Eu os observava caminhar entre a vidraria, suas imagens distorcidas em formas excêntricas, enquanto meu velho pai se maravilhava com homúnculos que cresciam em esterco equino, metais derretidos que fluíam como água por tubos transparentes e gelados, e, principalmente, com sua obra-prima: uma enorme espada, feita de metal retirado de uma pedra que pretensamente caíra do céu... ele a chamava “Kronagar”, e a estava modelando com sua Arte para Arlam, o Corvo da Tempestade.
Hoje, sou um anão velho e não segui os passos de meu pai — o gosto por aço em minhas mãos nada tem a ver com metalurgia. Eu treino jovens guerreiros promissores, para que sejam matadores tão bons quanto sempre fui. O neto de Arlam foi meu aluno, Victor Ibendraco, e ele porta a espada mística forjada por Astar e encantada por seu avô. Mas estou tergiversando: o que me trouxe a velha lembrança do mago é que Kronagar partiu-se ... uma batalha digna de ser lembrada, pois quase levou Victor à morte. Ele enterrou sua lâmina mágica no coração ardente de um Senhor do Caos, em uma luta singular, e a lâmina se quebrou. O velho Arlam podia consertar seu neto; o bruxo velho sempre conheceu muitas ervas e um tanto de física; mas era incapaz de reformar Kronagar.
Victor já se recuperava quando, numa noite chuvosa, ele apareceu. A pele ainda curtida pelo sol, seus olhos vivos e radiantes. Arlam o abraçou como um irmão, e ele sorriu: o velho som límpido e jovial. Astar olhou para a lâmina fendida de Kronagar e disse, com muito bom humor — Vocês, povos das montanhas... não souberam cuidar com carinho de minha menina — então, olhou para mim e deu uma piscadela, como costumava fazer quando eu ainda era um garoto curioso que quebrava seus tubos de ensaio e espalhava humores coloridos por seu chão — Acho que sentirei muita falta das habilidades de seu pai, Gilius.
Durante as semanas que se seguiram, pude saber um pouco mais sobre Astar e sua Arte. Acho que ele gostava de falar comigo porque isso o lembrava de meu pai.
— Poucos, muito poucos elementos combinam-se para formar a matéria: fogo, água, terra, ar e éter. Mas temos uma grande diversidade de coisas espalhadas por aí: os pássaros no ar, o metal no ventre de Tagmar, as rochas que arranham o trono de Palier. Como apenas cinco elementos geraram tantas coisas? Essa é uma ciência complexa e maravilhosa, jovem Gilius.
Era estranho ouvir um homem me chamar de jovem, uma vez que enterrei a maior parte de meus amigos humanos, exceto Arlam, que lá tinha seus meios de prolongar sua vida.
— Os deuses conheciam a Arte, e a usavam para criar o mundo e as coisas nele contidas: misturando doses certas, sob certas temperaturas, dos cinco elementos, qualquer coisa poderia ser feita. Um deus, mais que todos os outros, dominava a Arte, e era Parom. Sua suprema habilidade de criar e transformar provocava a inveja de muitos deuses, o grande Palier entre eles.
— Bem, jovem Gilius, rezam nossas lendas que, um dia, do alto de sua Sagrada Oficina, Parom observava os filhos dos deuses, e se compadeceu do homem. Os elfos receberam de Palier a longevidade e a sabedoria; Blator legou aos anões a força e a astúcia, mas o pobre homem nada tinha que o defendesse dos entes da noite. Era mais frágil que os anões e sua vida era um sopro quando comparada a dos elfos... note que os pequeninos ainda não haviam saído de sua forja. Parom e Palier já não se falavam, porque o filho ensinara aos anões as artes menores da metalurgia, da mineralogia e da ourivesaria, e por isso ele não se sentiu culpado em fazer o que fez: ele entregou ao homem a Arte Suprema da Alquimia, o mistério da transformação. De possa dos segredos alquímicos o homem transformou metais vulgares em ouro, prolongou sua vida, criou um fogo capaz de afastar os entes da noite. Mas o segredo não pertencia a todos os homens, não se engane: apenas aqueles que purificassem seus corações nos fornos do laboratório da vida poderiam receber, guardar e transmitir os mistérios da alquimia.
