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O Necromante .  

Por Airton França Diniz Junior

− Por que temos de morrer?
“O
A invernovoz destedo anoguerreiro promete...terminou a frase quase num sussurro enquanto olhava para mim, sem esperança, no chão, sua vida esvaindo-se ante seus olhos. O que eu era para ele? Um algoz de seus crimes? Um justiceiro que veio pôr fim aos seus dias pecaminosos na terra? Um feiticeiro que por infortúnio do destino cruzou seu caminho?

Eu o observei sem piedade, sem compaixão, esperando que o ceifador cumprisse sua tarefa hedionda e levasse seu espírito ao ciclo infrutífero do esquecimento. Um ciclo que um dia eu iria quebrar. Aguardei até que o véu turvasse seus olhos e o sopro da existência se apagasse de seu corpo. Sentei sobre sua carcaça, peguei minha lâmina e dirigi a adaga para sua garganta enrugada, suja e fedorenta. Penetrei a pálida carne buscando os vasos do pescoço e extraí seu sangue escuro, o outrora líquido vital. Enquanto observava-o preencher o receptáculo do que poderia vir a ser uma poção, entreguei minha mente ao devaneio de como me tornara o que eu era hoje e de quando me transformara naquele pesquisador da imortalidade, da transcendência, da busca pelo elixir da eternidade, do conhecimento da vida e da morte, de descobrir ter a mesma natureza íntima dos primordiais e dos não-nascidos. Quando meus olhos se tornaram frios o suficiente, quando me olhei tão profundamente pela primeira vez e vi um mármore duro e alvo perdido na imensidão gélida de uma nevasca eterna? Quando?

****


O céu acinzentado das Geleiras foi tomado por uma súbita nuvem escarlate acastanhada. Um trovoar retumbante ecoou pela região. Lonios suava frio, respirava profundamente e lutava contra a teimosia de seus olhos que insistiam em permanecer fechados. A concentração atingiu o máximo. Energias místicas fluíram através de seu corpo.

A coloração do céu, que parecera, a princípio, uma miragem ilusória, agora se solidificara, como se prestes a despejar alguma praga horrenda sobre os que estavam sob ela.

Lonios executou um elaborado gesto arcano. Súbito, imensos blocos de rocha meio fumegantes caíram literalmente do céu sobre o lagarto gigante de duas cabeças cuspidor de gelo que praticamente devastara seu bando.

O feitiço proibido fora evocado. Um gosto amargo atravessou os lábios do mago; ele jurara ao seu mentor e diante de Palier nunca utilizá-lo, um juramento de sangue, diante do Colégio, como era o costume tendo em vista sua situação. Ele sabia as consequências da quebra deste. Mas de que adiantaria o conhecimento sem os frutos deste? Ainda bemmais naquela situação crítica. Por que amanhãa estareidivindade longeprotetora dos magos e do saber limitaria o seu uso? Mesmo que esse saber viesse da forma que Lonios o adquirira. Seria Palier tão arrogante a ponto de punir seu seguidor simplesmente por usar o conhecimento para se manter vivo e aos seus confrades?

Uma sucessão tonitruante de explosões se seguiu erguendo uma enorme nuvem de gelo que bloqueou a visão. Correntes de vento gélido varreram o local do embate; pequenos fragmentos de rocha e espículas de gelo atingiram a face de Lonios que teve de abrigar-se no chão. O bombardeio continuou enquanto o céu voltava lentamente ao azul cinzento. Ao final, a vil criatura parecia agonizar silenciosamente em meio aos escombros do que outrora fora seu covil. Suas bocas tentando inutilmente livrar-se do sangue, que saia em golfadas intermitentes. Sua respiração nauseabunda bafejando pequenas correntes de ar enregeladas cada vez mais fracas.

