- Seja bem vinda ao castelo do deus da Justiça, jovem deusa da Fúria.
O sangue da deusa que ainda não havia esfriado, por causa da batalha que acabara de travar, ferveu frente à jocosa menção de “jovem deusa”. E reconhecendo finalmente a voz de seu oculto interlocutor como sendo a do deus da Paz, replicou ainda mais ironicamente:
- Se eu soubesse que meu irmão estava recebendo visitas tão veneráveis eu não teria vindo.
Percebendo o clima que ia se formando em seu castelo e conhecendo bem o humor de sua irmã, Crizagom, que vinha a encontro de Selimom, e pôde ouvir o interlúdio, entrou na conversa valendo-se de toda a autoridade da sua voz:
- Salve querida irmã! Que o vento seja louvado por tê-la trazido a minha morada e que a paz seja mantida em meus corredores!
- Acalma-te nobre anfitrião, estamos apenas a conversar e nem mesmo a fúria pode subjugar a paz; entremos, pois, em estado de trégua e que nossos dias aqui sejam benditos… - Disse Selimom.
Crizagom aparentemente alcançou seu intento ao intrometer-se na conversa, mas nem ele poderia imaginar o que sucederia do encontro de dois temperamentos tão adversos, tão pouco imaginou que esse diálogo continuaria mais tarde nos aposentos íntimos emprestados a Selimom, de uma forma não menos agressiva, mas nem tão mortal...
Onde houver desordem, haverá àqueles que desejam a ordem. Mas, antes de impor a ordem, é necessário extinguir o caos. Esta é Crezir, que representa a ordem a todo custo.
Assim, não há demônio que não tema lutar contra Crezir individualmente. Temem mais que lutar contra seu pai Blator ou seu irmão Crizagom. E, mesmo atacando em grupo, o resultado será pilhas de carcaças de demônios.
Na guerra contra os titãs, derrotou Fogo com as mãos nuas, chegando a arrancar um de seus membros, tamanha a fúria da deusa.
Ela é o terceiro elo da tríade dos deuses da guerra, composta também por Blator e Crizagom. Mas, diferente dos outros dois deuses, para Crezir a guerra consiste no meio pelo qual se faz a destruição de tudo o que é imperfeito e caótico para que a perfeição e a ordem, um dia, se estabeleçam.
Defensora ferrenha da ordem, Crezir não quer simplesmente expulsar o caos de Tagmar. Sua doutrina consiste no uso do próprio caos para suprimi-lo, da mesma forma que se usa o fogo para matar ervas daninhas, assim também, deve-se eliminar os frutos que poderão se desenvolver a partir de alguma semente deixada e somente depois extinguir o fogo. A destruição é necessária para a reconstrução, ela parte de dentro do caos para eliminá-lo.
A fúria vem da contradição em ter que se inserir dentro do caos para destruí-lo. Ao mesmo tempo em que se abomina o caos, está-se imerso nele.
O prazer na luta vem com o deslumbre da ordem em meio ao caos. Seus movimentos, seus desejos e sua intenção coordenados, essa é a expressão da ordem na luta, a ansiedade os gritos e a raiva essas são as expressões do caos.
Mas tal como o fogo, que tende a perder o controle e não faz distinção entre as ervas ruins ou boas enquanto queima, assim são os efeitos incontroláveis de uma guerra. Mesmo assim, não há tristeza ou arrependimento na batalha, a vitória da ordem sobre o caos, dos filhos de Crezir sobre seus inimigos, sempre será motivo de regozijo. Inclusive para aqueles que se foram durante a tempestade.
Além disso, Crezir tem um caráter oculto nos tempos atuais de Tagmar, que a torna mais abrangente, mas nem por isso menos contraditória. Caráter este que vem de seu próprio temperamento. Ela é vista como uma deusa do impulso pela vida. Assim, Crezir representa a força, o instinto de sobrevivência diante da morte e do perigo.
Deste modo, ela apresenta um caráter igualmente selvagem, ela é vida diante da morte. Muitos são os casos de superação diante do perigo de morte. Ela é este empuxo irracional que supera o obstáculo, quebra barreiras e vence batalhas. Desta forma, ela não pode ser quantificada nem racionalizada, mas direcionada para um fim.
Inicialmente, sua maior influência vinha das grandes arenas de gladiadores espalhadas pelo continente. Como grande representação da luta pela sobrevivência, estes guerreiros cultuavam a deusa e ofereciam a ela suas vitórias.