Seu tom de voz assumia uma clara reverência quando me falava disso. Acredito que meu pai, assim como ele, era apaixonado por esta estória, a fábula do bondoso Parom, amigo dos anões e homens.
Mas devo admitir, por mais que me pareça infantil, que é uma bela estória.
As partes de Kronagar jaziam em uma cratera cavada numa grande rocha, onde Astar despejou poções de aparência luminosa. Após uma breve invocação, os líquidos inflamaram-se fortemente, num calor que jamais senti em forja alguma, e a espada desapareceu dentro do caldo sulfuroso.
— Pensei que estava aqui para reforjá-la — eu disse.
— Ela se quebrou porque não era forte o bastante. Tornou-se obsoleta e precisava morrer e renascer. Mais forte. Mais bela. Mais durável.
— Não sente alguma tristeza em ver o fim de seu trabalho, ainda mais um trabalho tão belo?
— Talvez “tristeza” não seja a palavra... eu diria “nostalgia”. Senti nostalgia quando soube da morte de seu pai, meu bom amigo, mas meu coração se alegrou quando o revi. O mesmo se dá com a espada: nada está alheio à transformação.
A espada foi reforjada, para minha surpresa, numa das formas que já fora utilizada pelo meu velho pai. Foi um trabalho belo e primoroso, ao final do qual Arlam aprisionou uma furiosa tempestade na lâmina, a encantando. Mas agora não se chama mais Kronagar, como exigiu Astar.
— Kronagar teve seu tempo e sofreu uma morte digna. Vamos respeitar isso, contemple Fende-Tormentas! — erguendo a espada ao alto.
— O que fará agora, Astar? — perguntei quando a lâmina retornou à bainha, pronta para banhar-se em mais sangue.
— Voltar para casa. Já tive diversão o bastante por aqui, e quero ver que novos brinquedos meus garotos inventaram em minha ausência.
E com a velha piscadela, Astar, o alquimista, despediu-se de mim e desapareceu na escuridão da noite, certamente voltando para o calor morno e confortável de seus caldeirões e para a companhia de seus tão amados destilados.
O domínio completo sobre a transformação é a busca do Colégio Alquímico.
Além de Ignia, as mais importantes filiais ficam em Talco (Âmiem), Saravossa (Calco) e Telas, onde fica o Palácio dos Mestres da Alquimia, segundo maior centro de pesquisa alquímica do mundo conhecido. Um destaque importante é para a filial de Âmiem, que possui um relacionamento com o Alto Concelho élfico e a Ordem dos Runcains.
É claro que, quando a morte chega, é recebida como uma transformação saudável, o descartar do obsoleto e irrecuperável para o surgimento do novo: melhor e mais eficiente, purificado das mazelas que o velho corpo trazia.
Ironicamente, como ocorre com os necromantes, este colégio apresenta um forte predomínio de humanos frente às outras raças. Talvez por terem uma vida tão curta, quando comparada à expectativa élfica, os humanos estejam mais inclinados a abraçar os ideais de mudança do colégio, e sem qualquer dúvida, são os mais beneficiados pelas descobertas que prolongam o tempo natural de vida.
Alguns mundanos e muitos magos ignorantes ou mal-intencionados, confundem os métodos e a busca dos alquímicos por prolongamento da forma (e da vida) com uma vontade de imortalidade física que algumas vezes encontra expressão no vampirismo ou em formas ainda mais aberrantes, como o necroarcanismo, por exemplo. Esse é um engano lamentável, uma vez que estes magos veem a morte como um processo alquímico como todos os outros, jamais se negando a participar dele quando seus corpos não apresentam mais meios de manutenção.
“Todas as coisas se vão, e tudo retorna do eterno caldeirão universal”, dizem os alquimistas.
Uma vez reconhecido Alquimestre, o mago recebe o anel de rubi que o identifica como tal e engasta no mesmo, misticamente, seu nome em alfabeto rúnico. O nome brilha quando pronunciado pelo dono do anel, e apenas por ele, e essa é uma forma até o momento infalível de evitar farsantes, mesmo que magicamente disfarçados.
A única organização formal dos alquímicos é a que diz respeito ao governo e manutenção de Igna, que fica nas mãos do Alquimestre-Mor. Diferentes do que ocorre na maioria dos Colégios, o cargo é eletivo, com mandato de sete anos, sendo possível a reeleição, sem limite de mandatos. Apenas Alquimestres podem candidatar-se, embora qualquer membro do Colégio que esteja em Igna quando da eleição pode votar.