A nuvem dissipou-se e por sobre o corpo caído Lonios viu erguer-se a figura imponente de seu irmão Doriam, o arrogante sacerdote. Na face, um sorriso orgulhoso e presunçoso, como se fora o próprio a derrotar o algoz de seus companheiros caídos. Em suas mãos, a espada sagrada de sua ordem, aquela que as regras de seu credo proibiam de retirar do templo sagrado. Alguns golpes e as cabeças da criatura-demônio rolaram aos pés de Tiar, o guerreiro, coberto de gelo, sangue e sujeira. O último sobrevivente além deles. Ele espetou uma delas com seu montante e sentou-se sobre a outra. A luta findara. Bastava colher os materiais que o artífice de Telas encomendara a eles, e poderiam sair daquela região maldita. Uma fogueira e um guisado quente os esperavam. Além de um polpudo pagamento.

O inimigo tombara, mas Lonios realizara o que por juramento solene prometera nunca fazer; Doriam também procedera contra o que gerações de sábios sacerdotes orientaram jamais fazer.

Uma vitória fora alcançada, mas dois juramentos foram quebrados.

O destino teria contas a acertar com ambos...

****


O receptáculo encheu-se. Levantei-o de modo que ficasse à frente de meus olhos; misturei pó de ossos junto com extrato seco de veneno de escorpião negro e agitei-o até que o líquido perdesse o escuro tom magenta e ficasse quase transparente para que eu olhasse através dele. Além de mim descortinava-se o esboço de uma montanha, mas também haviam árvores. Uma floresta...

****


As árvores demônios da floresta de Tambar em Ludgrim ergueram-se na sombria clareira ao redor do grupo como imensos monólitos vivos prestes a desmoronar sobre eles. Estranhos olhos rubros dardejavam ódio em faces distorcidas e agonizantes que se projetavam de seus troncos; longos galhos sinuosos cheios de folhas escuras e grandes espinhos pareciam como garras prontas para dilacerar suas carnes; e enormes fendas cheias de presas escuras e seiva fétida e viscosa se abriram para engolir os mercenários.

Ante tal visão, ficara claro porque as patrulhas não retornavam. A caravana também nunca mais seria encontrada.

Elder, o rastreador, e Zio, o ladino, se tornaram as primeiras vítimas. Surpreendidos pelas raízes das árvores, que se ergueram serpeando do solo, não tiveram como reagir e desapareceram nas profundezas da floresta, arrastados por elas. Seus gritos de aflição e horror quebrando o silêncio sepulcral do ambiente.

O combate começou. O grupo estava nitidamente em inferioridade, mas era corajoso e lutava com bravura ímpar. O mago procurou se proteger enquanto pensava em que feitiço usar.

Cruine acertou suas pendências com Tiar naquele dia. Após derrubar um par de árvores com seu imenso montante, ele foi colhido ao meio por alguns espinhos de um galho que atravessaram sua armadura e, antes que alguém pudesse ajudá-lo, sumiu no interior da fenda de uma das árvores. O tronco começou a se contorcer, os galhos chocaram-se uns com os outros, derrubando as poucas folhas que neles havia e os gritos desesperados do guerreiro ecoaram em meio ao fragor da luta. A seiva viscosa da árvore tornou-se avermelhada e, num instante, tudo estava acabado.

Doriam urrou de raiva e avançou com a espada sagrada de sua ordem sobre o algoz do companheiro. A fúria estampada no rosto. De nada valeram os gritos de alerta de Lonios para o irmão. Dali a instantes o bravo sacerdote era atirado para trás, com vários ferimentos trespassando seu corpo. Sua vida esvaindo-se rapidamente, juntamente com seu sangue.

O mago pensou rápido, porém de maneira imprudente. A fórmula arcana já estava em seus lábios e os gestos foram elaborados apressadamente. Uma enorme bola chamejante partiu de suas mãos e foi chocar-se com uma das árvores-demônio, expandindo-se além do esperado por ele. As chamas alastraram-se, lambendo o corpo de Doriam e engolfando também os dois guerreiros restantes do grupo.

O místico ficou paralisado, seus membros gelados, presos, enquanto via o fogo mágico consumir a existência de árvores, monstros, homens e seu próprio sangue...