Entretanto, o culto a Crezir vem ganhando força nas últimas décadas, quase sobrepondo a fé em Blator, e hoje Crezir começa a impor seu espaço dentre os deuses da guerra. O reino de Verrogar é um grande exemplo dessa verdade, um povo que desde sua origem detinha quase que toda sua devoção bélica em Blator, agora começa a adorar a deusa da fúria cada vez com mais fervor, fato que começa a preocupar o clero do deus das guerras. Dantsem, que adora os deuses da guerra, passa também a sofrer influência da deusa, apesar de Blator ainda ser mais popular por essas paragens.
Apesar de Levânia ser conhecida por sua adoração a Blator, este reino está se tornando um campo fértil para a deusa. De uma forma geral, os reinos mais belicosos são os grandes alvos para as manifestações de fé à deusa.
Cabe ressaltar que, sempre que se observa a eclosão intensa de conflitos armados, nota-se um surgimento com maior intensidade do número de seguidores de Crezir, muitos deles provenientes de fiéis convertidos de Blator e Crizagom.
Selimom conquistou Crezir ao ser tolerante, solícito e amável, mesmo nas situações mais adversas. Também é claro que não foi somente isso, mas de qualquer forma, o deus da paz e do amor, conquistou a deusa guerreira. Desta relação nasceram dois deuses: Lena e Plandis, seus filhos amados.
Ela não demonstra respeito a ninguém, com exceção de seu irmão Crizagom a quem ela ouve, mas já se convenceu que os dois escolheram visões diferentes de como atuar em Tagmar.
Por seu pai Blator, um misto de indignação e admiração. Entende a sua força, mas não concorda com seu ponto de vista e a aparente apatia frente à guerra.
Seu maior desafeto é Palier a quem considera um arrogante. Crezir não admite a ideia de se usar magias em batalhas, acredita que tal ação faz com que se perca o prazer de uma luta, a excitação do choque entre as espadas.
Para a Deusa, Parom é calado demais e, por sua vez, Cambu é falante demais. Com Maira, tem uma relação difícil, apesar de se respeitarem. Maira não entende a necessidade da destruição imposta por Crezir, e isso acaba gerando discordância.
Crezir acredita que, no fundo, tenha algo em comum com Ganis e que Cruine seja o elo que completa o ciclo da destruição, mesmo que ele ache que ela exagera.
Essa celebração demonstra a mais íntima natureza dos devotos de Crezir que acreditam serem feitos de uma liga superior a dos demais seres, como se fossem o mais fino aço de uma espada nas mãos de um ferreiro divino. Esses fanáticos se submetem a uma pesadíssima purificação pelo fogo. As provas vão das mais simples às mais inimagináveis: dançar em volta de enormes fogueiras, saltar sobre o fogo, caminhar sobre brasas, segurar pedras incandescentes, mergulhar o corpo em água quase fervente, etc… O Batismo de Fogo acontece normalmente a cada passagem de estação e normalmente sob o augúrio da lua cheia. Essa celebração bárbara muito comum nas terras mais selvagens do sul, tem ganhado força em alguns outros reinos que passaram a cultuar a deusa nos últimos tempos, especialmente Verrogar. De forma inexplicável, pelo menos por meios mortais, tais cerimônias costumam deixar marcas ou cicatrizes pequenas, quase insignificantes para a magnitude dos ferimentos causados no ritual. Aqueles poucos em que as cicatrizes tornam-se muito evidentes são vistos com desconfiança pelos outros fiéis, como se o batismo não tivesse sido executado satisfatoriamente.
Essa celebração tem origens nas tribos selvagens do extremo sul de Tagmar e consiste de uma grande disputa pelo privilégio de ter em sua vida o que consideram o equivalente ao amor da deusa. A festividade consiste em uma grande cerimônia onde os campeões e campeãs da deusa, em regiões separadas, colocam-se como voluntários para as provas que decidirão qual deles é digno de celebrar o amor de Crezir.
As disputas são as mais variadas e são sempre definidas por um conselho clerical presidido pelo Sumo Sacerdote, ou pelo sacerdote de mais alto posto da região.
As provas físicas e mentais mais diversas acontecem para que, no fim, sobrem apenas dois guerreiros e duas guerreiras. Cada dupla de mesmo sexo disputará na forma de duelo, até que um subjugue o outro, é importante salientar que o combate não precisa necessariamente terminar em morte. Na verdade, isso é até evitado pelos sacerdotes quando os ânimos se exaltam, mesmo que os guerreiros por orgulho tenham decidido lutar até a morte. É importante salientar que os duelos não conduzem a destruição do caos, e a morte desta forma não é bem vista pela Deusa.
