De Gênese, nada se sabe. Nem verdades, nem lendas.
“Com o fim da guerra, os deuses criaram os reinos materiais. Estabeleceram a lei e a ordem em meio ao caos. Quanto aos titãs-segundos, sabe-se apenas que vagam através das dimensões. Percorrem todas as pérolas dos mundos sem motivo que nos seja permitido saber”.
A terra principiou a cair sobre nós. Como uma chuva barrenta. Bocados caíam aos montes. As criaturas enfiavam suas garras através da terra, na tentativa de nos tirar a vida. Petas parou, fazendo com que ficássemos todos juntos. Uma massa medrosa. Esperançosa de uma morte rápida.
— Meus amigos… a morte se aproxima. — Petas não falava baixo, nem com cuidado. Já não havia necessidade de fugas ou esconderijo. — Não espero que acreditem no que vou dizer, nem que atendam meu pedido. — O teto caía em profusão: rochas, musgo e raízes de árvores de uma terra desconhecida. O medo caminhava cada vez maior. Eu podia sentir a presença do Mal sobre nós. Pelo menos dois milhares de inimigos ansiavam por nossas mortes. Não havia fuga possível.
— Escutem! — Petas falou mais alto.
— Só temos chance na magia antiga. Na magia ancestral que nem mesmo os mais poderosos magos se atrevem a usar. — Meu corpo gelava. Eu tentava cuspir a terra que caía sobre o rosto. Em desespero eu desejava apenas sair dali. Uma morte horrível ficava mais perto a cada respiração.
Eu e Aldrabar fizemos silêncio durante aquele pouco tempo em que tentávamos entender a proposta desesperada de Petas. Era uma concordância. Faríamos o que quer que fosse para nos tirar dali.
— Você será o recipiente do encanto, Maudi. Seu corpo é o único resistente o suficiente para suportar a… magia.
— Eu, não entendo…
— Sairemos todos daqui Aldrabar, mas apenas em espírito. Seremos quatro almas a ocupar o corpo de Maudi. Nossas carcaças serão abandonadas aqui enquanto a magia transportará um único corpo através das dimensões até um lugar seguro. Talvez na sua casa Maudi?
Não respondi. Não poderia. Era um absurdo enorme tudo aquilo. E ao mesmo tempo, aceitaríamos qualquer coisa, qualquer acordo, que nos tirasse dali.
— Sim. — Eu disse por fim.
Aldrabar gemeu. Indeciso entre a loucura do mago e a morte nas garras dos demônios.
— É nossa única chance Aldrabar! — A voz de Petas tremia. — Juntem as mãos! — Ele gritou. Sua voz sobrepondo-se aos urros e escárnios que agora enchiam o túnel ao avançar sobre nós. Olhos ferozes, dentes trincados e garras. Sedentos, cada vez mais perto…
Os demônios precipitaram-se sobre nós no momento das últimas conjurações. O mundo partiu-se. Enxergava em quatro formas, quatro corpos, quatro mentes. Pude sentir quando as garras penetraram nos corpos quase vazios, momentos antes de partirmos. Nossas almas foram transportadas através do corpo daquele a quem chamavam Maudi.
Enquanto escrevia estas linhas era necessário manter-me separado dos outros. As recordações de Maudi revelariam ao meu povo a história oculta. A Verdade que deve, um dia, ser dita.
Já se vão cinquenta anos na esteira do tempo. Meio século desde os acontecimentos que foram narrados nestas folhas amareladas. A seita bankdi já praticamente não existe e as pessoas do mundo material seguem um deus humano. Reverenciável por ser sábio. Mais sábio do que qualquer homem alguma vez já foi. Devo encerrar, por enquanto, esse manuscrito. Retornarei a ele quando outras memórias aflorarem e tiverem, por direito, de ser reveladas. Imortalizadas em papel para um dia poder serem ditas inteiras e em sua total verdade.
Por enquanto, urge que o mundo desfrute da paz que só um homem incomum pôde conquistar.
O homem que é quatro… e UM.
Maudi, Aldrabar, Petas e Malim.
UM.