****


As lembranças trazem um breve esgar aos meus lábios, repuxando a pele cicatrizada de meu rosto. Olho para o receptáculo e vejo que o líquido ficou completamente transparente. Guardo o frasco junto com os demais e manejo novamente a adaga descendo até o tórax do guerreiro. Cuidadosamente abro uma larga incisão do lado esquerdo, afastando carne e ossos até chegar a seu coração. Fico impressionado como aprendi tudo isso; esses conhecimentos do corpo mortal, de seu interior e de seus componentes. O conhecimento de tudo isso!”.que me transformou, abriu minha mente, me fez abandonar a futilidade do riso, a hipocrisia da alegria e a inutilidade da busca do domínio dos elementos.

Tenho o coração em minhas mãos ensanguentadas. Um órgão singelo, que parece quase pulsar ainda, como se meu desejo de conhecimento pudesse fazê-lo palpitar. Ele me lembrava outro coração...

****


Lonios sabia o que dera errado. A investida no covil do bruxo necromante fora bem planejada nos mínimos detalhes. Eles deveriam resgatar a noiva aprisionada do filho de um nobre de Pechara e sair tão furtivamente como entraram. As chances de algo inesperado ocorrer eram mínimas.

Mas tudo dera errado. Nambar, o ladino – sempre ele – tivera a estúpida ideia de mexer num baú trancado e não conseguira desarmar a armadilha elétrica que estava instalada. Agora jazia, eletrocutado, sobre o objeto de seu mortal desejo. Infelizmente, o barulho atraíra a atenção dos servos desmortos do feiticeiro que acorreram ao local aos borbotões.

OSuas pensamentoenergias lampejoumísticas naestavam menteno fim e seus sortilégios mais potentes não podiam ser usados naquele local apertado. Não cometeria o mesmo erro que custara a vida de TanosDoriam, enquantoseu eleirmão erguiamorto, maisperdido umapara caneca de cerveja. A espelunca do velho Robam, àquela hora da noitesempre e com o tempo que fazia lá fora, parecia anormalmente cheia. A tempestade de neve que rugia em Brual não espantara a clientela fiel do sexagenário taverneiro. Elas não eram incomuns no inverno do sul de Eredra, mas a daquela noite estava mais forte que o habitual.

Antesmarcara de pedir mais uma dose, ele já se decidira. Seria sua última caneca por aquela noite. Tinha de se deitar logo, poispara o dia seguinte seria atarefado. Chamou a atendente, uma bonita jovem de cabelos escuros, corpo sinuoso e olhos negros, que ele nunca tinha visto por aquelas bandas e que despertara olhares cobiçosos em vários fregueses, inclusive nele mesmo. Será que o velho Robam estava dormindo com ela? E, a propósito, ele não vira o taverneiro no local naquela noite...

− Minha querida beldade, me veja mais uma cerveja, sim?

A jovem olhou-o profundamente e sorriu.

− Tem certeza de que quer beber mais uma, senhor? Não parece estar muito bem.

Tanos deu uma gargalhada. Encorajado pelos humores do álcool, estendeu suas mãos calejadas e tocou no braço da atendente. A pele dela era deliciosamente macia.

− Minha querida, como se chama?

Ela encolheu-se ante o toque daquelas mãos ríspidas e grossas.

− Arine, meu senhor.

Ele chegou-se à moça e falou com uma voz ébria e arrastada:

- Pois saiba, Arine... que não será uma simples caneca de cerveja que irá dar cabo de um homem como eu. Já sobrevivi a coisas muito piores... Fique tranquila. Agora me veja logo esta bebida que eu quero ir embora.

A atendente serviu a caneca do líquido espumante com uma expressão indecifrável no rosto e virou-se para atender outro cliente.

Rindo da atitude da moça, ele pegou o grande copo de vidro com certa dificuldade. Ela tinha razão. Já estava embriagado. Depois de tantas doses, até gestos simples requeriam um pouco mais de concentração. Levou o copo até a boca e virou num único gole, garganta abaixo. O líquido desceu lentamente provocando uma sensação de calor e prazer por todo o seu corpo.

A sensação lembrava vagamente a excitação que sentia quando ainda era um matador profissional, um assassino, um “sombra mortal”. Aquele calor que lhe percorria o corpo, a sensação de poder, de domínio, que aguçava seus instintos frente à vítima. Prazeres diferentes, mas igualmente inebriantes para ele.

