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Canção dos sapos .  

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Por Renato de Holanda Cavalcanti


Durante os meus dezessete anos, a minha vida nunca foi fácil. Desde que cheguei à cidade de Tanus, no reino de Portis, sempre tive o sonho de ser uma grande maga. Minha mãe sempre dizia que as cidades são um antro de perdição e ela procurava mostrar as vantagens de ser uma fazendeira. Coisa que sempre repudiei, pois não queria ser uma catadora de milho e parideira de filhos como as minhas irmãs.

Queria ter um destino diferente.

E os Deuses atenderam as minhas preces.

Com toda a coragem do mundo, resolvi tentar a sorte na cidade dita acima e aprender tudo sobre os Arcanos Secretos, que os meus primos contavam para gente quando criança. Eles diziam coisas fantásticas sobre heróis e heroínas que vagavam sobre os reinos atrás de aventuras ou de justiça. Homens e mulheres que faziam os seus próprios destinos.

Eu queria ser como eles.

Quando cheguei na cidade de Tanus, tive a excelente idéia de me empregar numa daquelas famosas tavernas onde se reuniam os heróis que sempre ouvira dos meus primos.

Nunca tive uma mudança tão rápida de opinião.

Ao contrário do que imaginava, os guerreiros, em sua maioria, eram mercenários, não heróis, e me viam não como uma fã, mas sim como alguém para noites de luxúria. Sempre que servia suas bebidas, algum engraçadinho nojento alisava as minhas pernas ou o meu traseiro. Procurei tentar fazer amizade com alguma daquelas mulheres mercenárias que apareciam. Porém, apesar de serem polidas, elas me viam como uma rival em potencial e procuravam me desmotivar. Teve uma que disse que eu teria mais sucesso como meretriz do que sendo aventureira. Afinal, dizia ela, que eu era bonita de corpo, quadris largos, boa para amar e não para lutar.

Eu a odiei por isto.

Até que um dia, um arcano de idade muito avançada apareceu e se propôs a me ensinar magia. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Pela primeira vez, a sorte sorriu para mim.

Ledo engano.

Quase um ano se passou. Uma noite ele veio me falar que eu não estava me esforçando o bastante e disse que era necessário que eu me “entregasse de corpo e alma” a seus ensinamentos. Ele então disse que era necessário “dar” mais de mim. Mas eu dei para ele. Dei uma bofetada naquele velho safado e voltei para a taverna. O pior é que em um ano aprendi apenas uma magia inútil.

O local do meu trabalho não era diferente da fazenda, fazia um pouco de tudo. Preparava a comida, vigiava o local aonde se fazia àquela bebida, limpava o salão e as latrinas, alimentava as vacas com os restos dos legumes que vinham das fazendas próximas. Apesar do trabalho duro, eu tinha um privilégio, um quarto só para mim. Muito estranho, pois o dono da taverna dormia com a esposa, o filho e um outro infeliz, que como eu, buscava em seus sonhos ser um guerreiro, porém tinha somente dez anos. Acho, opinião minha, que o dono da taverna estava me "reservando" para seu filho. Sei não. Pois acho que o filho do taberneiro não demonstra interesse por mim e sim pelos guerreiros que por ali passam...

A minha vida começou a mudar com o surgimento de um sapo. Sim! Um sapo! E pior, um sapo falante. Eu estava levando a comida para as vacas quando o sapo me chamou. "Ei moça! Moça!" Disse ele. Lógico que fiquei surpresa, mas com o tempo fui aceitando a idéia de confabular com o sapo. O anfíbio disse que foi vítima de um ataque de uma mulher rancorosa e vingativa e acabou sendo transformado em sapo e só um beijo de uma linda moça poderia reverter a situação, e ele estava disposto a me dar uma boa recompensa.

Apesar de todo asco que nutria por tal idéia, não era nada mal fazer uma boa ação ao infeliz. Ainda mais tendo uma gorda recompensa. Então fui acompanhar o nojento ser até um pântano nos limites da cidade, pois, segundo ele, somente lá poderia quebrar o feitiço. E eu fui...

Chegando lá, fiz a minha parte, com todo nojo do mundo, toquei os meus lábios aos do sapo. Subitamente, as minhas pernas começaram a tremer e não conseguia ficar em pé. O meu corpo ficou todo dormente e caí no chão. Só aí, escutei a voz do sapo: "Você não sabia que alguns sapos são venenosos? Afinal, quem disse que só porque um sapo é falante, que o quê ele diz é a verdade?”. Então entendi que tinha caído no conto do sapo encantado.

Estava encrencada. Comecei a fazer as minhas preces.

Em segundos, vi-me cercada por inúmeros sapos de variados tamanhos e todos em cima e em torno de mim. O anfíbio, que me atraiu para lá, disse que eles eram de uma espécie de sapos-demônios, raríssimos por sinal, e eu era a grande ceia do final-de-semana. "Sinta-se honrada", disse ele. Engraçadinho...

Súbito, lembrei-me de uma coisa. Que ironia do destino. O único feitiço que aquele velho safado me ensinou foi uma estúpida magia que forçava a pessoa dormir. Até hoje desconfio se o velho não se aproveitava de mim com este encantamento. Quando terminei de recitar, todos os sapos estavam dormindo. Pensei que a paralisia do veneno atingisse a fala, mas acho que os sapos gostavam de ouvir a vítima gritar.

Depois de alguns minutos, voltei a me mover. Tive o prazer de usar um grande galho de arvore para dar fim às horrendas criaturas que dormiam. Enterrei todos no fundo da parte seca do pântano e levei um exemplar, morto claro, para vender para alguém que estivesse interessado. Qual não foi a minha surpresa que os sapos-demônios valem quarenta peças de ouro cada. Descobri que certos rituais precisam de sangue desses sapos por terem na sua dieta a preferência pelo sangue de moças virgens. Estou lisonjeada.

Não é preciso dizer que enriqueci-me. Comprei uma loja e vendo todo tipo de equipamentos, artefatos e bugigangas para aventureiros.

Bem... Eu não me tornei uma maga, mas conquistei aquilo que sempre sonhei.

Ser senhora do meu próprio destino.

Quando visitar a cidade de Tanus e precisar de equipamentos de qualidade, procure o empório da Jesse Sapinho. Sim! Este é o meu nome agora. Os sapos são a minha marca. Afinal de contas, sou a princesa que os sapos sempre procuram, não é verdade?

Verbetes que fazem referência

Crônicas de Tagmar-volume 1

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