CAPÍTULO 12
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CAPÍTULO 12 .




Elril parou. Deixou a espada cair das mãos e permitiu respirar profundamente.

Figvel e o guarda aproximaram e a princesa Elira afastou-se do corpo de Elmer, caído inerte ao chão.

O local, á céu aberto, derramava os raios do sol sob dois corpos sem vida ao chão, dividindo o canto com flores perfumosas. A fonte continuava a jorrar água, como se nada tivesse acontecido. Gotas caiam na face de Elmer, seu dono sem reclamar. O momento era de silêncio.

Quando Elril viu o corpo de Servilis no chão, soluço antecedente a lagrima invadiu a frágil emoção do jovem. O homem que sempre ensinara a bondade e generosidade estava morto, uma poça de sangue cobrindo seu manto outrora branco. Seus olhos foram em direção a uma pessoa que jamais pensou ser tão próximo. A princesa Elira estava em pé, de costas para Elril. Ainda podias-se ver como era jovem, bonita. Uma verdadeira rainha.

Foi Figvel quem quebrou o silêncio banhado pelo sol.

— Elira... você esta bem?

Elira voltou-se para o homem que há muito tempo reconfortara-a em seus braços. Viu que este estava com os olhos inchado, havia de ter chorados nos dias que passou no calabouço sem que ela pudesse ajudá-lo.

— Estou. Se não tivesse chegado... . Permitiu um choro de criança, um leve sorriso de contentamento.

— Não permitiríamos, que nada acontecesse com você, Elira. Elril falou, tomando para se a atenção da princesa.

Figvel e o guarda que estavam ali olharam para Elril, desejando que ele nada dissesse. A princesa Elira caminhou em direção a Elril, e este tremeu próximo a mãe, sem que essa soubesse.

— Diga, Elril de Selimom, que este homem é inocente e será recompensado. Elira apontou para o maltratado Figvel apoiado no guarda. O guarda deixou que Figvel ficasse em pé por se mesmo.

Elril ponderou sob o que ia dizer. Esperara tanto por um momento de conhecer seus pais, e agora que chegara deveria abandonar. Mas, agradecendo ao Deus Selimom, disse:

— Minha princesa, este homem é inocente de todo mal que julgaram ter. Só encontro bondade em seus olhos e verdade em suas palavras. Elril olhou profundamente Elira, seu coração querendo revelar seu segredo.

— Elira, doce Elira. Devo partir hoje mesmo. Disse Figvel em suas ultimas palavras.



***



A cena que se seguia era escondido do sol por uma grande nuvem. O barulho da água na fonte poderia ser ouvida a quilômetros de distancia. Nem o perfume das flores trouxe os sentidos de Elril para perto de se.

Nesse dia em que fora escolhido para julgar um mago, descobrira que o homem era seu pai e a princesa Elira, que tanto o encantara, sua mãe. Mas nada podia dizer.

O sangue percorria-lhe as veias com sabor de estase, inflamando a carne de desejo aventureiro. Seu coração foi acorrentada pelo pensamento, única barreira que separava “um adeus há princesa Elira” de “um abraço a mãe adorada”. O pensamento tornou-se seu flagelo, a arma usada para aprisionar o coração.

Quando, já tarde, a guarda do castelo chegou, encontrou a princesa Elira sentada no corredor. Sua roupa manchada de sangue. Dois corpos estavam próximos, e a forma brutal como morreram explicita para os apreciadores.

O guarda, que seguiu Figvel e Elril ate aqui, levantava o corpo do assassino Elmer, colocando-o próximo ao de Servilis.

O sacerdote, pela idade e potencia do veneno, não resistira a infecção. Sofreu mais do que queria durante o pouco de vida que lhe restava, levando consigo o segredo de Elira.

Elira libertou Figvel antes que a guarda chegasse, e abençoou Elril, seu filho sem que soubesse, pela honra em ter cumprido o que mandaram. O guarda do calabouço prometera nada dizer e permanecera ao lado de Elira para que desse jura verdadeira ao que aconteceu no pequeno jardim do Castelo das Brumas.



***



Na manhã do outro dia, dois homens preparavam-se para partir. Mochilas de viagem encontravam-se arrumadas em cima de cavalos, um para cada, frente a um Templo fechado na cidade abaixo do castelo.

O velho Figvel segurava os arreios de seu cavalo na mão esquerda. Estava vestido de preto, roupa que passaria a ser tradicional a partir desse dia. Um marco de luto pela morte de seu filho. Sua face demonstrava felicidade, embora sofresse com a perda de duas pessoas que amava. Mas o pensamento de reconstruir sua vida ao lado do filho que encontrara, fazia olhar para o futuro como um jovem abraçando sua primeira namorada.

Estava parado em frente a um Templo de Selimom na cidade. O Templo, visto de fora, era grandioso. Vinte metros de pedra elevavam-se do chão, formando as paredes do Templo. No centro, uma gradeada porta de ferro reforçado servia de entrada. De cada lado da porta, duas enormes estatuas de mármore escoltavam os visitantes. Todas duas eram de Selimom.