Apesar de lembrar como se sentia, Tanos não era mais o mesmo. Estava ficando velho e cansado demais para esses antigos costumes. Cansado daquela vida, das mortes, das fugas, das faces pálidas e sem vida de suas inúmeras vítimas. Um dos únicos prazeres disponíveis naquela alturaresto da vida, ele encontrava em alguns copos de cerveja nas noites frias e insípidas de Brual.

Como um dos “sombras”, ele se tornara um dos mais habilidosos de todo o grupo. Conhecia segredos e informações que envolviam a podridão política de vários governos e membros da sociedade. Também sabia coisas demais da Guilda. Já dera cabo de um sem número de pessoas, importantes ou nem tanto. Escapara de inúmeros ardis e colecionara algumas cicatrizes profundas, tanto no corpo como nano espírito. Por quê? Para quê? A fatalidade do ocorrido ao sacerdote ainda pesava enormemente em sua consciência. Martelava seus pensamentos e corroía sua alma. DuranteE a culpa, sua vidamaldita conseguiraculpa... juntarA lembrança do juramento quebrado veio-lhe à mente; seriam os deuses tão vingativos assim?

Seria o destino final de todos servirem de alimento aos vermes da terra ou de serem escravos de algum poder divino ou das trevas? Estaria Doriam condenado ao esquecimento? Estaria ele sentenciado a viver com aquele sentimento o resto de sua fútil existência? Não, deveria haver outra resposta, outro sentido; não podia ser simplesmente assim.

“E há outro sentido”... Uma voz na sua cabeça...

Sacudiu a face queimada, surpreso, enquanto observava impotente, Ravem cair diante de uma quantiadezena razoávelde mortos-vivos. Carnos tentou resgatá-la, mas, mesmo destruindo os monstros, chegou tarde demais.

Subitamente, dois corpos se ergueram do meio da carnificina. Presos no horrendo hiato que lhesepara garantiriaa vida e a morte moviam-se vagarosamente em sua direção. Os rostos – que davam a impressão de que as criaturas, quando vivas, eram mulheres – estavam desfigurados. Suas roupas, agora rasgadas e em trapos, transpareciam ser finas e usadas por damas de nobre nascimento. Uma delas parecia usar um anel na mão direita...

Será que...? Não, não poderia ser... Aquilo seria uma velhicepiada tranquila,dos deuses?

“Ninguém precisa morrer. Não precisa deixar de existir”. Outra vez aquela voz. O que estava acontecendo?

– Seres das trevas, que a luz de Selimon resplandeça e a escuridão seja banida de sua existência – a bravata veio de Helair, a sacerdotisa. Com um gesto de fé, mostrou às almas penadas o talismã metálico com o símbolo do Senhor da Paz. Um bruxuleante feixe de luz esmeralda fez com que os últimos inimigos conhecessem o descanso eterno.

“Deixa-me mostrar que a morte não precisa ser temida. Além dos reinos de Cruine estão os segredos da vida eterna, da imortalidade. Abandone o temor, a crença, os elementos; abrace a dúvida, o questionamento, os segredos. Deixa-me mostrar-lhe o caminho; contemple o oceano incandescente e renegue o ciclo do esquecimento”. A voz ficava cada vez mais forte, mais audível, seus argumentos mais palatáveis, aceitáveis.

Helair e Carnos acorreram para os fundos do recinto, procurando arrombar a porta que acreditavam levar para fora daquele salão de horrores.

– Lonios, vem! – gritou o guerreiro.

“Sei o quanto desejas conhecer os segredos além do véu do caos, do suposto fim de tudo. De ter respostas para seus questionamentos. Sei o quanto desejas, no fundo do teu coração, transcender os primordiais. A recompensa te espera”.

Sim, apagar da existência o dia em que extinguira a chama da vida de Doriam, de nunca mais viver corroído pela culpa, de conhecer os segredos que prolongam a existência, de se sobrevivesselibertar das amarras das parcas e de conhecer a fundo os mistérios escondidos além das barreiras de Cruine. A sabedoria sem restrições...

O que precisaria fazer?

– Lonios, que diabos, mago! O que está esperando? – a voz de Helair trovejou no interior do recinto.