Os vencedores de ambos os lados ficarão isolados se recuperando por dois dias quando se encontrarão e se empenharão em uma nova batalha, onde somente o Sumo sacerdote ou o sacerdote de mais alto posto pode assistir impedido de revelar a quem se destinou a vitória. O vencedor ou vencedora poderá escolher se unir ou não ao perdedor. Os guerreiros e guerreiras de Crezir acreditam que se seu oponente pôde lhe oferecer uma batalha prazerosa, seu amor será de mesma intensidade, tal qual deve ser o amor da deusa.
Desta maneira, é reservado uma tenda com todo tipo de comida e honras para o novo casal mais poderoso da região desfrutar de uma semana a sós. Desnecessário dizer que o casal vitorioso desse ritual é coberto de reconhecimento perante os seus e que a deusa costuma abençoar essa união com uma nova vida.
Assim como a deusa, seus sacerdotes e seguidores entendem a necessidade da destruição daquilo que consideram o fruto do caos. A maioria toma como máxima que os fins justificam os meios. Vários são belicosos e pouco tolerantes com aquilo que causa repulsa e escândalo à deusa.
O maior dos prazeres de seus seguidores é quando lutam e vencem alguém de força igual ou maior a sua, comemorando com orgulho e festas. Tal como os camundongos, quando acuados atacam, são os seguidores de Crezir quando encurralados. Aliás, para eles, considerar um não seguidor de Crezir mais forte ou igual, seja amigo ou inimigo, é ao mesmo tempo honrar e rivalizar com ele.
Obviamente, também existem lutas contra adversários mais fracos, mas a luta torna-se sem sentido se não for para vingar a ordem e expelir o caos, contra o qual são impiedosos. Um Sacerdote ou seguidor de Crizagom jamais destruiria uma aldeia inimiga que oferecesse rendição; um Sacerdote ou seguidor de Blator decidiria o que seria mais acertado estrategicamente; mas um Sacerdote ou seguidor de Crezir é capaz de não deixar pedra sobre pedra. Isso depende mais do ímpeto do seguidor do que do pedido ou não de rendição. Dependendo da repulsa que este tiver sobre a vítima de sua fúria, não há hesitação: o caos deve ser destruído.
As doutrinas religiosas de Crezir apregoam que as batalhas devem ser lutadas com fúria e foco. Não existe a possibilidade de rendição: é vitória ou morte. No entanto, um seguidor de Crezir avaliará bem antes de entrar em batalha, pois uma vez nela não há volta. O recuo estratégico e a fuga, embora esta última seja um sinal de fraqueza e vergonha, são tolerados, porém a rendição é vista como perdição. Nunca se deve render frente aos arautos do caos. Além disso, os fiéis que se revelam traidores e covardes caem em desgraça e vergonha profunda sendo passíveis de perseguição.
Uma das ocasiões paradoxais é quando no impulso da defesa de sua vida, os inimigos demonstram a face de Crezir em batalha. Os adoradores da deusa se entusiasmam com este fato e passam a respeitar o inimigo.
É importante destacar que, entre os que se consideram seguidores de Crezir, existem aqueles que sentem prazer na crueldade da batalha e não na batalha em si. Buscam o banho de sangue ao invés da destruição do caos. Não são indiferentes aos corpos caídos, pelo contrário sentem prazer ao pisoteá-los. Não entendem o sangue como a expressão da fúria diante do caos, mas se sentem no meio de um banho doce. Preferem a agonia de torturar ao frenesi de combater.
Estes, na sua maioria, se não corrompidos pelos demônios, são covardes que usam a doutrina da deusa para abusar de seu poder. Certamente sua máscara cairá em um determinado momento e, nesse instante, eles conhecerão a verdadeira fúria de Crezir. Para estes que sujam o nome da deusa, não há piedade.
Em tempos de paz, que certamente não durará muito até que todo caos for extirpado de Tagmar, os seguidores de Crezir se dedicam aos prazeres dos duelos e da caça. Esta é uma maneira saudável de manter os sentidos afiados para a batalha que certamente se aproxima. Mas, e repete-se o que já foi escrito, os duelos não conduzem a destruição do caos e a morte desta forma não é bem vista pela deusa.
Reza a lenda que no Ninho dos Dragões há uma força militar que, incitada pela deusa, seria capaz de devastar qualquer exército do mundo conhecido, deixando atrás de si apenas rastros de sangue e destruição.
Os altares dos templos de Crezir, onde costumam ocorrer cerimônias de sacrifício à deusa, são também locais sagrados, não podendo ser pisados por qualquer mortal. Apenas sacerdotes e pessoas devidamente relacionadas com o culto são autorizadas a pisar nesses altares. Qualquer pessoa fora dessas condições que cometa o sacrilégio de pisar o altar pode sofrer graves consequências.