Após um longo afastamento das questões políticas do Colégio, “vagando um pouco por este belo mundo”, como costuma dizer, Astar retornou a Igna e foi eleito Alquimestre-Mor mais uma vez, trazendo um sopro de novos conhecimentos e avanços metodológicos ao seu velho lar. Entre seus conselheiros se encontram muitos magos que se opuseram à sua eleição, mas de inconfundível talento mágico. Rivais políticos e mesmo pessoais foram unidos novamente sob a liderança do carismático Astar, que muitos dizem encarnar o próprio espírito do Colégio Alquímico.
Abaixo do Alquimestre-Mor, mas ocupando posições de liderança no Colégio, estão:
Crestomatus, o mestre de pesquisa: mesmo apoiando o candidato derrotado, Crestomatus foi chamado por Astar para presidir as pesquisas laboratoriais do Colégio em função de seu comportamento metódico e sua inegável inclinação para pesquisa acadêmica. Nutre uma certa antipatia pelo jeito extrovertido e às vezes imprevisível de Astar, mas jamais negou que sob sua liderança o Colégio sempre prosperou;
Alana, mestra de neófitos: amiga pessoal de longa data de Astar, esta meio-elfa sempre dedicou-se a causa do ensino, ainda quando não era responsável pessoal pelas funções de educação dos magos admitidos ao Colégio. Contrastando com o comportamento irrequieto do Alquimestre-mor, esta maga é conhecida por seu temperamento calmo e contido.
Daniel, o ecônomus: um “ecônomus” é na prática o administrador dos recursos de Igna, uma função de grande responsabilidade. Este elfo dourado vive por longos anos sobre a lava incandescente do Forja, e é conhecido pela sua dedicação ao Colégio, onde ocupou diferentes postos em diferentes gestões, jamais se interessando, contudo, pelo cargo de Alquimestre-Mor.
Marcos Calisto É o mago diretor do Colégio Alquímico existente em Âmiem e é uma pessoa cuja idade ninguém ao certo sabe, (com certeza, um ancião local), é um dos membros do Alto Conselho Élfico, chegando à Âmiem tempos após as primeiras levas de viajantes, impressionado com os relatos sobre este rico território.
Convenção de Alquimistas: existem rumores que a cada sete anos uma grande Convenção de Alquimistas é celebrada em Igna. Para esse evento vêm magos alquimistas e de outros colégios de todos os Reinos! E, segundo os boatos, até mesmo do Império, Ilhas Independentes, e mais além, até mesmo outros mundos e planos, é o que dizem. Em tal feira é possível encontrar os mais diversos ingredientes mágicos e até coisas ainda mais raras, e perigosas.
Assassinato e Roubo em Ignia: recentemente um velho alquimista que passou muitos anos enclausurado em sua torre esteve em Igna. Ele exigia uma audiência pessoal com o Alquimestre-Mor, infelizmente, o velho foi encontrado morto em seus aposentos. O jovem pupilo desse alquimista, encontrado moribundo na cena do crime, conseguiu revelar apenas que o grimório de magias do seu senhor fora roubado.
Calabouço secreto: conta-se que na filial do colégio em Âmiem há um calabouço secreto que abrigaria a mais vasta coleção de itens encantados do Mundo. Objetos e pergaminhos mágicos de raro poder, alguns que nem mesmo se sabe a utilidade, outros ainda que talvez sejam do Segundo Ciclo. Cada vez mais objetos são adquiridos e guardados nesse. No entanto, há boatos que certos itens tem desaparecido.
Exército de Animados Metálicos: um dos monarcas dos Reinos teria encomendado secretamente ao colégio Alquímico a construção de um exército de Animados Metálicos, alguns rumores dão conta de milhares de armaduras animadas prontas para a guerra que estão sendo movimentados sorrateiramente em pequenos grupos de três ou quatro indivíduos. Qual monarca, está por trás desse esquema e quem gerenciou a construção dessa armada, se é que ela existe, permanece em total obscuridade. Embora o nome de Marcos Calisto, Alquimestre-Mor do Colégio Alquímico de Âmien, já tenha sido sussurrado mais de uma vez.