“Ninguém que não seja como você pode compreendê-lo. Somente você pode ter acesso aos mistérios, NINGUÉM MAIS”.

A partir dali borrões de lembranças...

Energias místicas fluindo, vozes guturais, gestos, gritos, fogo, raios, dor, silêncio, um fulgor luminoso de uma lâmina, sangue, muito sangue.

Lonios se recorda de ter o coração de Helair nas mãos e o apresentar a uma forma fantasmagórica, encapuzada e negra que surgira à sua frente. Olhos brilhantes fulguravam em um rosto de semblante duro e sem expressão. Em suas mãos um anel com uma opala polida e uma estrela de prata engastada sobre ela, foi-lhe oferecido.

– Seja bem-vindo, irmão; eu sou Nabu. Todos os teus confrades te saúdam!

– Mestre!

****


Guardo o coração em outra caixa, junto com os demais que já havia retirado. Eles me servirão para usufruí-la.muitos estudos. Levanto e olho para os que tombaram ali na clareira. Mais um grupo de aventureiros enviados para dar fim a minha existência. Eu não sorrio, nem ao menos esboço ares de satisfação. Não há por que. Hoje, acho que se havia algum sentimento ou emoção em mim, ficou obscurecido no passado, nas cinzas que consumiram meu velho eu. Hoje, acredito que vivi o suficiente para saber como é inútil a felicidade. Uma ilusão. Só o conhecimento resta. Só o conhecimento pode vencer a ignorância e abrir o véu dos mistérios da vida e da morte. E eratranscender a morte é conhecer os segredos da vida.

Arrumo cuidadosamente os componentes do feitiço no chão. Meus olhos vislumbram os servos parados a poucos metros atrás de mim aguardando a chegada dos novos irmãos. Concentro-me e sinto o quemar de fogo e caos emergir em meu interior. Recito a fórmula exatamente como aprendi. O gestual como ensinado. Componentes sendo consumidos. Um ligeiro relampejar verde enegrecido emana dos corpos caídos. Músculos rijos começam a se mover, tendões a se retesar, articulações rangem e, por fim, os corpos mutilados se erguem.

Um pequeno sorriso, tênue e infantil, parece esboçar em meus lábios, mas ele pretendiarapidamente desaparece. Contemplo meus novos “filhos”. Minha herança para este mundo decaído e preso às limitações impostas pelos deuses.

Volto-me e me dirijo para a partirtorre doonde diaresido seguinte.nas Resolveraencostas dardas montanhas de Keiss. Caminho segurando meu cajado. Hoje sou forte o suficiente para não precisar me apoiar nele; no futuro, não serei velho o suficiente para fazê-lo. Os grilhões de Cruine não me aterrorizam mais e seus guardiões não me inspiram mais respeito. Não me importo com os deuses; são egoístas ao extremo ao privar seus chamados filhos de um basta.tesouro Emque segredose absoluto,arrazoam arranjarapertencer umsomente meioa deeles. partirTambém nanão primeirame caravanaimporto paracom Planaas pessoas. Suas existências são fúteis e breves. iniciariaContentam-se umacom novao parco período que vivem nesta vida. AbandonariaAceitam, ospassivamente, “sombras”serem limitados pelos primordiais, jogados no ciclo vicioso sem fim da morte e renascimento, perdendo tudo o que seconquistaram referiaanteriormente. aPreferem eles.brincar Fugiriacom paraseus longejoguinhos dosinfantis fantasmasde poder e glória efêmera. Seu castigo merecido é serem servos, como estes que assolavamme suas noites insones...seguem.

ResolveraNão comemorarme atornarei liberdadeum comdeles. uma última visita à tavernaDaqui, do velho Robam. Mas se excedera na comemoração.

Enfiou a mão no bolso e tirou algumas moedas para pagar pelas bebidas. Pegou duas delas ao acaso e depositou sobre o balcão de madeira. Sua vista embaçada o impediu de identificar a quantia exata, mas ele captou enquanto preparava-se para sair, o olhar espantado da atendente, suas mãos hábeis literalmente voarem para cimaalto das moedasmontanhas, e sair correndo para o fundo do bar.