Figvel esperava, pacientemente, à volta de seu filho, Elril. Ele agora era o pai mago de um filho sacerdote.

Sus lhos esquadrinharam uma única pessoa sair do templo. Era, finalmente, Elril.

Elril vestia calça branca e um colete azul de lã. As mangas sobravam, mas era digno de se vestir. Segurava nas mãos uma mochila de couro, contendo seus pertences mais pessoais, dentre eles, seu anel de jade com um cão entalhado. Olhou fixamente para o local que foi sua moradia durante 20 verões. Lembrou-se dos amigos que fizera, e dera um sorriso quando se recordou da aula de Historia da Guerra, seu velho professor e todos os amigos clérigos longe daqui. Pois Elril era, nesse momento, o único clérigo de Selimom que não estava no Castelo das Brumas, onde um funeral era realizado.

Deu seu adeus para as pedras e enxugou as lagrimas, agradecendo as estatuas de Selimom pela generosidade de seu Deus em ter ajudado. Caminhou rumo os cavalos, onde seu pai o aguardava.

— Estou pronto, pai. Um sorriso encerrado na ultima palavra.

— Então vamos, meu filho. O destino agora é nosso. Figvel respondeu ao filho que amaria pelo resto da vida.

Partiram pela rua larga, esmaltada de paralelepípedos brancos, aberta em ambas direções. Não ouve lagrimas nem adeus para conhecidos, não ouve perguntas ou quem visse pai e filho saindo da cidade. Todos estavam no funeral do abençoado Rei Jorge I, do nobre Lorde Avriom de Calinior, de Servilis, Mestre do Templo e de Elmer, O assassino, este ultimo enterrado longe do solo real e somente com quatro “amigos” seu.



***



No Castelo das Brumas havia uma área reservada que nem um rei gostaria de ir. Era mantido discreto, sempre limpo e florido. Ficava escondido logo atrás do jardim-labirinto e entornado por laranjeiras e macieiras. Todo o chão era de uma grama bem verde, bem tratada e circulada por estradinhas de flores. Grandes gira-sois inundavam o mar verde com rajadas de amarelo, sempre girando e girando conforme o sol andasse.

Nessa manhã, havia gente de toda parte. Os grandes portões principais do castelo fora aberto e todo povo veio despedir-se de seu rei. Nobres cercados por guardas prestavam condolências, mulheres derramavam suas lagrimas, guardas mantinham-se firmes.

O local era o cemitério, a terra que guardava os corpos de seus governantes. Árvores floridas, pois era primavera, tiveram seus caules pintados de branco, em honra ao rei Jorge I, que descia vagamente para a cova de seu fim. Pequenas ondulações no terreno mostravam quantos mais já compartilharam esse momento. Seriam amigos na espera do firmamento do novo mundo.

A princesa Elira estava próximo ao seu marido, o príncipe Jorge II, que logo torna-se-i-a rei de Dantsem. Estavam de pretos, um luto formal para os memoráveis entes queridos.

Um sacerdote, velho e gordo, com franjas cinzas caindo aos olhos, cruzava o sofrimento de Jorge II com frase simbolista em tais momentos. Lembrava da generosidade e boas intenções do rei Jorge I e de Lorde Avriom. Encantava, de tal forma, o ar na manhã dedicada ao enterro da família Jorge.

Como que para abençoar as palavras do sacerdote, uma chuva fina, tão fina que nem garoa seria, caiu sob o solo do cemitério. As pessoas, que só estavam por ser o rei, espalhava-se rumo a saída, deixando menos gente compartilhando o sofrimento do futuro rei e da futura rainha.

O sacerdote já havia parado com sua ladainha, os guardas retiraram-se quando Elira mandou. As gotas d’água continuavam a rolar céu abaixo.

Parado, frente ao tumulo onde seu pai estava enterrado e seu filho logo ao lado, o príncipe Jorge derramou as ultimas lagrimas que seu corpo guardara. Só restavam ele, Elira e a dor da perda.

Se por vontade de Selimom, o Deus que mais atuou nesses dias, ou pedido de Elira, Jorge II não soube. Mas, naquele momento, um musica vibrou no jardim-labirinto.

Era doce, suave, apenas uma corda sendo tinida por uma vareta. A melodia reconfortava coração, tocava no âmago da alma. O choro vinha, vinha, como se por encanto do instrumento místico. Os ouvidos permitiam que as letras, os toques, os do, re, me, fá, só, lá e se, encontrassem emoções novas e que deixassem a dor para depois.

Ao toque sublime da melodia, a princesa Elira deixou seu marido dar as ultimas palavras ao pai, filho e amigo.

Jorge II jamais soube a verdade da morte do pai

A musica continuava, a chuva caia e, no soprar do vento vindo da costa, folhas laranjas dançavam sob o céu azul do reino de Dantsem.

O príncipe Jorge II derrubou a ultima flor a ser jogada no tumulo: um botão-de-fada.

EPÍLOGO
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