“Quantia a mais” – ele pensou dando de costas. Não faria falta.

Lá fora a tempestade de neve havia diminuído de intensidade. O frio nunca lhe agradara. Lembrava muito bem de quando visitou Conti, numa de suas viagens, muitos anos atrás. Suas andanças pelas noites agitadas de Muli e seu serviço como matador naquela cidade vieram-lhe a mente. Uma névoa triste cobriuobservarei seus olhos.

“Coisasreinos do passado” – ele pensou. Ainda assim, lembrou-se, rindo, dos problemas que teve e de suas implicações nos seus hábitos até algum tempo atrás. Agora, viver ou morrer fazia grande diferença, algo que não pensava muito no passado.

No caminho até a porta de saída, ele teve a real noção de quão bêbado estava. Tudo parecia rodar à sua frente. Mesas, cadeiras, luzes e o próprio chão giravam constantemente. Seu estômago embrulhou. Apoiando-se por vezes em alguns clientes, ele venceu com dificuldade o caminho até a saída. Se seus superiores o vissem agora...

Empurrou a porta. A liberdade o aguardava.

O vento gelado pareceu despertá-lo por alguns instantes e enquanto vestia seu casaco marrom, percebeu que não conseguiria chegar a sua casa esta noite. Dotado ainda de algum resquício de lucidez, concluiu que deveria passar a madrugada na estalagem da velha Neage, próxima ao bar.

Enfiando os pés na espessa camada de neve que se formara, seguiu lentamente, munido de toda sua concentração para não escorregar ou tropeçar nas próprias pernas.


***



A noite estava escura e os ventos gélidos e cortantes não pareciam causar dano algum à atarracada silhueta masculina que permanecia, há algumas horas, envolta em seu casaco de pele de urso, de frente a taverna, observando todo o movimento.

Rogar era um anão forte e encorpado que fora condicionado a enfrentar qualquer tipo de temperatura adversa. No seu ofício, as viagens eram constantes e para as mais diferentes localidades. Ele poderia passar noites nas Geleiras ou dias nos desertos da Levânia e sobreviver utilizando-se de técnicas secretas, aprendidas durante seus anos de duro treinamento. Seu vigor físico era notávelcaírem e suas habilidadespueris incomuns para alguém de sua raça, faziam justiça à sua ocupação.

Rogar era um assassino profissional de elite, um “sombra” especializado em eliminar “incômodos”. Algumas pessoas sabiam demais, outras de menos, mas contrariavam gente muito poderosa. Ele era o mediador, o juiz e o carrasco entre as partes. Claro que a parte menos favorecida acabava sempre eliminada.

Eleesperanças se julgavadesvanecerem; opois melhoreu name sua arte. Não conhecia os demais “companheiros” de profissão, mas sua soberba e arrogância eram ímpares. Sempre exigia os melhores contratos e os melhores pagamentos. Em sua empáfia, imaginava-se melhor até que Teo, o lendário e nunca visto líder da Guilda e em seus delírios egocêntricos, imaginava-se matando Teo e assumindo a chefia dos Sombras Mortais. Suas atitudes gritavam os desejos mais profundos de seu coração.

Mas antes tinha um contrato a cumprir. O sujeitodivirto com aparência de velho dentro da taverna seria sua vítima esta noite.

No contrato as ordens eram claras: uma morte limpa, sem resquícios ou pistas fortuitas. Sem testemunhas ou falhas. Tudo deveria parecer um acidente. Seu pagamento integral dependia disso. Pelo menos eram as palavras contidas no pergaminho que recebera há dois dias. A descrição da sua vítima era bem pormenorizada... Algo raro naqueles dias, mas ele não se importou com o fato. Até o local onde o mesmo morava fora fornecido. Tinha sido fácil para o anão localizar e seguir o humano até aquele local.

A porta do bar se abriu. Era seu alvo que partia cambaleante pela rua. O assassino saiu de seu esconderijo notando que tudo seria mais fácil nesta noite. O homem era alto e robusto, mas estava completamente bêbado, o que lhe dava uma grande vantagem. O que algumas doses consideráveis de álcool no organismo de um humano não faziam no mesmo...

Ele sabia que algumas canecas de cerveja eredri eram o suficiente para causar perdas importantes em algumas funções mentais como percepção de distância, agilidade e velocidade. Eram informações muito úteis para um exímio matador profissional como ele.

Movendo-se com grande destreza, o assassino se aproximou pela retaguarda. Seus olhos fixaram-se na vítima enquanto os outros sentidos se mantinham atentos à volta de seu perímetro. Os músculos contraídos estavam prontos para agir no momento certo. Seria bem rápido.

Aproximar sorrateiramente e surpreender...

Podia ouvir os passos vacilantes do homem e sua respiração ofegante.

E então, agiu.

Com grande velocidade atacou a vítima surpresa dando-lhe um potente golpe no joelho direito e imobilizando-a pelo pescoço quando esta vergou sob o peso da dor. Esta era uma técnica simples. Interromper a respiração até que seu oponente perdesse a consciência.
O homem tentou debater-se por um tempo, inclusive utilizando alguns golpes incomuns para sua pessoa, mas, além de embriagado, ele não tinha força suficiente para vencer seu algoz e Rogar tinha braços robustos que apertavam como um torniquete. Pouco tempo se passou e o velho bêbado desabou inconsciente. Seu rosto chocou-se violentamente contra uma parte de chão descoberto provocando um corte na testa.

O assassino olhou em volta.

Ouvia apenas vozes vindas do interior da taverna. Ninguém se atrevera a sair naquela madrugada fria com uma tempestade de neve ainda caindo. Agachou-se sobre a vítima e a posicionou de costas no chão. Com uma das mãos ele raspou o chão coberto por uma fina camada de neve até juntar uma quantidade razoável ao lado do desafortunado homem. Logo depois, abriu a boca do bêbado o máximo que conseguiu. Lentamente foi enfiando a neve amontoada pela garganta do velho até preencher cada espaço vazio.

Era sua técnica mais fina. A morte branca...

Ela consistia em bloquear a respiração do alvo até que este morresse asfixiado. A neve iria interromper suas vias respiratórias tempo suficiente para matá-lo. Logo depois, o calor que ainda restaria no próprio corpo lentamente derreteria qualquer vestígio de neve em sua garganta.

Era a morte limpae ela não me conhece mais pelo meu nome. Os mortais também não recordam mais o meu nome, envolto em brumas do desconhecido, pois me tornei mais que seuum contratonome pedia.poderia Dinheiroser; fáciltornei-me deuma lenda, alguém a ser ganho.

Levantou-setemido e rapidamenteevitado. eAlguém começouque busca a preparar o cenário para dar a falsa impressão de acidente. Ninguém iria suspeitar de um bêbado que tropeçara, batera a cabeça no chão, desmaiara e se asfixiara com a cabeça enfiada em alguns centímetros de neve.

Ele, entretanto, logo estaria longe dali, provavelmente iria para o sul de Ludgrim. Agrimir era um local tranquilo e isolado.

Olhou novamente para sua vítima. Quem será que ele era?

Numa fração de segundos, algo inesperado aconteceu. Sentiu uma dor aguda no pescoço, bem no local descoberto de seu casaco. Levou as mãos, por puro reflexo até o localchave da dor.

Umaeternidade. expressãoNão de horror tomou sua face.

Seus dedos tocaram um minúsculo dardo profundamente encravado em sua pele amorenada. Tentou girar o corpo para localizar o agressor, mas quase instantaneamente seu corpo endureceu e seus músculos nãosou mais obedeciamLonios. aosSou seusapenas comandos.O Sua respiração se tornou difícil, seu coração bateu mais rápido e parecia querer explodir dentro do seu tórax. Seus olhos vidraram e ele tombou.

Antes que atingisse o chão, seu corpo estava morto.Necromante.


***



Uma silhueta emergiu agachada, das sombras do fundo de uma pequena viela que saia dos fundos da taverna. Estava envolta em um volumoso casaco branco e em suas mãos carregava um pequeno tubo cilíndrico feito de madeira. Na semiescuridão de seu refúgio ela observou o corpo do anão desabar sobre o do velho bêbado da taverna.

Estava feito. O alvo fora eliminado.

Missão executada. Levou a mão ao pergaminho que continha as instruções detalhadas do que deveria fazer para que pudesse adentrar à Guilda. Elas haviam ordenado a morte da vítima a qualquer custo. E isto fora realizado. Fácil até. Suja? Sim, talvez, porém precisa.

Um discreto sorriso iniciou-se na face do algoz enquanto guardava sua arma de sopro. Ele retirou a máscara branca e jogou para trás o capuz do casaco revelando uma jovem e feminina face branca e aveludada, de traços leves, olhos negros e cabelos escuros. Ergueu-se. Seus contornos sinuosos se desenharam em sombras voluptuosas nas paredes. A tempestade ainda lavrava, mas amenizara um pouco mais. Ela voltou seus olhos para sua sombra e recordou-se dos olhares cheios de luxúria que a acompanharam durante toda a noite, na taverna. Lembrou também da conversa que tivera com o bêbado.

“Minha querida, como se chama?” – Ele perguntara.

“Arine, meu senhor”. – ela mentira.

Sorriu. Poucas vezes tinha se permitido sorrir como fazia agora. Se soubesse, se tivesse imaginado que a missão seria tão fácil assim, não teria perdido a noite de sono anterior. Havia conseguido ludibriar o velho sexagenário dono da taverna para que a contratasse como atendente já que o alvo de seu alvo frequentava aquele lugar, conforme lhe dissera as instruções no pergaminho. Uma pequena promessa de uma noite cheia de prazeres convenceu o idoso a lhe arrumar o emprego. Homens... Tão fáceis de serem manipulados.

Agora ele se encontrava rígido e inerte no depósito nos fundos de seu estabelecimento. Ela assumira a função de atendente até a vítima de seu alvo sair da taverna, totalmente embriagado. Ele ainda a presenteara com duas moedas de prata colocadas erroneamente sobre o balcão. Saíra rapidamente pelos fundos e se posicionara na saída da viela. Quando dessem por falta dela e do dono da taverna ela já estaria longe dali.

Preferiu usar sua arma de sopro a confrontar diretamente seu objetivo. Algo mais sutil, como um verdadeiro assassino o faria. O veneno que o dardo levava era sua mais nova descoberta. Rápido, fulminante e desaparecia em pouco tempo.

Enfiou a mão no bolso de seu casaco e retirou uma garrafa de vinho de Conti. Uma última recordação do velho Robam. Deu um grande gole. Absorvia o momento de prazer que sentia a cada missão terminada com sucesso. E esta ainda era a mais importante de sua curta trajetória de assassina em Eredra. Abrir-se-iam portas nunca antes imaginadas. Só tinha mais uma coisa a fazer. Tirar o anel do dedo do anão e colocar num local pré-estabelecido no contrato.

Pensou ouvir algo se aproximando, mas nada tiraria sua concentração do prazer que estava usufruindo, da agradável sensação de se sentir valorizada, de se sentir importante.

O vento trouxe um odor estranho. Em seus treinamentos ela fora instruída para reconhecer cheiros, mas o aroma do vinho lhe impregnava as narinas. Respirou fundo mais uma vez e então percebeu, tarde demais, que odor era aquele.

Suor misturado à aguardente eredri de péssima qualidade.

Uma mão pesada pousou sobre seu ombro esquerdo fazendo gelar seu abdome e tencionando os músculos. Seu coração disparou.

Ela soube que cometera um grave e fatal erro. “Estúpida! Idiota!” Um sem número de imprecações varreu sua mente.

Entregue ao seu destino, relaxou os ombros e lentamente virou o rosto buscando visualizar seu executor.

Surpreendeu-lhe ver um velho barbudo e maltrapilho encarando-lhe, cambaleante, e dizer, com os olhos bem vermelhos:

− Dá um trago, dona?

Ela suspirou profunda e longamente e deu a garrafa inteira.


***



Enquanto tomava um gole do vinho que a moça havia-lhe dado, Teo pensava o que iria fazer. Dois empecilhos eliminados. Ela era descuidada e pouco experiente, mas tinha a história do novo veneno. E aquele corpo...


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